247 – O sociólogo e especialista em pesquisas eleitorais Marcos Coimbra afirmou que a eleição presidencial de 2014 demonstra que uma candidatura pode reverter uma situação desfavorável mesmo nos últimos dias do segundo turno. Em entrevista ao Boa Noite 247, ele recuperou a evolução das pesquisas na disputa entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) para analisar as possibilidades de mudança no cenário eleitoral de 2026, marcado pela disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
“Foi na última hora que Dilma virou”, afirmou Coimbra, ao recordar que Aécio permaneceu à frente da então presidente durante parte significativa da campanha do segundo turno. Para o especialista, aquele processo contraria a ideia de que a distribuição das intenções de voto, quando aparentemente estabilizada, não pode sofrer alterações na reta final.
Coimbra explicou que as primeiras pesquisas realizadas depois do primeiro turno de 2014 mostravam Aécio Neves com uma vantagem de aproximadamente dois pontos percentuais sobre Dilma Rousseff. Essa diferença permaneceu durante os primeiros levantamentos, criando a percepção de que o candidato do PSDB havia assumido o controle da disputa.
“É interessante ver como certas generalizações costumam ser feitas apressadamente e não funcionam, essa coisa de que nunca houve isso, nunca houve aquilo”, declarou.
Segundo ele, o cenário de 2014 apresentava semelhanças com a disputa presidencial de 2026, especialmente no comportamento das pesquisas após o primeiro turno. Nos dois casos, o candidato que enfrentava o PT chegou à etapa decisiva com vantagem em parte dos levantamentos.
A mudança de 2014, entretanto, não ocorreu imediatamente após a definição dos finalistas. Coimbra destacou que Aécio manteve sua posição durante aproximadamente duas semanas, até que as pesquisas começaram a registrar um deslocamento das intenções de voto em direção à presidente.
“Foi exatamente nesta semana que a gente está que as coisas mudaram na eleição de 2014. E mudaram rapidamente”, afirmou, referindo-se ao período correspondente à reta final da campanha atual.
O especialista observou que não existe um acontecimento isolado capaz de explicar integralmente aquela reversão. Na sua avaliação, a mudança não pode ser atribuída simplesmente a um erro cometido por Aécio ou a uma decisão específica da campanha de Dilma.
“Não há registro de um evento, de uma situação qualquer que possa se dizer: foi porque o Aécio fez esta besteira ou foi porque a Dilma tomou aquela decisão certa. A opinião pública mudou”, explicou.
Coimbra ressaltou que a alteração ocorreu sem uma transformação substancial na dinâmica dos debates ou no ritmo da propaganda eleitoral. As campanhas mantinham suas estratégias, enquanto uma parcela dos eleitores passou a reconsiderar suas escolhas.
O movimento apareceu nas pesquisas realizadas na terceira rodada de levantamentos do segundo turno, já na segunda metade de outubro. A partir daquele momento, Dilma começou a crescer enquanto Aécio perdia apoio.
“Aécio afundou porque, é claro, aí o jogo é soma zero. O que um perde, o outro ganha. O que um ganha, o outro perde. Então Dilma cresceu e o ilustre ex-governador de Minas Gerais caiu”, afirmou.
Um dos elementos considerados por Coimbra foi o apoio de Marina Silva a Aécio Neves. A ex-senadora havia conquistado uma parcela do eleitorado jovem e de pessoas identificadas com pautas ambientais, além de ter ocupado a segunda posição nas pesquisas até poucos dias antes do primeiro turno.
Ao declarar apoio ao candidato do PSDB, Marina contribuiu, na avaliação do sociólogo, para ampliar a sustentação eleitoral de Aécio na primeira parte do segundo turno.
“Ela, ao apoiar o Aécio, ajudou a fazer com que ele passasse quase dois terços do período entre o primeiro e o segundo turno na frente”, explicou.
Apesar dessa vantagem, o movimento não foi suficiente para garantir a vitória. Coimbra destacou que a campanha de Dilma conseguiu recuperar terreno em um período relativamente curto, quando parte do eleitorado passou a avaliar de outra maneira as consequências da eleição.
Entre as mudanças de conteúdo ocorridas na reta final, o sociólogo apontou a atuação da equipe comandada pelo publicitário João Santana. Segundo ele, a campanha petista passou a concentrar esforços nos temas econômicos, explorando as diferenças entre os projetos apresentados pelos candidatos.
“A mudança de conteúdo mais relevante que houve foi que a equipe do João Santana deu uma carga muito intensa nos temas econômicos”, afirmou.
Essa estratégia, na avaliação de Coimbra, integrou o processo de recuperação eleitoral de Dilma, embora não seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito exclusiva entre a propaganda e a alteração das intenções de voto.
O especialista também recordou que a última semana de 2014 foi marcada por uma disputa política e midiática em torno das denúncias relacionadas à Operação Lava Jato. O ambiente contribuiu para intensificar o confronto entre as candidaturas e para reduzir a distância registrada em determinados levantamentos depois da virada de Dilma.
Mesmo com essa aproximação final, a presidente venceu a eleição com 51,64% dos votos válidos, contra 48,36% de Aécio Neves.
Ao relacionar aquela experiência à eleição de 2026, Coimbra chamou atenção para a existência de bases eleitorais consolidadas tanto no campo petista quanto entre seus adversários. Segundo ele, uma parcela expressiva da sociedade brasileira mantém resistência histórica ao PT, enquanto o partido conserva um núcleo de apoio que atravessa diferentes disputas presidenciais.
“O começo da conversa é 40% contra. Do 40% até o 51 é que é o problema”, afirmou, ao explicar que a disputa pela maioria ocorre dentro de uma faixa relativamente limitada de eleitores que podem mudar de posição.
Para Coimbra, essa estrutura ajuda a compreender por que as eleições presidenciais brasileiras frequentemente apresentam diferenças pequenas entre os principais candidatos, mesmo quando o número absoluto de votos envolvidos é elevado.
“Não existe disparou ou afundou. Existem diferenças pequenas, pequenas que, do ponto de vista numérico, são milhões de votos, porque nós temos um dos maiores eleitorados do mundo”, explicou.
O sociólogo ponderou que a comparação histórica não permite prever automaticamente uma vitória de Lula em 2026. Questionado sobre a possibilidade de novas pesquisas confirmarem uma mudança favorável ao presidente, afirmou que não dispõe de elementos suficientes para antecipar os resultados.
“Eu não sei responder. Eu gostaria muito que acontecesse e que fosse apenas o começo de um processo de reposicionamento do eleitorado, de uma parcela do eleitorado”, declarou.
Coimbra considera, contudo, que a experiência de 2014 impede tratar como definitivo um cenário eleitoral construído a partir das pesquisas das primeiras semanas do segundo turno. A trajetória de Dilma mostra que uma vantagem inicial pode desaparecer quando ocorre uma mudança na avaliação dos eleitores.
Na interpretação do especialista, a principal lição daquela eleição é que o comportamento do eleitorado não obedece necessariamente às expectativas das campanhas ou às projeções formuladas a partir de levantamentos anteriores. Mesmo quando a disputa parece encaminhada, uma parcela dos votos continua sujeita a mudanças até os últimos dias.
Por isso, Coimbra sustenta que o resultado de 2026 permanece aberto enquanto houver eleitores dispostos a reconsiderar suas decisões. A virada de Dilma em 2014, segundo sua análise, não constitui uma garantia de repetição histórica, mas demonstra que diferenças reduzidas podem ser revertidas em um intervalo suficiente para alterar o resultado de uma eleição presidencial.
Brasil 247