Michel Laub: Saul Bellow e a decadência da cultura, ontem e hoje

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Fonte da notícia: Valor Valor

Há um livro de ensaios de Martin Amis chamado “The Moronic Inferno”. A expressão, traduzida no Brasil como “inferno imbecil”, foi tirada de uma conversa entre o autor inglês e Saul Bellow (1915-2005) no início dos 1980: ela expressa um estado caótico, uma “desordem pagã” à qual “ninguém tem organização interna suficiente para resistir”, com os indivíduos sendo dominados por poderes econômicos, militares, tecnológicos e culturais que às vezes não conseguem nem enxergar.

Isso lembra alguma coisa? Nas últimas semanas pensei bastante no inferno imbecil, por motivos óbvios e porque um amigo comentou que estava lendo o romance derradeiro de Bellow, “Ravelstein” (Rocco, 216 págs., tradução de Léa Viveiros de Castro). Nele se conta a história de um autor (Chick) que está escrevendo a biografia de um amigo que contraiu aids (Ravelstein), ambos os personagens baseados em figuras reais: o próprio Bellow no primeiro caso, o professor e filósofo político Allan Bloom (1930-1992) no segundo.

Li “Ravelstein” na época do lançamento, em 2000, e tive uma impressão um tanto morna. Relendo-o agora, entendi algumas coisas fora do radar da minha juventude à época.

Por exemplo, o tamanho do esforço de um escritor então com 85 anos, cujos sintomas de Alzheimer apareceriam pouco depois (ou já tinham aparecido, vai saber), para pôr em ordem um romance de ideias como esse. Os problemas daí advindos talvez se reflitam em alguns defeitos da trama, como a repetição não proposital de informações e situações, e mesmo assim o livro resiste como artefato estético e documento sensível, dando conta de uma morte física e cultural no contexto do fim do século XX.

Vencedor do Nobel em 1976, Bellow nasceu em Montreal, numa família de imigrantes judeus russos, e se mudou ainda criança para Chicago. Os estranhamentos vindos dessa biografia, que acompanhou as mudanças nos Estados Unidos entre a Grande Depressão e o auge como superpotência, moldaram uma vivacidade de estilo que nunca foi sufocada pela elaboração intelectual em romances como “Herzog” (1964).

Neles as duas esferas se chocam e complementam, com as ideias sendo ironizadas, redefinidas diante de uma vida emocional cheia de sobressaltos - como foi a do autor, que se casou cinco vezes. Não é estranho, portanto, que o último ato dessa jornada tenha sido “Ravelstein”.

Aqui os temas anteriores se unem num jogo de espelhos confessional, em que as contradições dos personagens parecem uma soma das contradições de quem os criou. Bloom também era judeu, também morava em Chicago, também foi protagonista de uma vida íntima fora das convenções (gay não assumido em público, ele de fato morreu vítima do HIV).

Mais que isso, e enquanto o ex-trotskista Bellow passou os últimos anos de vida sendo visto como um conservador no campo da cultura - a ele é atribuída a frase “quem é o Tolstoi dos Zulus, o Proust de Papua Nova Guiné?” -, Bloom escreveu o best-seller “The Closing of the American mind” (1987), combatendo o relativismo nas universidades norte-americanas.

Para ele, essa era uma batalha central contra um tipo específico de inferno imbecil, em que a importância supostamente exagerada dos debates sobre minorias ameaçava as tradições supostamente elevadas da cultura ocidental. Sintonizada com as revoluções econômicas e políticas de Thatcher e Reagan - vários ex-alunos de Bloom trabalharam na Casa Branca da época -, essa posição aparece ao longo de todo “Ravelstein”, embora a destreza de Bellow não deixe sem o habitual contraponto irônico as falas do personagem-título - suas pontificações idiossincráticas sobre história, sobre religião, sobre filosofia, sobre identidade.

Martin Amis definia Bellow como um “escritor da vida”, eternamente angustiado com as consequências até jurídicas do próprio método: fixar na página a observação da intimidade de ex-esposas, amigos, familiares. No caso da relação com Bloom, e ao menos para quem lê à distância, sem ter como saber da veracidade das eventuais fofocas, o retrato da amizade em “Ravelstein” sugere uma afeição genuína.

Em sua face pública, o personagem-título (como a sua matriz real) foi professor na Universidade de Chicago, e nas aulas “tossia, gaguejava, fumava, gritava, ria, fazia os alunos se levantarem das cadeiras”, com o carisma servindo de veículo para uma abertura de horizontes admirada por Chick: “Ele descrevia a Caverna de Platão para você.

Ele falava sobre a sua alma, já muito fina, e encolhendo depressa - cada vez mais depressa”. Já na vida privada as coisas eram mais complexas.

Bellow é generoso ao não transformar Ravelstein num reacionário simplório, de tipo burguês e/ou religioso, dando-lhe o crédito por uma visão libertária da família, da amizade, do amor. Em paralelo, era inevitável que o resguardo das tais tradições do Ocidente gerasse um paradoxo incômodo, hoje típico da condição judaica no mundo - e, no livro, também da condição homossexual.

A pergunta que sai daí é: como o integrante de uma minoria historicamente perseguida é capaz de endossar um discurso discriminatório, caso do professor quando sua empregada negra comete um erro envolvendo o remédio tomado na fase final da doença do patrão? Em certo sentido, e claro que de modo mais sutil e elaborado, algo dessa ambivalência emerge das entrelinhas da pregação de “The Closing of the American Mind”.

O triunfo de Bellow, que fez um prefácio elogioso do livro, é relativizar a admiração na hora de escrever um romance sobre o tema. Isso dá a “Ravelstein” uma força saída da dubiedade, mesmo vinte e cinco anos depois do seu lançamento.

Afinal, e sem discordar da crítica aos aspectos materialistas e vulgares da forma como vivemos hoje - heranças do triunfo do capitalismo sem limites ressurgido nos 1980, é bom lembrar -, uma coisa é constatar o problema. Outra, factual e moralmente diversa, é embarcar no ataque fácil ao progressismo cultural.

Se isso estivesse certo, o supremacismo étnico da nova extrema direita não teria tornado o mundo ainda pior - acrescentando ao traço filisteu do fim do século XX o fetiche autoritário do início do XXI. Michel Laub, jornalista e autor do romance “Diário da queda” (2011) e do ensaio “Verão na névoa” (2026), escreve quinzenalmente neste espaço

Publicação Original Valor valor.globo.com
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