Memórias de um ‘bullshit job’

Memórias  de um ‘bullshit job’ - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Eu já tinha para lá dos 25 anos quando arrumei um emprego em uma agência de publicidade. Com um mundo de dúvidas na cabeça, um diploma de mestre em Antropologia na mala e um punhado de cursos no exterior, voltei ao Brasil depois de uma temporada no Canadá, certo de que não seguiria uma carreira como pesquisador e professor universitário.

Mas, de um jeito ou de outro, a realidade sempre se impõe. Sem grana no bolso e com um mar de contas a pagar, saí à caça de trabalho.

Foi quando um amigo publicitário, sensibilizado com o meu desespero, me abriu uma porta: “Você entende de gente. Quem entende de gente vira planner de agência.

Você tem que virar isso.” Obedeci. Ali pelos anos 2010, os planners eram figuras de destaque no mercado publicitário.

Diferentemente dos criativos, meio doidos e disruptivos, o povo do planejamento era visto com respeito e admiração. A boa reputação se justificava pelo profundo conhecimento sobre o comportamento dos consumidores.

Sem muita saída, com a oportunidade no colo, mudei de profissão. Tirei minha primeira carteira de trabalho, arrumei um emprego em uma agência de publicidade e vivi os piores dias da minha vida.

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O problema não era o empregador, nem os colegas, nem a chefia. O problema era eu e o capitalismo.

A agência tinha montado um time de planejamento estratégico por conta da modinha e da cobrança dos seus clientes, mas os gestores não faziam a menor ideia de para que serviam os novos profissionais, nem de como e quando podiam utilizá-los. O resultado era simples: passávamos horas de frente para a tela dos computadores, enclausurados em reuniões sem pauta ou andando de um canto a outro como se tivéssemos pressa em resolver um caso urgente.

David Graeber, antropólogo americano, deu nome ao que eu vivia. Eu tinha um bullshit job (em tradução educada, são os empregos inúteis).

Em um livro publicado em 2013, “Bullshit Jobs: a theory”, o pesquisador demostra que os avanços tecnológicos aumentaram a produtividade humana, mas não nos ofereceram mais tempo livre. Ao contrário, o capitalismo se esforçou por criar uma série de empregos bem remunerados, mas inúteis ao ponto de o próprio funcionário ter dificuldade de justificar para si mesmo e para os outros o próprio salário.

Segundo o autor, 30% a 50% dos empregos nos países ricos não têm qualquer utilidade real. Ganhar um salário, desempenhar uma função sem função e ainda ter de performar uma utilidade falsa é uma violência psíquica sem tamanho.

Retira-se dos trabalhadores a noção do impacto direto no mundo, cobra-se uma vigilância exaustiva sobre a própria performance para que ninguém descubra o que já se sabe e nos obriga a lidar com horas de tédio, mergulhados num tempo esvaziado de porquês. Durei pouco na agência.

Saí de lá com a certeza de que ninguém sobrevive sem sentido e de que a gente o procura até onde ele não existe. O que salvou naqueles dias não foi o salário, nem a carteira assinada.

Mas os cafés de 15 minutos que viravam uma hora, as conversas sussurradas entre uma reunião e outra, as risadas de quem sabia que estava no mesmo barco. É nas frestas de uma função sem função que, quase sempre, nasce alguma coisa que vale a pena.

David Graeber não viu isso.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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