Custo do trabalho está 3,1% acima do pré-pandemia, mostra estudo

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Fonte da notícia: Valor Valor

Vitor Vidal: custo do trabalho no nível mais pressionado em quase dez anos Leo Pinheiro/Valor Após anos de expansão do rendimento, diante da recuperação do mercado no pós-pandemia, o custo do trabalho está no maior nível em mais de dez anos, desde o primeiro trimestre de 2016. O chamado custo unitário do trabalho estava, ao fim do segundo trimestre, 3,1% acima daquele observado no quarto trimestre de 2019. As contas são do pesquisador da Universidade de Barcelona Vitor Vidal, a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e números das Contas Nacionais e do Produto Interno Bruto (PIB) calculados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Economistas ouvidos pelo Valor afirmam que os dados mostram um mercado de trabalho apertado e que tende a desacelerar. Por enquanto, segue em um patamar alto, mas os sinais são de que o arrefecimento esperado desde meados de 2023 deve chegar em breve, provavelmente no início de 2027.

“Temos o custo do trabalho no nível mais pressionado em quase dez anos. Isso é bastante relevante. Em um momento em que a economia não cresce tanto ou corre risco de número negativo, o que vai pressionar ainda mais o custo unitário do trabalho”, diz Vidal. Ele completa: “As empresas não estão faturando tanto, então o trabalhador vai ficar ainda mais caro, pesar mais para as operações. Isso leva a crer que o desemprego deve acelerar ao longo de 2027”, prevê. O custo unitário do trabalho aponta a relação entre os salários (medidos pela renda média) e a produtividade - total do valor adicionado dividido pelo número de horas trabalhadas. Para permitir a comparação no desempenho das diferentes atividades, foi definida uma base 100 no quarto trimestre de 2019, marco do pré-pandemia. No segundo trimestre de 2026, esse custo chegou a 103,1 pontos na média das 12 atividades econômicas da economia consideradas no levantamento. Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Bruno Ottoni afirma que o levantamento confirma um mercado de trabalho mais aquecido, que já se ajusta via preço [salário] e tende a apontar desaceleração. “O custo unitário do trabalho é uma medida do custo da mão de obra, um indicador relevante e acompanhado no Brasil e no mundo porque dá uma noção do custo total. Quando começa a aumentar, sinaliza uma pressão de custo”, diz Ottoni. A leitura também é compartilhada pelo economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel. Os dados mais recentes de atividade econômica, afirma, sugerem que as empresas têm menos espaço para absorver o aumento de custo do trabalho e de outros custos. “Os dados oficiais do mercado de trabalho, tanto do IBGE, quanto do Caged, apontam indicações mistas. O mercado segue estável, mas em patamar aquecido. A perspectiva é que a economia desacelere e isso afete o mercado também.” O levantamento de Vitor Vidal, também responsável pela Vitor Vidal Consulting, mostra pressão no custo maior em alguns setores que outros. A perspectiva é que a economia desacelere e isso afete o mercado [de trabalho] também” Das 12 atividades, cinco respondem por cerca de 80% da população ocupada: construção, varejo, administração pública, indústria de transformação e outros serviços (profissionais de saúde e educação privados, restaurantes, hotéis e consultorias de engenharia, entre outros). Os três primeiros são os que apresentavam a maior diferença de nível. O custo unitário da construção era, no segundo trimestre deste ano, 13,4% superior ao do pré-pandemia, seguido pelo varejo (7,6%) e administração pública (6,6%). “Mesmo com juros altos, a indústria da construção foi favorecida por políticas como o aumento do limite do Minha Casa, Minha Vida e a demanda por trabalhadores aumentou, o que puxou as remunerações para cima”, nota Vidal. Sichel destaca, por sua vez, que a maior pressão de custo depende de quanto determinado setor está mais ou menos aquecido: “Determinadas atividades estão sujeitas à competição externa ou não, por exemplo. As atividades são impactadas de maneira diferente. E existe fricção de mão de obra de um setor para um outro, há algum limite de ir de um para outro”, diz. Diante do fim da aprovação do fim da escala 6x1, na semana passada, economistas dizem que a tendência é de aumento desse custo do trabalho, mas que o impacto depende setor a setor e não é necessariamente automático. Sichel acredita que setores com maior rotatividade de mão de obra já podem estar se adaptando nos últimos meses às possíveis mudanças na legislação que ocorreram, o que reduz o impacto daqui para a frente. “No limite, esse impacto é extremamente setorial, associado a características da jornada e à forma como vai se dar a implementação da nova jornada. Mas há evidências anedóticas de negociações em curso”, afirma. Bruno Ottoni explica que as estatísticas mostram impacto maior do fim da escala 6x1 nas pequenas e médias empresas: “Quando a gente analisa dados do ministério do Trabalho e Emprego, o padrão é claro. Quanto menor a empresa, maior a proporção de empregados em jornadas longas. E isso tende a pressionar mais a inflação.”

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