Minerais críticos ampliam desafios socioambientais

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Elisangela Paim: “É fundamental discutir soberania sobre esses recursos” Mathilde Missioneiro/Divulgação A corrida por minerais críticos, impulsionada pela transição energética e pela expansão das infraestruturas digitais, pode aprofundar desigualdades se não houver proteção ambiental, participação das comunidades atingidas e políticas de agregação de valor nos países produtores. A avaliação é de Elisangela Soldateli Paim, coordenadora do Programa Latino-Americano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo, uma organização alemã sem fins lucrativos dedicada a estudos sociais. Segundo a pesquisadora, um dos equívocos do debate sobre minerais críticos é associá-los exclusivamente à descarbonização da economia. “O que vemos é uma adicionalidade das energias renováveis, enquanto continuam os investimentos em petróleo e gás. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por minerais tanto para tecnologias ligadas à transição energética quanto para outros setores, como a indústria bélica e as infraestruturas digitais”, afirma. Paim avalia que o Brasil tem a oportunidade de transformar sua relevância estratégica em desenvolvimento econômico, desde que avance na industrialização da cadeia produtiva e preserve as salvaguardas socioambientais. “É fundamental discutir soberania sobre esses recursos, mas isso não pode ocorrer às custas da legislação ambiental ou dos direitos das populações atingidas. Também é preciso pensar como agregar valor dentro do país. Caso contrário, continuaremos exportando minério bruto, enquanto o beneficiamento, a tecnologia e os empregos mais qualificados ficam no exterior”, afirma. Paim também defende maior participação das populações afetadas nas decisões sobre novos projetos e alerta para o risco de flexibilização de regras ambientais e sociais. A análise se baseia na coleção internacional “Império da extração: capital, crise e lutas por justiça climática” (Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice, no original), organizada por Paim e Katja Voigt, assessora sênior de política climática internacional da fundação. Os estudos abordam minerais críticos, infraestrutura digital e data centers, financiamento climático e racismo ambiental - quando impactos ambientais afetam de forma desproporcional populações negras, indígenas, tradicionais e de baixa renda - e analisam casos em Brasil, Argentina, EUA, Paraguai e Indonésia. Também é preciso pensar como agregar valor dentro do país” Na avaliação de Paim, a discussão sobre transição energética oculta a demanda crescente por esses insumos em aplicações militares e na expansão das infraestruturas digitais. “Existe uma destinação importante de minerais críticos para a indústria bélica. Além disso, cresce a demanda dos data centers e de toda a infraestrutura tecnológica. O que pouco se discute é o que essa expansão da mineração significa para os territórios e para as comunidades atingidas.” Os mesmos recursos utilizados em baterias, painéis solares e turbinas eólicas também são empregados em armamentos de precisão, sistemas avançados de comunicação e plataformas militares baseadas em inteligência artificial. Estudo divulgado em 2025 pelo Transition Security Project, iniciativa de pesquisadores dos EUA e do Reino Unido, mostrou que ao menos 38 minerais e metais estratégicos para a transição energética - como lítio, grafite e terras raras - passaram a integrar as listas de materiais prioritários do programa militar de estocagem dos EUA. Na visão de Paim, a crescente importância desses recursos não altera por si só a posição ocupada por países exportadores de matérias-primas na economia mundial. “O que a gente tem analisado é que não se trata de um processo novo, mas da continuidade da exploração dos países do Sul Global. Muda o tipo de empreendimento, mas permanecem relações desiguais em que os países do Norte concentram os maiores ganhos, enquanto impactos ambientais e sociais permanecem nos territórios onde ocorre a extração.”

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