'Minha melhor amiga' salva ano do cinema brasileiro, mas cenário preocupa analistas: 'Ficamos à mercê da boa vontade política'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Em 2019, o cinema brasileiro vivia um ano dos sonhos, com grandes sucessos de bilheteria como “Minha mãe é uma peça 3” e “Minha vida em Marte”, e com obras premiadas em festivais internacionais como “Bacurau” e “A vida invisível”. À época, o audiovisual nacional era responsável por mais de 13% do público registrado no país.

Logo depois, veio a pandemia, o cenário político mudou, e a fatia de mercado do cinema brasileiro encolheu, atingindo níveis alarmantes em 2021 (1,8%) e 2023 (3,3%). A situação começou a melhorar em 2024 e 2025, com o lançamento de obras que se tornaram consagradas, como “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, e produções populares, como “Minha irmã e eu” e “O Auto da Compadecida 2”, que devolveram o market share do cinema nacional para a casa dos 10%.

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Fernanda Montenegro sobre ser tema de documentário: 'Um fato novo nessa minha vida de atriz já chegando aos 100 anos' Em um período de muita dificuldade, um filme, porém, vem “salvando o ano”: “Minha melhor amiga”.

A comédia de Susana Garcia, com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, já levou 5,84 milhões de pessoas às salas de cinema, superando “Ainda estou aqui”, com 5,83 milhões, como o maior público para um filme nacional no pós-pandemia. Até aqui, somente dois filmes brasileiros conseguiram em 2026 a façanha de vender mais de um milhão de ingressos (além de “Minha melhor amiga”, teve “O agente secreto”) e somente sete obras superaram a marca de cem mil espectadores.

No ano passado, 111 dos 203 longas brasileiros lançados comercialmente não alcançaram a marca de mil ingressos vendidos, segundo dados do Filme B. — Até 30 de setembro passado, a participação de mercado acumulada do cinema brasileiro, em público, foi de 7%, inferior aos 10% do mesmo período de 2025.

De janeiro a agosto, havia sido de 3%. Ou seja, graças ao excepcional desempenho de “Minha melhor amiga”, o percentual mais do que dobrou — explica Rodrigo Saturnino Braga, diretor do Filme B, site especializado no mercado audiovisual.

Pipoca é um dos motivos que leva Geração Z ao cinema Marina Calderon / Agência O Globo

Braga comemora o sucesso da comédia estrelada por Ingrid e Mônica, mas destaca a importância de ter outros filmes com capacidade de atrair público, para evitar que o cinema nacional dependa do desempenho de apenas uma obra. Para os próximos meses, ele destaca os lançamentos de “100 dias”, “As dez vantagens de morrer depois de você”, “Farofeiros 3” e “Feito pipa”.

Se com relação ao audiovisual brasileiro a oscilação é para baixo, no cenário geral os números do mercado cinematográfico apresentam crescimento no que diz respeito a público e renda. Segundo dados da Ancine, foram vendidos 115,79 milhões de ingressos, com uma renda de R$ 2,46 bilhões, até o momento, em 2026.

Os valores já são superiores a todo o ano de 2025, que registrou 115,48 milhões de ingressos comercializados, com uma renda de R$ 2,3 bilhões. O segmento foi impulsionado pelo sucesso de obras como “Homem-Aranha: um novo dia”, com impressionantes 18,8 milhões de espectadores.

Zendaya e Tom Holland em cena de "Homem-Aranha: Um novo dia" Divulgação

Fazer valer a pena Para a cineasta Susana Garcia, “um dos maiores desafios é fazer com que o filme seja relevante o suficiente para despertar no público a vontade de sair de casa e ir ao cinema”:

— A gente disputa a atenção das pessoas com inúmeras opções de entretenimento, e essa escolha envolve tempo, deslocamento e dinheiro. Precisamos criar esse desejo e oferecer uma experiência que faça essa saída valer a pena.

'Lá, a vida faz sentido': Cineasta Asghar Farhadi comenta decisão de seguir morando no Irã apesar de guerra e restrições Diretora de alguns dos maiores sucessos do audiovisual nacional, como “Minha mãe é uma peça 3”, que vendeu 11,8 milhões de ingressos, Susana Garcia faz questão de dizer que não existe fórmula para o sucesso.

O crítico e professor Pedro Butcher concorda. Autor do livro “Hollywood e o mercado de cinema no Brasil” (Editora Letramento, 2024), ele recorre a uma reflexão feita pelo roteirista vencedor do Oscar William Goldman, que escreveu: “Ninguém sabe nada.

Não há uma pessoa em toda a indústria do cinema que saiba o que vai funcionar. O tempo todo é uma adivinhação, se você for sortudo, uma adivinhação instruída”.

— Uma das características principais, mais perturbadoras e que geram mais ansiedade no audiovisual é a absoluta imprevisibilidade do sucesso de um filme. E uma forma de combater isso é você ter um volume de produção grande e diversificado e um volume de investimento grande em marketing — diz Butcher.

— Temos um mercado ocupado (pelo cinema americano) e não temos mecanismos que permitam ao filme brasileiro ter chance de permanecer mais tempo em cartaz. Um dos tradicionais mecanismos de defesa do cinema brasileiro, a lei da cota de tela vem sendo alvo de críticas por parte de especialistas do mercado audiovisual, por permitir formas de ser burlada.

Desde o ano passado, por exemplo, redes exibidoras como Cinemark e Kinoplex passaram a exibir filmes brasileiros em horários pouco atrativos (entre 10h e 12h da manhã), como forma de alcançar a porcentagem mínima de sessões de obras nacionais. — O problema da cota de tela não é o mecanismo, mas como ele é pensado para o Brasil.

A cota de tela segue sendo eficiente quando se tem uma estrutura sem brechas, coisa que o Brasil ainda não conseguiu formular. Por exemplo: nossa cota de tela depende de um decreto presidencial.

Ou seja, já ficamos à mercê da boa vontade política com o setor de quem está no poder e vimos recentemente que nem sempre isso será favorável — defende a produtora executiva Marina Rodrigues, especialista em políticas públicas do audiovisual. Sessão de cinema no Rio

Brenno Carvalho / Agência O Globo Distribuição e marketing

Ela acredita ainda que as políticas públicas para o audiovisual devem pensar também na comercialização e no marketing das obras. — Acredito que o investimento massivo na distribuição é a política pública necessária para evitar a invisibilidade dos filmes brasileiros.

Ainda temos um modelo de fomento que olha muito para a produção, mas pouco para a distribuição e comercialização dessas obras. E a maioria dos filmes brasileiros não têm orçamento para cobrir estes custos — diz.

“Comunicação e marketing” são as palavras de ordem para Adriana Rattes, diretora executiva e sócia-fundadora do Grupo Estação, rede com três espaços no Rio (dois em Botafogo e um na Gávea) e que também atua como distribuidora. — Os recursos para distribuição são insuficientes e mal distribuídos.

As políticas têm sido bastante erráticas. Não se trata apenas de ter subsídios, mas de primeiro entender o que se deve fazer, de fortalecer os distribuidores brasileiros independentes, de entender que um projeto de filme não deve ser desenvolvido sem que seja pensado o que se vai fazer com ele depois e quanto isto vai custar — aponta a exibidora.

Mais salas pelo país Adriana Rattes critica a tendência do mercado de sempre só “olhar para o momento”, destacando a necessidade de se aumentar o circuito exibidor no país.

Hoje, apenas 8,4% (472 de 5.571) das cidades brasileiras têm salas de cinema. — Desde o inicio dos anos 2000 nossa participação no market share oscila entre mais ou menos 10 e 20%, e outra característica é que praticamente dois ou três filmes por ano definem esta participação.

Para mim, este cenário é resultado da falta de um plano bem articulado entre os três segmentos da cadeia do audiovisual, produção, distribuição e exibição — afirma. — É preciso aumentar o circuito exibidor, ter mais salas na periferia, nas cidades médias e pequenas.

É preciso regular o streaming e garantir uma janela de cinema de no mínimo 60 dias e criar incentivos estratégicos e econômicos para que o exibidor não seja tão dependente do filme americano. Filmes brasileiros mais vistos em 2026

“Minha melhor amiga”, com 5,84 milhões de espectadores “O agente secreto”, com 1,3 milhão*

“Velhos bandidos”, com 429 mil “Se eu fosse você 3”, com 245 mil

“O diário de Pilar na Amazônia”, com 149 mil “Galinha Pintadinha — O filme”, com 124 mil

“Agentes muito especiais”, com 105 mil “(Des)controle”, com 98 mil

“O poder do Rosário”, com 95 mil “Sexo e destino”, com 83 mil

* Público em 2026 de filme lançado em 2025 Fonte: Filme B, até 19 de outubro

Filmes mais vistos no Brasil em 2026 “Homem-Aranha: um novo dia”, com 18,8 milhões de espectadores

“Toy Story 5”, com 8,3 milhões* “Michael”, com 7,4 milhões

“O diabo veste Prada 2”, com 6,9 milhões “Minha melhor amiga”, com 5,8 milhões

“A Odisseia”, com 5,3 milhões “A empregada”, com 4,5 milhões

“Super Mario Galaxy: o filme”, com 4,3 milhões “Avatar: fogo e cinzas”, com 3,5 milhões*

“Zootopia 2”, com 3,4 milhões* * Público em 2026 de filmes lançados em 2025

Fonte: Filme B, até 19 de outubro

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