Menos desigual, menos redistributivo: o paradoxo brasileiro do eleitor mediano

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Na formulação clássica de Anthony Downs (1957), partidos que buscam maximizar votos tendem a convergir para as preferências do eleitor situado no centro da distribuição. Esse é o eleitor mediano, cuja posição concentra o maior número de votos numa eleição e cujo apoio é decisivo para formar maiorias. Meltzer e Richard (1981) aplicam essa lógica à política fiscal e chegam a uma previsão simples. Quanto maior a distância entre a renda média e a renda do eleitor mediano, maior a demanda por redistribuição, porque os governos disputam esse eleitor. Kenworthy e McCall (2008) mostram que a previsão falha nos países da OCDE, onde a desigualdade cresceu sem que a demanda por redistribuição aumentasse. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas O Brasil oferece uma nova versão do mesmo enigma. Entre 2022 e 2026, a desigualdade de renda caiu, com Bolsa Família ampliado, valorização do salário mínimo e desemprego baixo. Embora o eleitor mediano brasileiro seja de renda entre dois e cinco salários mínimos, e, portanto, dependente de políticas públicas do Estado, mesmo assim, a parcela que atribui a pobreza à “preguiça de pessoas que não querem trabalhar” saltou de 22% para 40%, o maior valor da série do Datafolha. Não se trata, portanto, de desigualdade sem resposta política. Trata-se de uma redistribuição que funciona e, ao mesmo tempo, perde legitimidade. A chave de leitura desse problema está menos na realidade do que na percepção que se tem dela. Entre o direito e o merecimento Alesina, Stantcheva e Teso (2018) mostram que quem acredita que a mobilidade social depende do esforço tolera mais desigualdade. Atribuir a pobreza à preguiça leva esse raciocínio ao extremo. A pobreza deixa de ser posição social e passa a ser defeito de caráter. Com isso, a pergunta política muda. Deixa de ser “quanto redistribuir” e passa a ser “quem merece receber”. A série do Datafolha, cruzada com a taxa de desocupação da PNAD, revela que em 2017, com desemprego médio de 12,7%, apenas 21% atribuíam a pobreza à preguiça. Em 2026, com a desocupação em 5,4%, são 40%. Nas cinco rodadas da pesquisa, as duas séries se movem em sentidos opostos. Pode até parecer um paradoxo que o país com o menor desemprego da série seja também o que mais culpa os pobres pela pobreza.

O ciclo político acentua a distância das duas métricas. Isso aproxima o caso brasileiro do que Alesina, Miano e Stantcheva (2020) chamam de “polarização da realidade”. A percepção dos fatos econômicos funciona como marcador de identidade política, e essa percepção mais moralista sobre a pobreza é resultado da menor disposição para obter informações corretas sobre os indicadores. O mérito como motor da mobilidade social Quando analisamos o recorte por renda feito pelo Datafolha, encontramos uma leitura que contraria uma análise de classe convencional. Os mais ricos (mais de dez salários mínimos) são os mais estruturalistas: 63% atribuem a pobreza à falta de oportunidades. A faixa de dois a cinco salários mínimos é a mais individualista, com 43% atribuindo a pobreza à preguiça. Uma hipótese plausível é que essa faixa concentra o trabalhador por conta própria. Ele vive fora da proteção do emprego formal, está perto o bastante da pobreza para temê-la e longe o bastante para não se ver como beneficiário das políticas públicas. A literatura oferece dois mecanismos compatíveis com essa hipótese. O primeiro é a aversão ao último lugar (Kuziemko et al., 2014): quem está logo acima da base da pirâmide teme ser alcançado por quem está abaixo e, por isso, tende a se opor a políticas que elevem a renda dos mais pobres a ponto de encurtar a distância que o separa deles. O segundo é a percepção distorcida da própria posição na distribuição de renda. Cruces et al. (2013) e Hvidberg et al. (2023) mostram que quem está na parte de baixo tende a se imaginar mais bem posicionado do que realmente está e, consequentemente, a subestimar a desigualdade e a se identificar menos com os beneficiários da redistribuição. Quando essas pessoas são informadas de sua posição real, o apoio a políticas redistributivas aumenta. Somados, os dois mecanismos ajudam a explicar por que o individualismo moral pode prosperar justamente no meio da pirâmide, entre os que estão próximos o bastante da pobreza para temê-la, mas se percebem distantes o bastante para não se comprometer com ela. Desconfiança institucional difusa e o udenismo brasileiro Kuziemko et al. (2015) mostram que reduzir a confiança no governo reduz o apoio à redistribuição. Alesina et al. (2018) acrescentam à assimetria uma perspectiva ideológica: à direita, o Estado é visto como parte do problema, não da solução. A crise do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2026, sobre o caso Master, trouxe à tona mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, reveladas em relatório da Polícia Federal, e a crise tomou a campanha eleitoral. Na tradição udenista, o combate à corrupção funciona como gramática moral da política. Desliza da punição de condutas específicas para a tese de que as instituições, enquanto tais, são corruptas e patrimonialistas. Quando um caso de corrupção é descoberto, algumas partes tornam-se verdadeiros vereditos sobre “o Estado”. Aqui as duas percepções se encontram. “Pobreza é preguiça” e “o Estado é corrupto” são partes de uma extensa tradição intelectual e política sobre o patrimonialismo brasileiro. Nela, o indivíduo esforçado — o pequeno empreendedor — está espremido entre o Estado e suas taxas sufocantes no topo e os pobres no fundo da pirâmide. A desconfiança institucional não precisa ser específica sobre política social para minar o apoio a ela. Basta ser difusa e rotulada como pertencente a apenas um espectro ideológico do sistema partidário brasileiro. O pacto constitucional de 1988 e o seu esgotamento? As brutais desigualdades de riqueza no Brasil e suas escalas “astronômicas” (Medeiros, 2023) dificultam a percepção do eleitor sobre seu lugar mais exato na distribuição de renda brasileira. Perspectivas morais, que não necessariamente dialogam sobre redução de desigualdades, influenciam cada vez mais um eleitorado mediano que é dependente de políticas públicas (Araújo, 2022). Nosso pacto social, vigente desde 1988, baseado na redução incremental de desigualdades, lastreada na busca ativa do eleitor mediano por partidos de diferentes matizes ideológicas e implementada sequencialmente por governos democraticamente eleitos (Arretche, 2018), parece estar esgotando seu ciclo.  Ao mesmo tempo, a discussão sobre o fim da escala 6×1, e o reposicionamento estratégico dos candidatos frente a esse debate, ainda mostra alguma resiliência do voto econômico do eleitor mediano brasileiro. A lição para o Brasil está se desenrolando agora. Defender o Bolsa Família com dados de Gini convence pouco quem já decidiu que a pobreza é escolha e o Estado é corrupto. O eleitor mediano brasileiro lê uma história sobre mérito e confiança. Quem quiser sustentar políticas redistributivas precisa disputar essa história, apresentando o esforço de quem recebe e a integridade do Estado implementador de políticas públicas.

Alesina, A., Miano, A., & Stantcheva, S. (2020). The polarization of reality. AEA Papers and Proceedings, 110, 324–328. https://doi.org/10.1257/pandp.20201072 Alesina, A., Miano, A., & Stantcheva, S. (2023). Immigration and redistribution. The Review of Economic Studies, 90(1), 1–39. https://doi.org/10.1093/restud/rdac011 Alesina, A., Stantcheva, S., & Teso, E. (2018). Intergenerational mobility and preferences for redistribution. American Economic Review, 108(2), 521–554. https://doi.org/10.1257/aer.20162015 Araújo, V. (2022). A religião distrai os pobres?: o voto econômico de joelhos para a moral e os bons costumes. Almedina Brasil. Arretche, M. (2018). Democracia e redução da desigualdade econômica no Brasil: a inclusão dos outsiders. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 33(96), e339613. Berlet, C., & Lyons, M. N. (2000). Right-wing populism in America: Too close for comfort. Guilford Press. Cruces, G., Perez-Truglia, R., & Tetaz, M. (2013). Biased perceptions of income distribution and preferences for redistribution: Evidence from a survey experiment. Journal of Public Economics, 98, 100–112. Downs, A. (1957). An economic theory of democracy. Harper & Row. Hvidberg, K. B., Kreiner, C. T., & Stantcheva, S. (2023). Social positions and fairness views on inequality. The Review of Economic Studies, 90(6), 3083–3118. https://doi.org/10.1093/restud/rdad019 Karadja, M., Mollerstrom, J., & Seim, D. (2017). Richer (and holier) than thou? The effect of relative income improvements on demand for redistribution. The Review of Economics and Statistics, 99(2), 201–212. Kenworthy, L., & McCall, L. (2008). Inequality, public opinion and redistribution. Socio-Economic Review, 6(1), 35–68. Kuziemko, I., Buell, R. W., Reich, T., & Norton, M. I. (2014). “Last-place aversion”: Evidence and redistributive implications. The Quarterly Journal of Economics, 129(1), 105–149. https://doi.org/10.1093/qje/qjt035 Kuziemko, I., Norton, M. I., Saez, E., & Stantcheva, S. (2015). How elastic are preferences for redistribution? Evidence from randomized survey experiments. American Economic Review, 105(4), 1478–1508. https://doi.org/10.1257/aer.20130360 Medeiros, M. (2023). Os ricos e os pobres: o Brasil e a desigualdade. Companhia das Letras. Meltzer, A. H., & Richard, S. F. (1981). A rational theory of the size of government. Journal of Political Economy, 89(5), 914–927. https://doi.org/10.1086/261013 Stantcheva, S. (2021). Understanding tax policy: How do people reason? The Quarterly Journal of Economics, 136(4), 2309–2369. Stantcheva, S. (2024). Perceptions and preferences for redistribution. Oxford Open Economics, 3(Suppl. 1), 96–100. https://doi.org/10.1093/ooec/odad038

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