O NetLab, laboratório de estudos de internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contestou a Meta sobre o bloqueio de conta utilizada pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pediu transparência das plataformas do conglomerado. A manifestação ocorre após a empresa responsável por Facebook, WhatsApp e Instagram negar favorecimento político e pedir o arquivamento de uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Pesquisa Quaest: Flávio tem 45%, e Lula marca 44%; distância diminui a quatro dias da eleição Eleição: Bolsa Família volta a pautar campanha após falas de Flávio e cotada a ministra abastecerem ataques de Lula Na terça-feira, a Meta afirmou ao TSE que deu tratamento igual às campanhas, sem privilegiar o conteúdo de nenhum candidato. A Corte havia determinado que a empresa se manifestasse em 24 horas e comprovasse que não há favorecimento, o que está sendo alegado pelo PT. Em manifestação entregue ao ministro Marco Aurélio Bellizze, relator de uma representação movida pelo PT sobre o caso, a Meta elencou uma série de determinações que lhe foram impostas, junto das respectivas medidas que adotou para corrigir os problemas. Em nota publicada nesta quarta-feira, o NetLab trata sobre a "desativação temporária" de uma das contas utiizadas pela campanha petista. A Meta afirma que bloqueou a conta de anúncios de Lula por engano, durante uma análise antifraude feita em acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU). Mas, segundo o laboratório, os dados contam outra história. "Com nosso histórico de pesquisa sobre evidências de esquemas fraudulentos envolvendo políticas públicas nas plataformas da Meta, essa explicação nos chamou a atenção. Afinal, desenvolvemos uma infraestrutura de monitoramento contínuo de anúncios problemáticos, irregulares, potencialmente ilegais e fraudulentos que circulam nessas plataformas e, apesar dos reiterados alertas que emitimos, a empresa não demonstrou ser capaz de combater efetivamente esses esquemas", diz o NetLab. Os pesquisadores fizeram, então, uma análise dos anúncios entre os dias 16 e 30 de setembro, uma vez que a falha da plataforma teria ocorrido no dia 23.
"Os resultados confirmaram o que já era possível imaginar: ao longo desse período, pelo menos 967 anúncios que exploravam programas federais circularam no ecossistema da empresa, publicados por 42 páginas diferentes, das quais 26 permanecem ativas", diz o relatório. O relatório mostra, por exemplo, que uma única página — já fora do ar — teria sido responsável por 251 anúncios relacionados ao programa Desenrola Brasil no período analisado. De modo geral, o que os pesquisadores encontraram foram anunciantes apócrifos, "que se escondem por trás de nomes genéricos e se proliferam em razão dos mecanismos ineficazes de verificação de identidade e idoneidade dos anunciantes pela Meta".
"Mecanismos que, pelo que os dados sugerem, parecem estar menos orientados à efetiva proteção dos usuários do que à manutenção de um modelo de negócios em pleno funcionamento", sustentam os cientistas. O coletivo destaca também que cerca de 10% da receita da Meta seria proveniente de anúncios ilegais e fraudulentos, segundo uma investigação da agência Reuters. Os pesquisadores divulgam no documento o anúncio do PT que levou ao bloqueio da página. O NetLab compara com um exemplo de anúncio fraudulento que circulou no mesmo período.
NetLab divulga o anúncio da campanha do presidente Lula que motivou o bloqueio da página e exemplo de anúncio fraudulento veiculado nas plataformas da Meta no mesmo período Reprodução "A comparação suscita questionamentos sobre os critérios e os mecanismos técnicos utilizados pela Meta para tomar esse tipo de decisão. Se não houve motivação política por trás da medida, resta concluir que os mecanismos de detecção de fraudes da empresa são, no mínimo, profundamente ineficazes — uma infraestrutura tecnológica de segurança incompatível com uma companhia cuja receita, no ano passado, foi de US$ 201 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 1 trilhão", diz o labaratório. Diante desse contexto, os pesquisadores chegaram à conclusão de que, caso tenha havido uma intervenção da Meta, a ação "não foi suficiente para eliminar nem impedir a retomada da circulação desses anúncios". "É surpreendente, portanto, que a Meta justifique o bloqueio da conta de anúncios da campanha do presidente Lula como resultado de uma atuação diligente no combate a fraudes envolvendo políticas públicas brasileiras. Afinal, trata-se de uma conta oficial de campanha, devidamente declarada à Justiça Eleitoral, conforme exigido pelo TSE. É razoável esperar que a empresa reconheça essa condição, sobretudo no cumprimento de seus deveres de diligência durante o processo eleitoral", afirma a nota. O laboratório argumenta que "só há uma maneira de dirimir qualquer dúvida sobre a idoneidade da empresa: com transparência". "Os representantes da Meta podem falar, escrever notas, artigos e peças jurídicas sobre a idoneidade da empresa. Sem transparência, tudo é letra morta. As únicas evidências disponíveis que a sociedade brasileira tem para julgar o comportamento da empresa durante as eleições do país apontam para o contrário do que ela afirma", dizem os pesquisadores.
O Globo