O motor de rabeta, aquele de eixo comprido com a hélice na ponta, é o que move a maior parte dos pequenos barcos da Amazônia. A Universidade Federal do Pará (UFPA) acaba de patentear uma versão sem gasolina.
A UFPA informou em 23 de outubro de 2026 que obteve no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) o registro de uma rabeta elétrica com bateria recarregável em estação solar fotovoltaica. A invenção nasceu no Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Alternativas Energéticas (Gedae) da UFPA.
O nome oficial é Sistema de Propulsão Elétrico Tipo Rabeta com Caixa de Redução, registrado sob o número BR 102025013842-5. Nos testes, o motor de rabeta elétrico fez média de 10,6 km/h e chegou à máxima de 14,1 km/h.
Os ensaios foram feitos em embarcações de madeira e de alumínio de moradores da Ilha das Onças, no município de Barcarena, na Região Metropolitana de Belém, segundo a UFPA. O professor Wilson Negrão Macêdo, do Gedae, compara o resultado ao de um motor de rabeta convencional a gasolina, de 4,5 a 6,5 cavalos-vapor (HP), conforme relatou ao jornal O Liberal em 26 de outubro.
A diferença está nos detalhes: resposta imediata de torque, velocidade de cruzeiro e marcha à ré, coisa que a rabeta a combustão tradicional não tem. Quem pilota não precisa reaprender nada.
O comando de direção continua igual, o motor de rabeta fica na traseira do barco e pode ser tirado de uma embarcação e instalado em outra. A autonomia estimada do protótipo do motor de rabeta é de 45 a 60 minutos por carga.
Parece pouco, mas o equipamento foi pensado para o vaivém do dia a dia: deslocamento local, pesca artesanal e transporte de pessoas e produtos. Na velocidade média dos testes, uma hora de bateria cobre cerca de 10 km de rio (conta nossa: 10,6 km/h vezes 1 hora).
Na Amazônia, isso basta para muita travessia entre ilha e cidade. “Na Amazônia, os rios são as estradas”, resumiu Wilson Macêdo ao Portal Amazônia, que reproduziu o comunicado da universidade.
O Gedae já tinha criado uma primeira rabeta elétrica. A novidade da versão patenteada é a caixa de redução: o eixo do motor elétrico se liga ao eixo da rabeta por polias e correia.
“A caixa de redução otimiza a relação entre torque e velocidade, permitindo que o motor opere em sua faixa de maior eficiência, sem sobrecarregar o sistema elétrico nem superaquecer o controlador e o motor”, explicou o professor no comunicado da UFPA. Tem um bônus para quem navega em igarapé.
Quando a hélice bate em tronco ou em planta submersa, a correia pode deslizar e funcionar como proteção mecânica do motor. A correia também absorve vibração e reduz o barulho.
A bateria é recarregada numa estação que pode estar ligada à rede elétrica ou funcionar sozinha, com painéis solares. Para comunidades ribeirinhas sem rede, a proposta da UFPA prevê pontos comunitários de recarga com energia solar e baterias de lítio.
A Ilha das Onças já conhece esse modelo. Lá, outra invenção patenteada do Gedae integra uma pequena rede elétrica solar que atende 11 residências e uma igreja e prevê a recarga de pequenas embarcações elétricas, segundo reportagem de O Liberal de julho de 2026.
O Gedae existe desde 1º de novembro de 1994 e trabalha com energia solar e eólica para lugares fora da rede convencional. O professor aponta três ganhos.
Sai a emissão local de CO2, some o risco de gasolina e óleo vazarem nos igarapés e o ronco da rabeta fica para trás. “O sistema elimina as emissões locais de CO2 e outros gases de efeito estufa, evitando o derramamento acidental de gasolina e óleo nas bacias e igarapés, e diminuindo, significativamente, a poluição sonora das rabetas convencionais”, disse Wilson Macêdo à UFPA.
No bolso, a UFPA cita a redução do gasto recorrente com combustível e lubrificante. O novo motor de rabeta dispensa a manutenção periódica de um motor a combustão, e as polias e correias são peças comerciais, fáceis de trocar.
Para Wilson Macêdo, a energia solar na navegação pode baratear o transporte de açaí e pescado na Região Norte. A UFPA não marcou data para a chegada às comunidades.
Segundo a universidade, a adoção depende de parcerias e de soluções que tornem o investimento acessível às comunidades. O professor diz que a concessão da patente abre caminho para transferir a tecnologia a empresas e montar parcerias de produção.
O próximo passo do Gedae, de acordo com a universidade, é ampliar os projetos-piloto em outras localidades do estuário amazônico.
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