Meu filho experimentou vape. Devo colocá-lo de castigo? Veja o que dizem especialistas

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

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Dúvidas da semana 🤷‍♀️🤷 "Descobri por outras pessoas que meu filho de 13 anos experimentou vape.

Fiquei sem chão. O que devo fazer nessas horas? Colocá-lo de castigo? Explicar os perigos do cigarro eletrônico e ficar por isso mesmo?"

Quantas escolhas erradas fizemos na adolescência? Às vezes, nem sequer somos capazes de entender como nós mesmos, no passado, tomamos atitudes tão diferentes das que tomaríamos hoje. Vale ter isso em mente quando conversamos com filhos dessa faixa etária sobre caminhos que sabemos que são equivocados e podem trazer riscos.

Os profissionais que ouvimos, a partir da pergunta dessa mãe, afirmam que castigos e punições costumam não funcionar. Pelo contrário, podem nos afastar dos jovens sem resolver o problema.

Informação é uma das melhores ferramentas, assim como diálogo, que nos permite entender o que pode estar por trás das escolhas deles". 'Discord: entenda a plataforma, os riscos para os adolescentes e como protegê-los

👩‍🏫👨‍🏫 Palavra dos especialistas  Leonardo Pessôa

Professor de Pneumologia do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap-UFF) Quando uma mãe descobre que o filho de 13 anos experimentou vape, é natural ficar assustada e sem saber como agir.

Minha primeira orientação é: não ignore, mas não transforme o episódio em uma guerra. Brigar, humilhar ou ameaçar pode fazer o jovem esconder futuros episódios.

Converse com calma e firmeza. Procure entender: foi desinformação, curiosidade, influência dos amigos ou a crença de que o vape não faz mal?

Sabores e essências podem causar a falsa percepção de menor risco e favorecem o uso. Mas é importante lembrar que, no Brasil, a comercialização desses produtos é proibida pela Anvisa.

Importante até descobrir, num segundo momento, como e onde o jovem comprou o dispositivo e denunciar o vendedor. Pergunte se foi uma única experiência ou se já usou outras vezes.

Estabeleça limites, explique os riscos e acompanhe o comportamento. Experimentar uma vez não significa que o jovem já esteja dependente ou desenvolverá necessariamente uma doença.

A dependência pode ainda não ter se instalado, e este é o momento de agir para evitar a repetição. Além disso, quem experimenta vape tem 3,6 vezes mais chance de migrar posteriormente para o uso de cigarro convencional.

O cigarro eletrônico não contém apenas nicotina. Seu aerossol pode conter partículas ultrafinas, metais tóxicos, compostos orgânicos voláteis, aldeídos e substâncias potencialmente cancerígenas.

A nicotina é altamente viciante; os dispositivos mais modernos permitem consumir quantidades muito elevadas. Com o uso, pode ocorrer tosse e irritação das vias respiratórias precocemente, além de asma e possíveis danos cardiovasculares futuros.

A EVALI, lesão pulmonar potencialmente grave associada ao vape, é outro alerta e pode causar doença pulmonar crônica, necessidade de transplante de pulmão e até morte. Observe se o uso se repete, se há desejo intenso de consumir ou mudanças de comportamento.

Investigue, sem acusações, a possível utilização de álcool, maconha ou outras drogas e a presença de ansiedade, tristeza persistente, bullying ou dificuldades de relacionamento. Eventualmente o vape é só parte do problema.

É prudente procurar um pneumologista, especialmente se houver uso repetido, sintomas respiratórios, suspeita de dependência ou dúvidas sobre como proceder. O profissional pode avaliar a situação e orientar a família.

E para os pais cujos filhos nunca experimentaram? Não esperem o problema aparecer para conversar. Assim como a educação sexual, a menstruação e a prevenção de violências, devemos abordar o tema tabagismo, a nicotina e os cigarros eletrônicos antes mesmo de a criança demonstrar interesse.

Educar antes é proteger. Se a experimentação já aconteceu, acolher, orientar e agir precocemente pode fazer toda a diferença.

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Bussamra Pneumologista pediátrica do Sabará Hospital Infantil

Com o vape, acredito que é importante abordar com o adolescente justamente os efeitos de curto prazo. Às vezes não adianta muito falarmos sobre o que vai acontecer futuramente: para o adolescente, o futuro é depois de amanhã.

Há o risco de câncer de pulmão, mas ele provavelmente não vai se preocupar com isso agora. A que pontos que os pais precisam ficar atentos? Os primeiros efeitos do vape aparecem mais na parte comportamental, porque o cérebro do adolescente ainda está em formação.

Sob os efeitos dos produtos do tabaco, da nicotina, a primeira coisa que começa a aparecer é uma agitação, uma insônia. A outra questão é que não existe uma análise segura do quanto se pode inalar com o vape.

Normalmente, como ele tem sabor, a pessoa inala muito mais do que com um cigarro comum, porque não tem o gosto amargo. O indivíduo faz grandes sessões, longas, inalando o vape.

O consumo fica muito além do que seria no cigarro comum. A indução da dependência química também é muito mais rápida.

O paciente começa a ter insônia, já acorda com vontade de fumar, de inalar o vape, come menos e mais rápido para poder fazer a inalação. A chance de se tornar dependente da nicotina é muito maior quando se usa esse tipo de dispositivo.

Existe o dano pulmonar, claro. O consumo do vape tem relação com o desenvolvimento de sintomas respiratórios, como tosse e dificuldade para fazer exercício físico.

É semelhante ao que acontece com outros fumantes, mas em uma velocidade bem maior. Temos que lembrar que a asma é a doença mais frequente da infância e da adolescência.

Então, o uso do cigarro eletrônico vai piorar a asma. E pode induzir, em algumas pessoas, uma doença bastante grave de destruição do próprio parênquima pulmonar.

São pacientes que vão para a fila de transplante. Vemos isso em indivíduos jovens.

Quando se chega a essa lesão, que é o “pulmão de pipoca”, é um paciente com menos idade. É diferente do fumante, do tabagista clássico, de longo prazo, que vai ter as complicações mais no final da vida, relacionadas ao tempo de consumo do cigarro.

No cigarro eletrônico, isso acontece com mais precocidade. Para conversar a respeito disso com os adolescentes, temos que ser francos.

Não adianta só colocar medo ou chamar a atenção para os malefícios. É preciso ver o que aquela pessoa está precisando para se sentir bem, calma, compreendida e aceita pelo seu grupo, e fazer com que isso não tenha que passar por adquirir um vício que vai ser extremamente nocivo para a saúde.

As famílias têm que ter uma abertura muito grande para falar disso. As punições normalmente pouco adiantam com os adolescentes, é preciso trabalhar mesmo na conscientização e dizer que é possível ter hábitos que fazem bem para a saúde e que incluem o adolescente no grupo de amigos da mesma forma.

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NO RADAR 👀 - Informação é a chave Por Ricardo Fraga, pneumologista e gerente-médico do Hospital de Clínicas Mário Lioni, em Duque de Caxias

Décadas de estudos sobre tabagismo mostram que punir, confiscar ou apertar o cerco costuma causar o efeito contrário. Existe um modelo clássico sobre como as pessoas mudam de comportamento.

Antes de parar, alguém precisa sair da fase em que nem considera o assunto, a pré-contemplação, e entrar na fase de pensar sobre isso, pesar prós e contras. Ninguém pula essa etapa.

O que faz a pessoa atravessar essa ponte é a informação. E as informações são sérias.

Dados do IBGE de 2024 mostram que 29,6% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico, quase o dobro dos 16,8% de 2019, e o consumo nessa idade é preocupante por alguns motivos. Primeiro por causa da nicotina presente nestes dispositivos.

O cérebro adolescente está em construção, com plasticidade enorme — o que significa mais vulnerabilidade, não mais resistência. A nicotina age nos circuitos de recompensa, aprendizado, memória e autocontrole, e altera essa arquitetura de forma duradoura.

Há evidências de mudanças que persistem na vida adulta. Em seguida, por causa da forma de entrega.

Os dispositivos modernos entregam a nicotina muito mais rápido e em doses altas. Muitos ficam dependentes em semanas, às vezes sem perceber que o "só na festa" já virou necessidade.

Entre quem já usou vape no Brasil, quase um terço relatou uso no mês anterior à pesquisa. Por último, o que vem em seguida.

Estudos robustos mostram que adolescentes que usam vape têm cerca de quatro vezes mais chance de começar a fumar cigarro comum. Em uma coorte europeia, o risco aos 12 meses foi ainda maior, causando o uso simultâneo, vape e cigarro juntos, o que, segundo a Sociedade Internacional de Pediatria, traz risco maior do que fumar só cigarro comum.

E os danos já documentados não são teóricos: mais asma, mais bronquite, mais falta de ar. Nos quadros graves de lesão pulmonar, 94% dos pacientes precisaram de internação e mais de um terço foi para a UTI.

Há ainda alterações cardiovasculares e associação com ansiedade e depressão. A longo prazo, pode haver danos ainda piores, visto já terem sido identificadas mais de 80 substâncias cancerígenas nesses dispositivos.

Portanto, converse, informe e leve a um pneumologista, ele vai ajudar com este processo. Envie sua pergunta e nós vamos atrás de respostas

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