Um dos maiores nomes do axé music, dono de hits como “Milla”, “Beijo na boca”, “Menina” e “Fim de semana”, o cantor Netinho morreu nesta terça-feira, aos 60 anos de idade. Ele passava pelo tratamento de um linfoma não Hodgkin, diagnosticado em março do ano passado.
Na época, Netinho ficou internado por 25 dias depois de sentir fortes dores nas pernas e costas. Após receber alta, ele chegou a retomar os shows antes da volta do tumor. Este ano, o cantor anunciou que a doença havia retornado e reiniciou as sessões de quimioterapia. Quem foi Netinho Ernesto de Souza Andrade Júnior nasceu em 12 de julho de 1966 em Santo Antônio de Jesus, no interior da Bahia. Aos 14 anos, ganhou seu primeiro violão, e, depois de ingressar no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica do Salvador, começou a tocar profissionalmente em bares da cidade. Em 1984, se encantou pelos trios elétricos da cidade e desfilou como folião no Bloco Beijo, ainda sob o comando do pioneiro do axé Luiz Caldas, com a banda Acordes Verdes. Netinho começou de fato a carreira musical em 1988, como vocalista da Banda Beijo, um dos muitos nomes do novo pop que despontavam no Carnaval de Salvador. Ele gravou o primeio disco da banda, que estourou nas rádios do país com “Beijo na boca”, música que o levou a tornar-se o primeiro artista de axé a apresentar no programa Domingão do Faustão.
Com a Banda Beijo numa ascendente de sucesso (e as micaretas virando um fenômeno cultural), durante a Copa do Mundo FIFA de 1990, na Itália, Netinho protagonizou a primeira ida de um trio elétrico para o exterior (o trio viajou de navio e demorou dois meses para chegar à Itália). Tendo sempre dirigido seus próprios show, o cantor passou a empresariar blocos e trios no carnaval baiano. Em 1992, ele se tornou o primeiro artista a desfilar com um trio elétrico no Rio de Janeiro, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Em 1993, Netinho gravou o primeiro CD solo, “Um beijo pra você”, que estourou “Menina”, regravação de um antigo sucesso do violonista Paulinho Nogueira. Em 1996, no CD “Netinho ao Vivo!”, gravado em Aracaju, viria o seu maior hit, “Milla”, regravação de música da banda baiana Jheremmias Não Bate Córner (que deu origem ao Jammil e Uma Noites). A gravação bateu recordes de execução e foi regravada em mais de oito línguas, incluindo o russo. No ano seguinte, com o CD “Me leva”, veio mais um sucesso, “Fim de semana”.
Sempre presente nos carnavais da Bahia, mesmo que não tivesse tido outros hits nacionais, em 2009, Netinho comemorou 20 anos de carreira. com a gravação, em Aracaju, diante de um público de cerca de seis mil pessoas, de seu segundo DVD, “Netinho e a Caixa Mágica”, com participações dos amigos Saulo Fernandes (Banda Eva), Alinne Rosa (Cheiro de Amor), Tomate, D'Black e uma participação virtual de Jorge Vercillo.
Polêmicas Casado entre 1997 e 2003 com a jornalista Mariana Trindade, com quem teve uma filha, Bruna, em 2008 Netinho revelou ser bissexual. Em entrevista à revista “Quem”, ele disse gostar de “meninos e meninas”, reforçando o posicionamento em outras ocasiões públicas e redes sociais. Em 2020, durante uma transmissão ao vivo com o deputado Eduardo Bolsonaro, o cantor confessou ter optado por se abster de relações sexuais quatro anos antes, após decidir controlar o que chamou de vício.
No mesmo ano, Netinho criticou a comunidade LGBT, alegando que seus integrantes “só enxergam a vida pela lente do fiofó”. E também criticou o Carnaval de Salvador dizendo que a festa “só é Sodoma e Gomorra”. Em 2021, ele foi criticado por Manno Goés, compositor de “Milla”, por ter usado a música numa manifestação em defesa do então presidente Jair Bolsonaro. E devolveu as críticas, processando o músico por “condutas abusivas” e “declarações ofensivas”.
Filiado ao Partido Liberal, dos Bolsonaro, o cantor concorreu nas eleições de 2022 a deputado federal, mas não obteve votos suficientes para eleger-se. Os primeiros problemas de saúde mais graves de Netinho foram revelados em 2013, quando médicos constataram que ele estava com uma hemorragia no fígado. O cantor foi diagnosticado com adenomas do fígado em função do uso indiscriminado de esteroides androgênicos anabólicos, que subsequentemente provocaram uma série de derrames cerebrais, complicando ainda mais o seu estado clínico.
Netinho declarou não saber que o que tomava eram anabolizantes proibidos, alegando acreditar ser suplementos para treino, e processou o médico que os havia receitado, Mohamad Barakat. Mohamad processou Netinho por falsa acusação, mas perdeu a ação. Após a recuperação, o artista passou a usar suas redes sociais e aparições na televisão para alertar o público e os jovens sobre os riscos dos anabolizantes.
O Globo