Menopausa e ayurveda: um novo ciclo de cuidado

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A menopausa costuma ser apresentada como um ponto final. Os hormônios mudam, o corpo dá sinais que nem sempre compreendemos e parece que alguma coisa ficou para trás. E se essa fase pudesse ser encarada como uma oportunidade de rever a maneira como cuidamos de nós mesmas? Essa é uma das propostas do ayurveda, sistema tradicional de saúde originário da Índia há cerca de 5 mil anos e reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como tendo validade e aplicabilidade no mundo contemporâneo. No livro "Menopausa, nutrição e ayurveda", recém-lançado pela Editora Rocco, a terapeuta Laura Pires convida a olhar para essa transição como. uma mudança natural, que exige novas formas de atenção ao corpo e à mente. Alimentação, descanso e movimento passam a ocupar um lugar central nessa jornada. "O ayurveda nos ensina que a vida, em todas as suas manifestações, é intrinsecamente cíclica. Criação, manutenção e dissolução não são eventos isolados, mas fases interligadas e interdependentes de um processo contínuo", escreve Laura, referência no assunto. De acordo com o ayurveda, a existência humana pode ser compreendida a partir de três grandes ciclos. O primeiro é o da criação e do crescimento, que vai do nascimento até aproximadamente os 16 ou 20 anos. É o período de formação da estrutura corporal, marcado pela estabilidade, pela oleosidade e pelo desenvolvimento dos tecidos. O segundo corresponde à manutenção e à transformação. Estende-se da juventude até a meia-idade, aproximadamente dos 20 aos 50 ou 60 anos. É a fase de maior força e vitalidade, em que predominam o metabolismo, a digestão, o calor e a capacidade de transformação. A mente está voltada para a produtividade, a construção da carreira e da família e a integração social. A partir dos 50 ou 60 anos inicia-se o terceiro ciclo, o da transformação gradual e do recolhimento natural. Acentuam-se a secura, a leveza, o frio e o movimento. Os tecidos começam a se reorganizar, a pele e as articulações podem ficar mais secas e a energia se volta para a introspecção, a sabedoria e o desapego. Essa passagem não deve ser compreendida como declínio. Cada etapa tem sua função. "A compreensão desses ciclos não apenas fornece uma estrutura para entender a existência, mas também oferece um guia para viver em harmonia com as leis da natureza, aceitando cada fase como parte essencial da jornada e transformando a destruição em uma porta para novas criações", afirma Laura. A menopausa se insere nessa mudança de ciclo. A interrupção da menstruação é compreendida pelo ayurveda como uma transformação no metabolismo e na maneira como o corpo utiliza seus recursos. Durante a fase reprodutiva, predominam o calor e o metabolismo, associados à natureza do fogo. Com o avanço da idade, essa energia diminui e se acentuam a secura, a leveza e a mobilidade, características associadas à maioria dos sintomas relacionados ao envelhecimento.

Além disso, a capacidade digestiva pode se tornar irregular e enfraquecida durante esta transição, levando à má digestão, formação de toxinas não digeridas e flutuações metabólicas. Ao considerar a chegada da menopausa como um processo natural o ayurveda se concentra em métodos para gerenciar os sintomas e promover o envelhecimento saudável. O cuidado envolve mudanças no estilo de vida, o uso de fitoterápicos tradicionais e, eventualmente, tratamentos mais profundos. As orientações são sempre individualizadas e buscam manter o equilíbrio. A alimentação é um dos principais caminhos nessa busca de saúde, equilíbrio e bem-estar. Ela deve ser baseada em comida de verdade, priorizando vegetais, frutas, grãos integrais, feijões e castanhas, que contribuem para a manutenção dos tecidos musculares e ósseos. O ayurveda recomenda consumir os alimentos cozidos, quentes, oleosos, úmidos e nutritivos, como sopas, ensopados, grãos cozidos e vegetais preparados no vapor. Os sabores doce, azedo e salgado são valorizados. O doce, nesse caso, não se refere ao açúcar, mas a cereais, frutas, raízes e tubérculos. O ghee, manteiga clarificada, é considerado um alimento nobre pelo ayurveda e recomendado por suas qualidades nutritivas. Em contrapartida, a sugestão é evitar alimentos frios, secos, excessivamente amargos ou picantes e bebidas geladas, que podem prejudicar a digestão. A oleação, conhecida como abhyanga, é outro cuidado importante. Trata-se da aplicação de óleo de gergelim morno no corpo por meio de automassagem. Ele nutre a pele, acalma o sistema nervoso e lubrifica as articulações. A prática pode ser incorporada à rotina antes do banho, com movimentos suaves. Cuidar da qualidade do sono é ponto central do ayurveda para manter a saúde física e mental. É importante garantir um descanso adequado, com sono suficiente e de qualidade, evitando o excesso de trabalho e estresse. Laura sugere uma rotina noturna de cuidados que inclui aplicar o óleo morno nos pés, nas têmporas e no couro cabeludo antes de deitar. O objetivo é relaxar, aliviar tensões e combater a secura. Também sugere um jantar leve, quente e de fácil digestão pelo menos duas horas antes de dormir, além de banho morno e redução das telas (celular, computador e televisão) pelo menos uma hora antes de deitar. Leitura, música suave, meditação e exercícios respiratórios ajudam a preparar a mente para o descanso. Caminhadas, ioga e alongamento também fazem parte da rotina ayurvédica. A proposta é movimentar o corpo diariamente, manter a flexibilidade e reduzir a rigidez das articulações, comum nessa fase. A respiração e a meditação são recomendadas para acalmar a mente e estabilizar o sistema nervoso. O ayurveda recorre ainda às ervas tradicionais. Laura cita a ashwagandha (Withania somnifera), associada à redução do estresse, à melhora do sono e ao fortalecimento dos nervos; a shatavari (Asparagus racemosus), considerada um tônico feminino que nutre, combate a secura e apoia o equilíbrio hormonal; a brahmi (Bacopa monnieri), utilizada para clareza mental, redução da ansiedade e melhora da memória; e a amalaki (Emblica officinalis), valorizada por sua ação antioxidante e pelo fortalecimento da imunidade. A autora ressalta que o uso dessas substâncias deve ser individualizado. "O tratamento ayurvédico é muito individual; somente um terapeuta ayurvédico experiente pode definir os medicamentos a serem usados, a dose e por quanto tempo", escreve. A menopausa, nessa perspectiva, não é um período para ser atravessado de maneira automática. É uma oportunidade de reconhecer a passagem do tempo, ajustar hábitos e oferecer ao corpo aquilo de que ele necessita em cada etapa. Alimentar-se com atenção, movimentar-se, descansar e praticar a oleação são gestos simples que, dentro do ayurveda, assumem um significado profundo. Mais do que interromper o ciclo natural da vida, a proposta é aprender a acompanhá-lo. "É a simplicidade de olhar para si e identificar e transformar o que precisamos para alcançar mais bem-estar e felicidade", conclui Lauraa

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