Da descoberta do minério à geração de energia, a atividade transformou cidades, impulsionou indústrias e agora busca alternativas para garantir um futuro sustentável à região Há quase 300 milhões de anos, árvores de até 40 metros cobriam o território onde hoje está o Sul de Santa Catarina.
Soterradas e comprimidas ao longo do tempo, transformaram-se em carvão mineral. Uma riqueza escondida no subsolo que ajudaria a construir a história econômica e industrial de uma das regiões mais importantes do Estado.
E foi para lá que a equipe do projeto multiplataforma SC 500 anos, do grupo ND, foi para contar mais uma parte da história do nosso estado. O repórter Luan Voshnak entrou em uma das únicas minas de carvão abertas à visitação em toda a América Latina para conhecer, de perto, o lugar onde começa uma das histórias mais importantes do desenvolvimento econômico de Santa Catarina.
A descoberta do minério nas proximidades de Passa Dois, em Lauro Müller, teria ocorrido por volta de 1830. Tropeiros que acampavam na região utilizaram pedras encontradas pelo caminho para apoiar suas panelas.
A surpresa veio quando o material começou a queimar e liberar um cheiro forte. Era carvão.
Em Criciúma, outra descoberta aconteceu em 1893, quando o colono italiano Giacomo Sonego percebeu que o solo permanecia incandescente após uma queimada. A primeira mina de Criciúma, entretanto, só seria aberta em 1915.
A partir daí, o chamado Eldorado Negro atraiu trabalhadores de diferentes partes do Brasil. A mineração passou a fazer parte da rotina de milhares de famílias.
Os mineiros desciam ao subsolo com ferramentas simples e recebiam, muitas vezes, por carrinho de minério retirado. Na entrada das minas, a imagem de Santa Bárbara, padroeira dos trabalhadores, recebia as preces de quem descia e os agradecimentos de quem conseguia voltar.
Do lado de fora, as mulheres também tinham papel fundamental. Conhecidas como escolhedeiras, elas recolhiam o carvão em caixas de madeira chamadas padiolas e faziam a separação manual do minério e da pirita, um sulfeto de ferro popularmente conhecido como ouro de tolo.
O carvão não movimentou apenas as minas. Para transportar o minério até o litoral, foi construída a Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina.
Em 1º de setembro de 1884, chegou a Tubarão o primeiro trem de Santa Catarina. Financiada por capital inglês e construída com participação de imigrantes italianos, a ferrovia conectou municípios e abriu caminho para novas atividades econômicas.
A locomotiva se tornou o grande elo dessa transformação, como explica a musóloga do Museu Ferroviário de Tubarão, Silvana Silva de Souza. “Ela é justamente a linha, ou a agulha, que alinhava toda essa rede”.
As oficinas ferroviárias de Tubarão também contribuíram para formar mão de obra especializada, favorecendo o surgimento de novas empresas e indústrias. Até a produção cerâmica regional encontrou no carvão parte de sua origem.
Como as louças transportadas nos navios de Henrique Lage frequentemente quebravam durante as viagens, surgiu a necessidade de fabricar pratos na própria região, utilizando materiais encontrados junto às jazidas. Outro marco veio em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) chegou ao Sul catarinense para garantir o abastecimento de carvão à produção de aço.
A empresa construiu uma vila operária, instalou um lavador de carvão em Capivari de Baixo e trouxe dos Estados Unidos a gigantesca escavadeira Marion. Sua atuação se estendeu por mais de quatro décadas.
Em Siderópolis, o antigo escritório da companhia hoje abriga o Museu do Carvão. O crescimento da mineração também exigiu trabalhadores qualificados.
No fim dos anos 1950, o próprio setor decidiu investir na formação profissional, dando origem à SATC (Associação Beneficente da Indústria Carbonífera de Santa Catarina). A instituição ampliou sua atuação e hoje atende diferentes segmentos da economia regional.
“o Carvão foi um indutor do crescimento, da diversificação economica e de outras industrias na região, resume Fernando Luiz Zancan, diretor executivo da SATC. A produção de carvão atingiu um recorde em 1988.
Dois anos depois, a desregulamentação do setor pelo governo federal e a entrada de carvão importado provocaram uma grave crise, com redução da produção e milhares de trabalhadores desempregados. Uma das alternativas foi intensificar a geração de energia elétrica.
Em Capivari de Baixo, o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em operação desde 1965, tornou-se um dos maiores empreendimentos do gênero na América Latina. Com capacidade instalada de 740 megawatts, pode abastecer até 21% da demanda de energia de Santa Catarina.
O combustível chega principalmente de minas da região carbonífera. Em Treviso, a Carbonífera Metropolitana extrai cerca de 100 mil toneladas de carvão bruto por mês.
Aproximadamente metade se transforma em combustível; o restante é rejeito. O transporte até a usina ocorre pela Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina.
São cerca de 2,5 milhões de toneladas transportadas anualmente. No complexo, aproximadamente 350 toneladas de carvão são consumidas por hora.
Moído até virar pó, o minério é queimado nas caldeiras. O calor transforma água em vapor, que movimenta turbinas responsáveis pela geração de eletricidade.
Adilson Geraldo Machado, engenheiro de operação da termelétrica Jorge Lacerda, acompanha essa operação há 29 anos. “Trabalhar em uma usina termelétrica impressiona pela grandeza de muitos sistemas.
São várias engrenagens trabalhando juntas para, no final, a gente ter eletricidade”, descreve. A cadeia produtiva tem impacto direto na economia regional: segundo dados apresentados pelo setor, são mais de 21 mil empregos e cerca de 100 mil pessoas sustentadas direta ou indiretamente pela atividade.
Em Treviso, a direção da Carbonífera Metropolitana estima que 70% da arrecadação municipal venha do carvão. O peso econômico da mineração convive com os desafios ambientais deixados pela atividade.
Áreas degradadas e problemas relacionados à drenagem ácida exigiram investimentos em recuperação. Segundo representantes do setor, a carga poluidora associada a esse passivo já foi reduzida em mais de 85%.
Agora, parte das respostas está sendo procurada nos laboratórios da SATC. O Centro Tecnológico desenvolve pesquisas para aproveitar resíduos da mineração e da queima do carvão, além de testar tecnologias de captura de dióxido de carbono (CO₂).
Entre as inovações está a produção de zeólita a partir das cinzas das termelétricas. O mineral pode ajudar a reter o nitrogênio dos fertilizantes no solo, reduzindo perdas de nutrientes.
Também foram identificadas terras raras em materiais associados à mineração, elementos estratégicos para tecnologias ligadas à transição energética. A pirita, antigamente separada à mão pelas escolhedeiras, ganhou uma nova possibilidade de aproveitamento: transformada em produtos químicos utilizados no tratamento de água.
“Imagina que legal seria a pirita, o rejeito do carvão, que é responsável pela geração da drenagem ácida, se transformado em um produto que trata a própria água”, destaca Luiz Antonio Zim Alexandre, gerente de beneficiamento da Carbonífera Metropolitana. O próprio rejeito pode ser misturado à biomassa para produzir combustíveis com menor teor de enxofre.
Já o carvão de melhor qualidade atende setores como o de fundição de peças automotivas. Em Capivari de Baixo, o Complexo Jorge Lacerda também vive um período de transição.
Sob gestão da Diamante Energia, teve, em janeiro de 2026, a oficialização de um contrato federal de energia de reserva que prevê a operação até 2040. O prazo é considerado pela empresa uma oportunidade para planejar mudanças, investir em novas tecnologias e estudar outras fontes de geração.
É um movimento multiplataforma do Grupo ND que tem a curadoria de Lelia Pereira Nunes, Sueli Petry, Claudio Silveira e Moacir Pereira e é patrocinado pela Aegea SC, Fiat, Martinelli, Blumenau Iluminação, Fiedler Automação Industrial, Alínea Urbanismo, UNC – Universidade do Contestado, Koerich e Trimania Norte, Trimania Sul e Trivale e Diamante.
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