Ele abre um sorriso de orelha a orelha ao me ver entrar em sua alfaiataria, instalada em um antigo casarão da rua Tucumán, bem no centro de Buenos Aires. A primeira coisa que faz é me mostrar, com orgulho, uma foto do último fraque que confeccionou para Bartolomé Mitre, um dos muitos clientes habituais que aparecem no livro de registros da alfaiataria, ao lado de Torcuato Di Tella, Carlos Pedro Blaquier, Joaquín Anchorena e Benjamin Victorica Roca, entre outros integrantes das famílias mais tradicionais da Argentina. OMS vê 'sinais promissores' no combate ao Ebola na RD Congo, mas destaca que epidemia pode durar meses Autópsia de adolescente revela a chegada de uma droga mortal a São Francisco, nos EUA Ramón Blanco transborda simpatia e logo faz com que a conversa flua naturalmente. Sua elegância chama atenção. Veste-se impecavelmente com uma camisa azul-clara, gravata vermelha e um colete cinza-escuro que combina com o terno feito por ele mesmo. Não se arrumou especialmente para a ocasião. Essa é sua roupa de todos os dias. — Senão, como você convence as pessoas? — brinca. Ele pertence, em mais de um sentido, a outra época: tem 92 anos, exerce a profissão desde os 13 e está há mais de sete décadas à frente da alfaiataria artesanal que leva seu nome. Como consegue continuar administrando a alfaiataria depois dos 90 anos? Qual é sua receita? O que os movimentos do corpo podem revelar sobre os níveis de ansiedade? — Não há segredo nenhum: é a genética — responde. — A saúde é dada pela natureza. Você pode estragá-la se fizer coisas inadequadas, mas eu não sou mágico. Levei uma vida normal, nunca fumei, quase não bebo álcool e caminho todos os dias — explica. Com uma bolsa e um dedal Ramón nasceu em Órdenes, uma pequena cidade da província de La Coruña, na Espanha, em 18 de setembro de 1933. Depois de concluir os estudos, como o pai era agricultor e ele não queria trabalhar no campo, decidiu aprender um ofício. — Era preciso fazer alguma coisa e, por acaso, havia um alfaiate na minha aldeia — conta. Trabalhou com ele como aprendiz durante quatro anos e, aos 16, abriu sua própria alfaiataria. Ao completar 18 anos, decidiu emigrar para a Argentina para escapar do serviço militar durante o franquismo. Quem fica com o rim? Os chatbots de IA não fazem as mesmas escolhas morais que os humanos — Minha mãe tinha uma meia-irmã que havia se estabelecido em Buenos Aires em 1928. Depois, ela trouxe minha irmã mais velha. Então pensei: ‘E se eu for também?’. Naquela época, era preciso uma carta-convite para apresentar ao consulado argentino, além de um contrato de moradia e outro de trabalho para embarcar — relata. Com uma bolsa e um dedal, chegou ao país em 1952. Sua tia conhecia um alfaiate de sobrenome Mamone, que lhe deu trabalho nos primeiros dias. Como não podia contratá-lo formalmente, recomendou-o para a alfaiataria Daraio y De Marzo, o mesmo local onde, 69 anos depois, Ramón ainda mantém seu ateliê. — Em 1957, eu disse ao senhor Daraio: ‘Seu Guillermo, no fim do mês vou embora porque quero trabalhar por conta própria’. Eu havia economizado algum dinheiro porque, quando terminava meu expediente na alfaiataria, ia para um café na rua Pozos e trabalhava até fechar — relembra. Então, Guillermo perguntou quanto ele tinha guardado. — Tenho 50 mil pesos — respondeu. Anvisa proíbe importação, venda e uso da tirzepatida T36 — Então me dê esse dinheiro e metade da alfaiataria será sua. Você não vai a lugar nenhum. — Ramón ri ao recordar a história. — Quando cheguei, em 1952, havia cinco alfaiatarias nesta quadra porque o Jockey Club ficava na esquina das ruas Florida e Tucumán, até ser incendiado e transferido para a Avenida Alvear — recorda com nostalgia. — Naquela época, os ricos não trabalhavam; tinham administradores. Passavam boa parte do dia no Jockey Club. Por isso faziam ternos claros para a manhã, menos claros para a tarde e escuros para a noite. “Levei uma vida normal, nunca fumei, quase não bebo álcool e caminho todos os dias” Ele não concebe sua vida sem agulhas, linhas, tesouras e tecidos. Acorda entre 5h30 e 6h da manhã e toma chimarrão por meia hora. Depois prepara o café da manhã, composto por café com leite e duas torradas com cream cheese light, arruma a cama e toma banho. Desde uma cirurgia no quadril, faz tudo “por etapas, como no campo”. Mukbang: qual é a quantidade máxima de comida que nosso corpo aguenta? — A maioria dos acidentes com pessoas idosas acontece no banheiro — explica. Por volta das 7h30, caminha até o ponto do ônibus elétrico na rua Maipú para chegar pontualmente às 8 horas ao ateliê. Gosta de dar exemplo: ser o primeiro a chegar e o último a sair. Perto das 19 horas retorna para casa, também de ônibus. — Tenho a sorte de que, às vezes, os motoristas, que quase sempre são mulheres, me deixam na esquina da minha casa — comenta. Marco é seu braço direito, um espanhol que trabalha com ele há mais de 20 anos e que, diferentemente de Ramón, mantém um forte sotaque espanhol. Ramón garante que não sente falta do país natal. Para ele, a Argentina é maravilhosa. Mulher dos EUA descobre ser barriga de aluguel de bilionário chinês que teria mais de 100 filhos E faz questão de destacar que possui três nacionalidades: — A argentina, a espanhola e a paraguaia por adoção, porque minha esposa era do Paraguai. Apaixonado pelo trabalho, mantém a coordenação motora fina intacta Permanecer ativo é uma das chaves Em relação à alimentação, afirma que come de tudo. — O que eu mais gosto é comida de panela. Se me derem para escolher, prefiro um bom ensopado a um bife. Isso não significa que eu não goste de carne — esclarece. Por que falo enquanto durmo? Uma psicóloga do sono explica Hoje, porém, admite que está mais limitado porque vive sozinho. Sua esposa, María Cristina, com quem foi casado por mais de 50 anos, morreu em 2021. Era ela quem o mimava, preparava seus pratos preferidos e costumava acompanhá-lo à alfaiataria, onde aproveitava para bordar. O casal teve duas filhas, Marcela, que morreu aos 49 anos, e María Eugenia, além de seis netos. Uma deles, Agustina Herrera, conta que o avô não sabia cozinhar e precisou aprender após ficar viúvo. — Quando vou comer na casa dele, é ele quem cozinha tudo. Faz umas milanesas deliciosas com purê. Não gosta que eu o ajude. Embora receba uma vez por semana a ajuda de uma senhora que limpa a casa e deixa algumas refeições prontas, isso não é suficiente para toda a semana. Mesmo chegando cansado por volta das oito da noite, prepara algo para comer. De vez em quando, os netos o visitam para jantar ou a família toda se reúne em alguma casa. Ele admite que nunca foi esportista, mas sempre caminhou e levou uma vida ativa e de muito trabalho. — Desde que cheguei a Buenos Aires, acho que nunca trabalhei menos de 12 ou 14 horas por dia — afirma. — Coitada da sua avó, como ela me aguentou! — diz à neta Agustina, que acompanhou a entrevista. Por que muitos atletas de elite não conseguem segurar o cocô durante as competições? Nos fins de semana, também segue uma rotina de trabalho. Aos sábados passa o dia inteiro na alfaiataria e, aos domingos, trabalha até duas ou três da tarde. Depois aproveita para fazer compras no supermercado ou resolver outras tarefas. O lugar onde realmente descansa é Mar del Plata. É o único local onde tira o terno e veste roupas casuais, como camiseta e calça. Lá possui um apartamento do qual desfruta até mesmo durante o inverno. — Gosto de olhar o mar, caminhar e até ir ao cassino — conta, com um brilho maroto nos olhos. Por que o carboidrato é o culpado? Quando lhe pergunto por que trabalha tanto, ele pensa um pouco antes de responder: — No começo, por necessidade, porque vim devendo a passagem. Depois continuei trabalhando muito porque, para construir uma carreira, é preciso dedicação. Mais tarde, quando passei dessa fase inicial, queria ter uma casa, formar uma família e dar uma boa educação às minhas filhas. Não queria que elas passassem pelo que eu passei. Estudaram em escola particular, foram para a universidade e nunca lhes faltou nada. Ele admite que o trabalho o ajuda a manter-se jovem e lhe garante independência financeira. — Imagine se eu fosse apenas um aposentado — suspira, aliviado. Em seguida enfia a linha em uma agulha para mostrar que sua coordenação motora fina permanece intacta. Seus ternos são verdadeiras obras de arte, todos feitos à mão, com atenção minuciosa a cada detalhe. Como age, efeitos colaterais, chance de cura: geneticista tira todas as dúvidas sobre a droga experimental que Lito acaba de receber Percorremos o ateliê enquanto ele explica cada etapa da confecção dessas peças artesanais. — Fazíamos até 20 ternos por mês. Hoje faço um por mês e alguns consertos para clientes que tenho há mais de 40 anos — destaca. Durante toda a entrevista, ele não perde o sorriso. Parece feliz, bem-humorado e leva uma vida simples, mas plena. Quando pergunto se gostaria de acrescentar algo, responde sem hesitar: — Eu tive uma mulher maravilhosa que mudou minha vida, e tenho seis netos e uma filha que são a razão da minha vida.
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Meu segredo para a longevidade: 'A saúde é dada pela genética, mas não se deve arruiná-la'
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O Globo
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