A mobilização dos movimentos de mulheres teve papel ativo na campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Organizadas em comitês, coletivos e ações em todo o país, elas defenderam a continuidade das políticas públicas de proteção de gênero e se posicionaram contra retrocessos e a pauta de ódio e preconceito da extrema direita.
Maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres também acompanharam, durante o governo Lula, a criação de medidas de enfrentamento à violência, como o Pacto Brasil Contra o Feminicídio. Para o quarto mandato de Lula, a ampliação de direitos e o combate à misoginia, o ódio às mulheres, seguem entre as prioridades defendidas por movimentos sociais, parlamentares e representantes do Partido dos Trabalhadores.
A agenda inclui o fortalecimento da Política Nacional de Cuidado, a promoção da autonomia econômica das mulheres, a igualdade salarial e o fortalecimento da rede de proteção às vítimas de violência, além de medidas legislativas para combater a discriminação contra as mulheres. Entre essas iniciativas está o Projeto de Lei nº 896/2023, conhecido como PL da Misoginia, que prevê a inclusão da discriminação contra mulheres na legislação que trata dos crimes de racismo.
Aprovada pelo Senado Federal, a proposta tramita na Câmara dos Deputados e enfrenta resistência de setores conservadores. Para a deputada federal Jack Rocha (PT-ES), coordenadora da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados e coautora de emendas ao projeto, o enfrentamento à misoginia é necessário para garantir a participação das mulheres na política e combater a discriminação nos espaços institucionais e nas redes sociais.
“Combater o ódio e a discriminação contra as mulheres é uma medida essencial para proteger a nossa democracia e ampliar a participação feminina nos espaços de poder”, afirma a parlamentar. A discussão sobre o PL da Misoginia ocorre em meio às cobranças por medidas que coíbam ataques contra mulheres na vida pública, incluindo candidatas, parlamentares e lideranças políticas.
A violência política de gênero atingiu um novo recorde nas eleições de 2026. Especialista em gênero, a professora Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem/UFMG), que aponta que o comportamento agressivo foi institucionalizado no cenário político recente, transformando-se em estratégia para esvaziar as pautas de igualdade por dentro do próprio sistema, inclusive com o uso de candidaturas femininas que defendem princípios conservadores.
“O machismo virou uma vitrine para ataques contra as mulheres de todas as formas possíveis”, recorda a pesquisadora. Entre as prioridades está, ainda, o fortalecimento da Política Nacional de Cuidados, com medidas para ampliar a oferta de serviços e equipamentos públicos, promovendo uma divisão mais equilibrada das responsabilidades pelo cuidado de crianças, idosos e pessoas com deficiência. A autonomia econômica também integra a agenda, com luta pelo cumprimento da lei da igualdade salarial entre mulheres e homens que exercem as mesmas funções, do acesso ao crédito e do apoio às mulheres empreendedoras.
Na área de segurança pública, as reivindicações incluem a ampliação dos serviços de acolhimento e proteção às vítimas de violência, articulados a políticas de moradia e geração de renda. Para Sônia Coelho, integrante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), a mobilização social é importante para pressionar o Congresso Nacional e garantir o avanço dessas propostas.
“Sabemos que o governo sozinho não consegue derrotar o conservadorismo do Congresso para avançar em tudo o que precisamos. Por isso, a organização das mulheres é a chave.
Precisamos continuar nos organizando em coletivos, conversando com a sociedade e construindo consciência social e feminista”, afirma. As reivindicações das mulheres rurais também fazem parte dessa agenda.
Acesso à terra, crédito rural, condições de produção e autonomia financeira estão entre as pautas defendidas por organizações de mulheres do campo, das águas e das florestas. A secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, destaca a importância da organização sindical e dos movimentos sociais para levar essas demandas ao debate público.
Para Mazé, reconhecer as demandas das trabalhadoras rurais significa considerar o papel das mulheres na produção de alimentos e no desenvolvimento econômico, além de ampliar as condições para sua autonomia financeira. “Minha trajetória no sindicalismo rural e na Marcha das Margaridas me ensinou que o feminismo popular não brota dos gabinetes, mas da terra”, afirma.
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