'Tigresa do Oriente': influenciadora peruana de 80 anos afirma ser a primeira 'Therian' da história

 

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O conceito therian explodiu no início de janeiro de 2026 e, desde então, não há quem não fale sobre o tema. No entanto, como toda tendência, ele tem sua precursora: Judith Bustos — a mítica Tigresa do Oriente — decidiu reivindicar seu trono ao se proclamar a “primeira therian da história”, muito antes de o assunto se tornar viral; e seu nome voltou a circular entre os internautas. A artista peruana conquistou o público com sua participação em 2017 no programa de televisão argentino Showmatch, exibido pela eltrece).

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— Admito, meus tigrinhos, eu sou a primeira therian — escreveu em um vídeo compartilhado em sua conta no Instagram, onde acumula 340 mil seguidores.

Na publicação, ela relacionou sua figura pública e a imagem inspirada em tigre. O post provocou repercussão entre os usuários, que demonstraram orgulho diante da declaração. "Tigresa, você está aproveitando muito bem todas as tendência"; "Visionária, Tigresa. O Peru é fundamental"; "Sempre à frente do seu tempo. Grande, Tigres'; foram algumas das mensagens deixadas pelos seguidores. Mas qual foi a trajetória dessa mulher antes de o "animal print" e os looks extravagantes se tornarem sua marca registrada?

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Judith Bustos nasceu em 22 de novembro de 1945 na localidade peruana de Constancia. Quinta entre 16 irmãos, sua infância foi marcada pela precariedade da selva de Loreto. Em plena época da febre da borracha, seu pai trabalhava como operário, enquanto a família, liderada por sua mãe, Juana Virginia Ahuite, lutava para seguir em frente em meio à pobreza extrema.

Esse contexto não a desanimou na busca por um futuro melhor. Aos 12 anos, mudou-se para a casa de uma tia que vivia em Lima, onde concluiu o ensino secundário e conseguiu seu primeiro emprego como empregada doméstica. O trabalho lhe permitiu pagar um curso de cosmetologia, o mesmo que a levaria aos bastidores de várias emissoras de televisão.

— Um dado curioso da minha vida é que, antes de ser a Tigresa do Oriente, fui por muitos anos maquiadora e caracterizadora de diversos personagens de Carlos Álvarez [ator cômico, apresentador de televisão e político peruano] em vários canais da TV peruana. Sempre estive conectada com a arte cênica. Depois coloquei as botas e o traje de tigre e hoje sou o que sou — afirmou em outra publicação, na qual compartilhou uma fotografia antiga que mostra Judith antes da fama, período em que deixou seu talento em rostos icônicos da televisão local.

Judith Bustos, a Tigresa do Oriente, no filme "Mi crimen al desnudo" (2001).

Reprodução

Judith não demorou a conquistar o carinho dos colegas, que a incentivaram a deixar os pincéis de lado para se aventurar no mundo artístico. E assim foi: em 1999, iniciou-se no huayno, gênero musical e de dança mais popular da região andina, no qual também começou a escrever suas próprias canções. Pouco depois, criou o grupo "Las Tigresas del Oriente" ao lado de Elizabeth Alegría, conhecida como "Tigresa da Amazônia", para interpretar cúmbia amazônica. O projeto ganhou ainda uma integrante chamada Araceli, mas o grupo se dissolveu pouco tempo depois, abrindo caminho para que Judith seguisse carreira solo.

Ela não encontrou paixão apenas no canto, mas também nos sets de gravação. Em 2001, estreou como atriz ao interpretar a jornalista Magaly Medina em "Mi crimen al desnudo", filme sobre Mario Poggi, psicólogo peruano condenado por assassinar um suposto serial killer. Enquanto dava seus primeiros passos na atuação, uma música de seu primeiro disco, "La Tigresa vuelve a rugir" (2005), explodiu em visualizações no YouTube — e sua vida nunca mais foi a mesma.

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A era "Therian"

“Anaconda”, “Nuevo Amanecer”, “El Baile de la Tigresa” e “Frazada de Tigre” foram alguns de seus marcos. No entanto, “En tus tierras bailaré”, colaboração com Wendy Sulca e Delfín Quishpe — considerada por muitos veículos como “bizarra” — lhe deu status internacional. A canção permitiu que ela deixasse o Peru e fosse convidada para programas em toda a região, abrindo caminho para que a Argentina também voltasse os olhos para ela.

Em 2017, sua vitalidade e seu histrionismo chamaram a atenção de Marcelo Tinelli, que a convidou para o famoso "Bailando por un sueño". Aos 71 anos, ela fez uma apresentação cheia de plumas e lantejoulas que não passou despercebida. Judith participou como uma das figuras internacionais da edição, acompanhada pelo bailarino Iván Anriquez. A festa, porém, durou pouco: uma semana após a estreia, a artista perdeu o primeiro duelo da competição televisiva e retornou ao Peru.

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Longe da Argentina, o espetáculo continuou. Desta vez, porém, foi uma sequência triste no plano amoroso que a levou a protagonizar um dos momentos mais surrealistas da televisão peruana. Ela estava prestes a se casar com Elmer Molocho, 45 anos mais jovem, no que foi chamado de “casamento do ano”, que seria transmitido ao vivo. No entanto, minutos antes de dizer “sim”, o noivo fugiu ao revelar que tinha outra família.

— Isso não me afeta, eu sou uma tigresa — declarou na ocasião e, pouco tempo depois, transformou a dor no lançamento da música “La pendejada”.

A pandemia e a reinvenção nas redes sociais

Em 2020, a artista contraiu Covid-19.

— Estou mal, não posso falar — disse ao jornal La República, confirmando o diagnóstico. — Sim, tenho coronavírus. Agora estou mal, estou com dor de cabeça. Estou de cama, mas graças a Deus com todos os cuidados necessários. Apesar da minha idade, me sinto forte. Sei que vou sair dessa, vou vencer o coronavírus. Sou uma mulher guerreira e sempre consegui seguir em frente na vida.

A Tigresa do Oriente em turnê como DJ sendo a “rainha dos therians"

Reprodução | Instagram @tigresadeloriente

Após se recuperar, reinventou-se com a ajuda das plataformas digitais. A Tigresa não apenas se tornou especialista em TikTok, como também quebrou tabus geracionais ao entrar em plataformas como o OnlyFans, onde defendeu que sensualidade e desejo não têm prazo de validade.

Assim, deixou de ser apenas uma lembrança dos primórdios do YouTube para se transformar em um ícone da Geração Z. Ao se autoproclamar “a rainha dos therians”, hoje promove uma turnê internacional na qual pretende levar seu talento como DJ a milhares de pessoas. Aos 80 anos, a maquiadora que um dia retocou o rosto de grandes divas acabou se tornando a estrela que se recusa a parar de rugir.