Marca em osso encontrado no Iraque pode revelar ataque mortal contra um neandertal há 75 mil anos; entenda

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Uma pequena abertura no osso de um neandertal pode guardar a pista de um episódio violento ocorrido há cerca de 75 mil anos. Encontrada na escápula esquerda de um indivíduo batizado de Shanidar A, a lesão tem características compatíveis com um golpe de lança de madeira e pode representar uma das evidências mais antigas de violência letal desse tipo no Oriente Médio pré-histórico.

Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp O estudo foi publicado na revista científica Scientific Reports e divulgado em reportagem da emissora BBC. O ferimento foi identificado em restos encontrados na caverna de Shanidar, no Curdistão iraquiano. A abertura, quase circular, tem aproximadamente 15 milímetros de diâmetro. Para os pesquisadores, sua forma e localização levantam a possibilidade de que uma lança pontiaguda tenha atravessado o peito do indivíduo, atingido um pulmão e grandes vasos sanguíneos e deixado a marca no osso. A hipótese é que o golpe tenha sido fatal, mas ainda não há como afirmar se o neandertal foi atacado deliberadamente ou se sofreu um acidente durante uma caçada. Golpe dirigido a uma região vital? Emma Pomeroy, principal autora do estudo e pesquisadora do Departamento de Arqueologia da Universidade de Cambridge, considera que o ferimento é compatível com o impacto de uma lança de madeira. Testes com réplicas desse tipo de arma produziram marcas ósseas semelhantes à encontrada no material arqueológico. — Não é o tipo de fratura que ocorreria naturalmente, porque é muito circular — afirmou Pomeroy.

A pesquisadora considera ainda que o golpe pode ter sido dirigido a uma região vital. — O golpe fatal pode ter sido uma tentativa deliberada de atingir o coração — disse. A interpretação, porém, não é conclusiva. A lesão também pode ter resultado de um acidente durante uma caçada, envolvendo outro indivíduo do mesmo grupo. Professor do Museu de História Natural de Londres, Chris Stringer, que não participou da pesquisa, considera a agressão intencional a explicação mais provável, levando em conta a posição e a gravidade do ferimento. — Os pesquisadores deixam em aberto a possibilidade de isso ter sido resultado de um acidente de caça ou de violência interpessoal, mas, na minha opinião, a segunda hipótese parece mais provável, considerando a localização e a extensão do ferimento — afirmou Stringer. A descoberta se soma a evidências identificadas em Shanidar em 1957, quando pesquisadores encontraram os restos de outro neandertal que viveu há aproximadamente 50 mil anos. Nesse caso, as costelas apresentavam marcas de uma lesão parcialmente cicatrizada, possivelmente provocada por uma lança com ponta de pedra. Escavações realizadas na década de 1950 encontraram restos de pelo menos dez indivíduos da espécie na caverna. Não é possível determinar se os dois neandertais foram feridos durante atividades de caça ou se sofreram ataques de outros integrantes do grupo. Indícios de violência remontam a centenas de milhares de anos A caverna de Shanidar não é o único local a fornecer pistas sobre possíveis episódios de violência letal entre populações humanas antigas. Um estudo publicado em 2022 examinou crânios encontrados em Sima de los Huesos, conhecido como Poço dos Ossos, no norte da Espanha. Os vestígios têm cerca de 430 mil anos. Os pesquisadores identificaram 57 lesões cicatrizadas em 20 indivíduos. Nove apresentavam fraturas cranianas potencialmente fatais. Em seis deles, os ferimentos tinham características semelhantes e apareciam na região posterior esquerda do crânio. O padrão levou os cientistas a considerar os golpes deliberados uma explicação mais provável do que danos acidentais. Um dos crânios apresentava duas lesões que provavelmente foram provocadas pelo mesmo objeto. Os resultados não demonstram que todos os indivíduos daquela população fossem violentos, mas constituem evidências de que episódios de violência letal podem ter ocorrido centenas de milhares de anos atrás. Durante muito tempo, pesquisadores associaram o surgimento da guerra organizada ao desenvolvimento da agricultura. Uma das hipóteses é que o estabelecimento de comunidades sedentárias tenha ampliado as disputas por territórios, animais e reservas de alimentos. Estudos sobre antigos caçadores-coletores e outros parentes humanos, porém, reuniram indícios de que assassinatos individuais podem ser anteriores à agricultura. A questão em debate é quando esses episódios começaram a ocorrer com maior frequência e se, em algum momento, agressões isoladas deram lugar a conflitos organizados entre grupos. As evidências de Shanidar e Sima de los Huesos contribuem para essa discussão, mas não permitem determinar com que frequência os neandertais praticavam violência nem concluir que havia guerras organizadas em suas sociedades. Os neandertais eram uma espécie humana distinta, que desapareceu há aproximadamente 40 mil anos e ocupou extensas áreas da Europa e de partes da Ásia Ocidental e Central. Os restos encontrados na caverna iraquiana ajudam a reconstruir aspectos da vida desses grupos e a investigar as circunstâncias em que alguns indivíduos sofreram ferimentos graves.

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