A N5X, plataforma de negociação de energia ligada à B3 e ao grupo europeu EEX, estima que entre 70% e 80% do volume negociado de energia elétrica no Brasil possa migrar, no longo prazo, para operações com compensação centralizada e garantias financeiras. A projeção, baseada na experiência de mercados internacionais, ganha relevância diante da sucessão de crises de crédito entre comercializadoras brasileiras.
Segundo a companhia, os episódios de inadimplência provocaram um aumento da procura e do engajamento de empresas interessadas na futura estrutura de negociação. A novidade é a criação de uma contraparte central, conhecida como clearing, que ficará entre compradores e vendedores para administrar os riscos dos contratos negociados em seu ambiente.
Diferentemente das operações bilaterais tradicionais, nas quais cada empresa assume diretamente o risco financeiro da outra, o modelo contará com garantias financeiras e chamadas diárias de margem. A estrutura deverá ser capaz de absorver perdas em cenários extremos, segundo os parâmetros regulatórios aplicáveis.
“A crise de crédito evidenciou o problema estrutural que a N5X foi concebida para resolver”, afirma Camila Pantera, co-CEO da empresa. Segundo a executiva, a plataforma também tem despertado interesse de investidores internacionais, incluindo fundos de hedge e grandes tradings que ainda não atuam no mercado brasileiro por causa da exposição aos riscos de contraparte.
A companhia já reúne aproximadamente 50 empresas em sua plataforma bilateral, entre elas Axia Energia, Casa dos Ventos, Eneva, Energisa, Hydro, Minerva e Statkraft. A participação nessa plataforma, porém, não representa compromisso de adesão à futura clearing.
A iniciativa avança em paralelo às novas regras de fiscalização do mercado livre de energia. Como revelou o Radar Econômico, o programa de autorregulação da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), em vigor desde 1º de novembro, só começará a aplicar sanções em abril de 2027 e não punirá retroativamente infrações consumadas antes de sua implantação.
Enquanto a associação procura fiscalizar e punir práticas irregulares, a N5X pretende oferecer uma estrutura financeira para mitigar riscos nas operações realizadas sob sua compensação centralizada. Continua após a publicidade
A companhia protocolou em janeiro os pedidos de autorização junto ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Foram apresentadas mais de 3 mil páginas e cerca de 115 documentos técnicos, ainda em análise pelos reguladores.
A N5X pretende iniciar a operação no segundo semestre de 2027, quando o mercado livre também se prepara para receber pequenos consumidores comerciais e industriais de baixa tensão. A projeção de migração de até 80% das negociações, ressalta a empresa, não é uma meta para o primeiro ano.
A adoção deverá ocorrer gradualmente, com a consolidação de contratos padronizados e da liquidez. Também haverá custos associados à apresentação de garantias, que exigirão capital dos participantes.
O mercado bilateral continuará existindo, e a proteção da clearing ficará restrita às operações submetidas à sua estrutura. Publicidade
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