Muito além do vale-refeição: A disputa bilionária pelos benefícios corporativos

Muito além do vale-refeição: A disputa bilionária pelos benefícios corporativos - Foto
Fonte da notícia: Notícias Veja Notícias Veja

O mercado de benefícios corporativos, que reúne os vales-alimentação e refeição e serviços oferecidos pelas empresas aos funcionários, como acesso a academias e atividades culturais, vive sua terceira grande transformação. Durante décadas, poucas companhias dominaram o negócio, com redes próprias de estabelecimentos e espaço restrito para novos concorrentes.

A chegada das startups, apoiadas em tecnologias digitais, ampliou as opções dos trabalhadores e levou ferramentas de gestão aos departamentos de recursos humanos. Agora, uma regulamentação que reduz barreiras à concorrência abre caminho para outra rodada de mudanças, desta vez com a entrada de grandes bancos.

A disputa passa a envolver a capacidade de atender tanto às necessidades das empresas quanto às demandas de seus empregados. Cartão de benefícios do C6: o banco entrou no setor com a compra da AlymenteDivulgação/.

Entre as empresas que desafiam as líderes tradicionais está o iFood, que tem recorrido a ofertas agressivas para conquistar clientes. Uma delas é a recompensa de até 10 000 reais a quem indicar uma empresa que se torne cliente do iFood Benefícios.

A bonificação é parte do esforço do gigante do delivery para ganhar espaço em um mercado cujo principal motor são os vales alimentação (VA) e refeição (VR), responsáveis por movimentar 150 bilhões de reais, segundo estimativas do Ministério do Trabalho e Emprego. A ofensiva incluiu tentativas de comprar concorrentes mais bem posicionadas, como a Ticket Restaurante, do grupo francês Edenred, e a Alelo, controlada pelo Bradesco e pelo Banco do Brasil, com as quais o iFood conversou nos últimos dois anos.

Sem acordo com nenhuma delas, a empresa seguiu em busca de aquisições. No fim de outubro, anunciou a compra da startup brasileira Caju, por um valor não revelado.

Com a compra da Caju, considerada uma das companhias mais inovadoras do setor, o iFood dobra sua base de usuários, para cerca de 3 milhões, e incorpora clientes como Adidas, QuintoAndar, Grupo Boticário e até a arquirrival Keeta. O negócio também reforça sua oferta de ferramentas para a gestão das rotinas de RH, uma das especialidades da Caju.

E outras aquisições podem vir. “Nosso crescimento tem se dado de forma orgânica”, diz Arthur Freitas, CEO do iFood Benefícios, cuja plataforma movimenta 1 bilhão de reais em transações por mês.

“Contudo, não descartamos a compra de empresas, pois estamos sempre avaliando oportunidades.” Na tela do celular: o aplicativo da VR reúne ferramentas de gestão para empresasDivulgação/.

Continua após a publicidade Durante boa parte de seus cinquenta anos, o setor de benefícios esteve longe da disputa que mobiliza hoje bancos e empresas de tecnologia.

Sua origem está no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), instituído pela Lei nº 6.321/76, que desde a largada atraiu grandes grupos. A Ticket Refeição desembarcou no Brasil apenas nove dias após a aprovação da legislação.

Vieram também sua conterrânea francesa Sodexo, rebatizada de Pluxee em 2023, e a brasileira VR, da família Szajman, que começou a operar no ano seguinte. O domínio das três só enfrentou seu primeiro grande desafio em 2003, com a criação da Alelo.

Ainda assim, o mercado continuou concentrado em poucas mãos. A primeira grande mudança começou a tomar forma em 2017.

A Lei nº 13.467, assinada por Michel Temer, permitiu que benefícios alimentícios concedidos aos trabalhadores dentro e fora das regras do PAT recebessem o mesmo tratamento tributário. Empreendedores enxergaram uma oportunidade: havia pouca flexibilidade de uso, redes credenciadas restritas e falta de integração entre os benefícios.

Em muitos casos, era preciso carregar até quatro cartões na carteira para aproveitar as vantagens oferecidas pelo empregador. Foi nesse ambiente que ganharam espaço empresas de tecnologia voltadas à área de recursos humanos, as chamadas HRtechs, como Caju, Flash e Vee, comprada recentemente pela francesa Swile.

Mais ágeis que as grandes, elas souberam responder às mudanças nas relações de trabalho, marcadas pelo avanço do home office, dos contratos PJ e da informalização. Com plataformas digitais e serviços reunidos em um mesmo cartão, ajudaram a deslocar a competição para além do pagamento de refeições e compras de supermercado.

BTG Benefícios: o banco aposta em sua base de clientes empresariais para crescer no setorDivulgação/. Continua após a publicidade

O movimento acompanhou uma mudança nas prioridades dos trabalhadores. A alimentação continuava importante, mas já não resumia o que se esperava de um pacote de benefícios.

Estudos sobre o mundo do trabalho reforçam essa percepção: a qualidade de vida passou a pesar cada vez mais na decisão de permanecer em uma empresa. À mudança de comportamento somou-se uma nova abertura regulatória.

O Decreto nº 12.712, editado no fim de 2025, ampliou a concorrência nos benefícios vinculados ao PAT. Entre seus principais dispositivos estão o teto de 3,6% para as taxas cobradas de restaurantes e supermercados, a proibição de rebates — descontos usados para fidelizar os departamentos de RH das companhias — e a interoperabilidade.

Esta última entrou em vigor em maio e permite que as maquininhas de restaurantes e bares aceitem pagamentos de VR e VA de qualquer bandeira. Na prática, a medida reduz a necessidade de cada concorrente construir uma rede própria para disputar clientes.

Essa era uma das principais barreiras identificadas pelo banco BTG Pactual, que estudava o mercado havia algum tempo. “Estávamos sujeitos a uma espécie de dilema do ovo e da galinha: para conseguir clientes, teríamos de dispor de uma rede e, para montar a rede, precisaríamos de clientes”, diz Ivan Carneiro, líder da área de cartões de fidelidade do banco.

Com as novas regras, a instituição decidiu avançar. Em agosto, anunciou a criação do BTG Benefícios.

A divisão nasce sob o guarda-chuva do maior banco de investimentos da América Latina e tem uma extensa base de potenciais clientes a explorar. A carteira de pessoas jurídicas do BTG movimenta operações de crédito de 288 bilhões de reais, dos quais 32,2 bilhões de reais com pequenas e médias empresas.

É nesse universo que o banco pretende crescer. “O BTG nunca entra em um segmento para ser mais um”, afirma Carneiro.

<span class="hidden">–</span>./. Continua após a publicidade

Outro banco a avançar nesse novo cenário foi o C6, que escolheu comprar uma operação existente. Em setembro, anunciou a aquisição da Alymente, após breve negociação.

“Em três meses de conversas, concluímos a due diligence, assinamos o acordo e a operação foi aprovada pelo Banco Central”, diz o líder de pessoa jurídica do C6 Benefícios, Ricardo Botelho. A incorporação incluiu os quarenta funcionários e a carteira de 1 200 clientes da HRtech, entre eles empresas como Heineken, Nissan, Pernod Ricard, Pfizer, BIC e Total Express.

Seja pela criação de operações próprias, como fez o BTG, seja por aquisições, caminho escolhido pelo C6 e pelo iFood, os investimentos devem redesenhar o setor. “É possível que o mercado atravesse um período de maior competição seguido por uma nova etapa de consolidação”, diz o consultor Igor Torrente, especialista no mercado de benefícios corporativos.

“Players menores ou regionais podem se tornar alvos de fusões e aquisições.” Para conquistar e manter clientes, as empresas do setor passaram a oferecer muito mais que cartões de benefícios.

A proposta é reunir, em um só lugar, ferramentas que facilitem o trabalho dos RHs e serviços voltados aos funcionários. A oferta inclui soft­wares e aplicativos para automatizar tarefas como controle de ponto, gestão de benefícios obrigatórios e elaboração da folha de salários, além de produtos financeiros, como empréstimo consignado e antecipação do saque-aniversário do FGTS.

Conhecido como one-stop shop, por concentrar diferentes soluções em um único fornecedor, esse modelo foi adotado pela família Szajman no retorno da VR ao segmento, após o fim da cláusula de não concorrência com a Pluxee. “Nascemos em 1977 como uma companhia monoproduto, focada no trabalhador que recebe até cinco salários mínimos, e evoluímos para uma empresa multimercado, alicerçada em dados e em tecnologia”, diz Willian Tadeu Gil, diretor-executivo para assuntos jurídicos, relações institucionais e governança corporativa da VR.

iFood Benefícios: a compra da Caju dobra a base de usuários para cerca de 3 milhõesFABRICIO JR/. Continua após a publicidade

Para oferecer a seus clientes diferenciais competitivos, a VR comprou quatro startups de tecnologia nas áreas de gestão de despesas, mobilidade, programas de fidelidade e ponto eletrônico. Juntas, essas operações movimentaram 15 bilhões de reais em transações no ano passado.

“Mais de 1 milhão de trabalhadores já batem o ponto usando o nosso sistema”, diz Gil. Não há dúvida: o vale-refeição virou a porta de entrada para um negócio que acompanha o trabalhador muito além da hora do almoço.

Reportagem de Rosenildo Gomes Ferreira Publicado em VEJA, outubro de 2026, edição VEJA Negócios nº 31

Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →