Médica assassinada na Zona Norte: veja o que diz o manual da Polícia Militar do Rio em casos de perseguições à veículos

 

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O domingo da médica Andrea Marins Dias, de 61 anos, foi em família. Chegou cedo à casa dos pais, em Cascadura, no subúrbio do Rio. Na hora do almoço, atravessou a rua para comprar refrigerante na padaria. Conhecia quase todos os vizinhos, assim como o comerciante. No fim da tarde, pegou o carro para voltar para casa, no bairro vizinho. No caminho, se viu no meio de uma perseguição policial a supeitos — a cirurgiã, especialista em endometriose, acabou baleada e morta.

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Ao abordarem o veículo já atingido por tiros e parado com uma das rodas sobre a calçada, dois PMs gritam para que o motorista desça. Um deles diz: “Vai morrer, irmão. Desce!”. Um vídeo da abordagem mostra ainda que, sem resposta, um policial se aproxima e bate com o fuzil no vidro da janela. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital, e há a suspeita de que o veículo da ginecologista foi confundido com os de criminosos.

Andrea Marins Dias foi morta por bala perdida durante uma perseguição policial em Cascadura

Reprodução

Manuais e orientações da Polícia Militar do Rio obtidos pelo GLOBO detalham os protocolos que precisam ser seguidos em casos de perseguições a veículos. Eles mostram ser primordial a comunicação, via rádio, com outros agentes para realizar o cerco ao carro perseguido. E alertam que aumenta a possibilidade de erro quando o policial age isoladamente sem aguardar apoio, “a não ser que por motivo de força maior”, e ao revidarem os disparos durante o acompanhamento. Em caso de agressão armada contra os agentes, o sugerido é que os militares aumentem a distância para o veículo e informem a situação pelo rádio.

O manual ensinado no último Curso de Formação de Praças da PM, em 2025, ainda destaca que disparos no pneu “são terminantemente proibidos para paralisar um veículo”. O protocolo também ressalta que atirar para evitar fuga é proibido “exceto quando o ato (criminoso) represente risco de morte ou lesão aos agentes de segurança pública ou a terceiros”. O documento também afirma que “o disparo é justificado quando há confirmação visual clara da existência de instrumentos com potencial letal por parte do agressor”.

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Sem analisar o ocorrido em Cascadura, o coronel da reserva da PM do Rio, Marcos Netto destaca que, quando são alvo de tiros, os PMs precisam saber com exatidão de onde está partindo os disparos para revidar.

— O disparo é feito para você se defender e para defender outra pessoa. É preciso ter ciência do que está acontecendo, de quem está disparando, e se o seu disparo não vai atingir um inocente. O protocolo prevê passar informações via rádio para o cerco ser montado para dar mais segurança ao policial e as pessoas que estão ali — diz ele.

Em 2023, a PM criou o Programa Integrado de Capacitação Profissional (PICP). O projeto foi instituído depois que Nathalia Cristiny Candido Lacerda foi baleada após o carro onde ela estava supostamente furar um blitz na Pavuna, também Zona Norte. Segundo o Inquérito Policial Militar, o sargento Wando Sanches de Souza tentou atirar no pneu para impedir a fuga, mas um dos projéteis atingiu a mulher na região lombar. Ele foi indiciado e responde por lesão corporal gravíssima na Justiça Militar.

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Um ano depois, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) publicou um decreto com protocolos para a abordagem policial, definindo que o uso da força letal só deve acontecer em último caso. As regras foram publicadas depois que Juliana Leite Rangel foi atingida por um tiro na cabeça na véspera de Natal por agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na BR-040, altura de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

O texto do MJSP, que prevê o uso da força e de armas de fogo apenas como último recurso, foi criticado na época pelo governador Cláudio Castro, que classificou as regras como "um presente aos criminosos".

“Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!”

De acordo com o relato dos policiais do 9º BPM (Rocha Miranda), uma equipe fazia patrulhamento de rotina quando foi informada por um pedestre de que ocupantes de um Corolla Cross estava praticando assaltos na região. Os PMs começaram a procurar o carro. No cruzamento das ruas Araruna e Cupertino, eles viram um Jeep Commander, um Corolla Cross e uma motocicleta.

Segundo os agentes, os veículos fugiram com a chegada da viatura. Os PMs afirmam que deram uma ordem de parada e que os ocupantes dos veículos, então, atiraram contra eles. Houve confronto. O Corolla Cross teria seguido pelas ruas Eufrásio Corrêa, Columbia, Goiás, Cupertino, Mendes e, na Rua Palatinado, parou. Quando conseguiram abrir a porta do motorista, dizem os agentes, eles encontraram a médica morta. A PM destacou que os policiais que faziam parte da equipe envolvida na perseguição portava câmeras corporais, que serão analisadas durante as investigações. Eles foram afastados do patrulhamento nas ruas.

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Testemunhas contaram ao GLOBO que a médica foi vista voltando em alta velocidade à Rua Palatinado, onde moram seus pais e de onde havia saído pouco antes. Segundo relatos de moradores e comerciantes da região, os agentes teriam feito dezenas de disparos antes de retirar a médica já sem vida do banco do motorista de seu carro, um Corolla Cross.

— Foram mais de dez de disparos. Antes, deu para ouvir a polícia dizendo: “Não vai sair? Vai tomar! Vai morrer aí dentro!” — relatou um comerciante.

O coronel da reserva Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado-Maior, destaca que é preciso aumentar o treinamento aos policiais.

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— A Justiça vai decidir se eles cometeram algum crime. Mas é preciso que a administração qualifique seus policiais, checando permanentemente as condições físicas, mentais e técnicas deles — cobra o militar.

Com mais de três décadas de experiência, a médica já havia trabalhado no Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Hospital Federal Cardoso Fontes e no Hospital Unimed de Nova Iguaçu.

“Sua dedicação à medicina e ao cuidado com tantas mulheres deixa um legado que jamais será esquecido. Neste momento de dor, expressamos nossa solidariedade à família, amigos, pacientes e a todos que tiveram o privilégio de conviver com ela. Que sua memória permaneça viva em todos que foram tocados por sua história”, publicou a família nas redes sociais dela.

A Unimed Nova Iguaçu também divulgou nota lamentando a perda da colaboradora. "Agradecemos por sua dedicação e trabalho junto à nossa cooperativa e comunidade, sempre marcada pela dedicação à saúde suplementar e ao cooperativismo".

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