A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), após derrota eleitoral no domingo, deixou uma série de questionamentos sobre a atuação de autoridades brasileiras, argentinas e norte-americanas no episódio. Após sair de Brasília, o parlamentar entrou na Argentina pela fronteira, em Foz do Iguaçu (PR), e embarcou em um voo para Miami, nos Estados Unidos, onde desembarcou nesta terça-feira.
Alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento em supostos esquemas de lavagem de dinheiro, Flávio estava com os passaportes brasileiros cancelados, mas não possuía nenhum mandado de prisão em aberto. Veja o que se sabe até o momento sobre o caso:
Por que a Polícia Federal deixou Flávio cruzar a fronteira e sair do Brasil? A PF argumenta que não há ordem de prisão de Flávio Bolsonaro e, por isso, não poderiam realizar ações de vigilância ou medidas cautelares que impedissem a sua circulação.
A única medida tomada até agora em relação ao senador foi o cancelamento dos passaportes brasileiro e diplomático, conforme ordenou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Na região da Tríplice Fronteira, entretanto, não há necessidade de apresentação de passaporte para quem deixa o Brasil.
O local é uma “área de controle integrado (ACI)”, que reúne no mesmo local agentes de aduana, imigração, vigilância sanitária e transporte de ambos os países. Nestes pontos, motoristas podem ser obrigados a parar para a verificação de documentos e dos veículos, mas como o fluxo é muito grande, essa fiscalização não costuma ser feita de forma ostensiva.
Dados levantados pela GloboNews, passam cerca de 23 mil pessoas e 8 mil veículos por dia pela ponte Tancredo Neves, que teria sido usada por Flávio para atravesar de Foz do Iguaçu, no Brasil, a Puerto Iguazu, na Argentina. A PF ainda tenta esclarecer se Flávio, de fato, passou por um posto de controle migratório brasileiro e não foi cobrado a apresentar os documentos.
Segundo os investigadores, não há registro formal de saída dele e de seus familiares nas aduanas brasileiras. Segundo informações do Ministério da Segurança da Argentina, Flávio atravessou a ponte às 22h50 desta terça-feira.
No controle migratório do aeroporto argentino, o político apresentou o seu passaporte italiano às 23h52. Qual foi o trajeto de Flávio no Brasil até chegar na Argentina?
Ainda há poucas informações sobre isso. Jornais argentinos afirmam que após deixar Brasília, entre a noite de segunda-feira e a terça-feira, Flávio teria ficado com a família em uma fazenda em Foz de Iguaçu, no Paraná, e atravessado a fronteira até a Argentina de van, contratada junto a uma agência brasileira de turismo.
Contatado pela reportagem, o dono da empresa negou ter feito o traslado do senador e familiares. Uma outra hipótese, sob investigação da PF, é que Flávio entrou na Argentina por via aérea, com uma avião privado.
A colunista Malu Gaspar, do Globo, revelou que um jato que pertence ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, voou de Brasília para San Fernando, nos arredores de Buenos Aires, na manhã de terça-feira. Ao longo da segunda-feira, o senador participou de três reuniões com políticos aliados na capital federal, além de uma visita à casa do seu pai, Jair Bolsonaro, em um condomínio fechado.
Quem ajudou Flávio a deixar o Brasil e viajar para os Estados Unidos? A PF trabalha com a suspeita de que Flávio contou com o apoio do governo argentino de Javier Milei para empreender a saída do país.
Entre os indícios está a presença de um assessor do presidente na região da Tríplice Fronteira, que estaria monitorando de perto a operação. Parlamentares argentinos que fazem oposição a Milei estão cobrando explicações do seu governo, como se houve o emprego de agentes de inteligência e recursos públicos na empreitada.
O governo de Donald Trump também indicou que estava ciente da ida de Flávio aos Estados Unidos. O Departamento de Estado, comandado pelo secretário Marco Rubio, informou na tarde de terça-feira que iria conceder vistos ao senador e seus familiares e que sua entrada nos EUA estava autorizada.
Segundo a coluna de Bela Megale, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro também ajudou na articulação da fuga do irmão. Conforme a reportagem, ele foi peça central na disseminação de desinformação para despistar que Flávio estava saindo do Brasil pela Argentina.
Aliados de Eduardo propalaram o plano que ele havia viajado via Venezuela. Os aliados políticos de Flávio sabiam?
O entorno do senador passou a terça-feira dizendo que estavam sabendo da ida aos Estados Unidos pela imprensa e que o parlamentar estava incomunicável. Num diálogo com o seu ex-coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), Flávio chegou a dizer que "estava esfriando a cabeça" e que eles deveriam conversar mais tarde.
Os seguranças do parlamentar também relataram que tentaram sem sucesso contato com o Flávio, que não lhes informou a agenda de terça. Em entrevista no fim da tarde de terça-feira, Marinho disse que foi pego de "surpresa".
Questionado se concordava, afirmou não ter sido consultado. — Então até compreendo caso Flávio tenha saído do Brasil.
Não digo que concordo porque não fui consultado — afirmou. Flávio pode ser extraditado dos Estados Unidos?
Antes de um eventual pedido de extradição, é preciso que a Justiça brasileira emita alguma ordem de prisão que justifique a medida. O Brasil possui um acordo de extradição com os EUA desde 1961.
Mas isso não quer dizer que Flávio será automaticamente preso e enviado de volta ao seu país em caso de pedido das autoridades brasileiras. Cabe à Justiça dos Estados Unidos decidir se as acusações contra ele são válidas no território norte-americano para autorizar uma eventual extradição.
Mesmo sem um pedido de extradição, Flávio pode ser deportado? Nas atuais condições, não.
O senador está autorizado a permanecer em território americanos após uma autorização normalmente concedida a imigrantes por "razões humanitárias". No documento de imigração do parlamentar, consultado pelo GLOBO, consta a classe de admissão "DT".
Na prática, a sigla indica que a permissão de entrada foi concedida no próprio local de entrada por meio de uma autorização temporária, não por causa de um visto previamente concedido. O registro, emitido em 28 de outubro de 2026, autoriza a permanência de Flávio por um ano, até 27 de outubro de 2027.
Inicialmente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos indicaram que o país emitiria vistos para o senador e sua família. O dado da entrada de Flávio, entretanto, indica que isso ainda não foi realizado.
O visto humanitário também pode ser revogado. Como Flávio vai se manter financeiramente nos EUA?
Flávio tem mandato de senador até fevereiro de 2027, com salário de R$ 46.366,19. Até o momento, ele não pediu licença do cargo nem indicou que abrirá mão dos valores enquanto não estiver no Brasil.
No pedido para reter o passaporte do parlamentar, a PF afirmou que Flávio conta com uma "estrutura" financeira e o "expressivo poderio econômico" de investigados para se manter nos Estados Unidos. Segundo os investigadores, parte desse dinheiro viria do seu amigo Willer Tomaz, que está nos EUA desde agosto e é suspeito de movimentar R$ 5 bilhões em plataformas de apostas.
Além disso, a PF afirma que o seu irmão, Eduardo Bolsonaro, já mantém uma "estrutura volta à permanência de longa duração". A saída do país pode levar Moraes a tomar novas medidas?
Doutor em direito Processual Penal pela USP, Renato Stanziola Vieira, afirma que dentro do figurino processual "é possível e é viável" novas medidas processuais, mas dependem de pedido da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Segundo ele, o fato de não entregar o passaporte e deixar o país podem justificar novas medidas.
— A decisão de Flávio pode significar um risco ao andamento da investigação e, portanto, justificar a imposição de outras medidas além das já decretadas, inclusive uma eventual prisão preventiva. O comportamento processual do investigado pode ter colocado esse próprio investigado numa situação de risco da manutenção da sua liberdade.
O Globo