Mapa da votação em 2026 vai além da pobreza, diz estudo

Mapa da votação em 2026 vai além da pobreza, diz estudo - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Flávio Ataliba: expansão agrícola no Norte pode ter mudado e padrão das relações produtivas do trabalho Jarbas Oliveira/Valor O mapa do voto das eleições de 2026 coincide com o mapa da pobreza nos Estados brasileiros, mas o que separa os “dois Brasis” nas urnas é sobretudo uma geografia política consolidada desde 2022, e não a renda, apontam pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre). No caso, a divisão territorial do primeiro turno de 2026 coincide com as diferenças de pobreza entre os Estados, mas não se explica por elas. As unidades da federação com maiores taxas de pobreza, em sua maioria, apresentaram um número maior de votos para o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas não se pode concluir que os mais pobres votaram no presidente nem estabelecer relação de causa e efeito. O Maranhão, o Estado mais pobre do país, deu proporcionalmente menos votos a Lula que o Piauí e a Bahia, por exemplo.

O Acre, com pobreza semelhante à do Maranhão e Ceará, deu a Lula menos da metade da votação registrada nestes Estados nordestinos proporcionalmente. Outro exemplo é o de Amazonas e Piauí, com taxas de pobreza próximas, mas onde o petista teve 71% e 48,2% dos votos, respectivamente, uma diferença de 23 pontos. O padrão também aparece entre Amapá e Bahia, com diferença de 20 pontos na votação, Rondônia e Tocantins (17 pontos), e Goiás e Minas Gerais (12 pontos). Segundo o pesquisador do FGV Ibre e coautor do estudo Flávio Ataliba, o principal destaque é a persistência. Em comparação, a votação de 2022 explica 98% das diferenças observadas em 2026, e o mapa praticamente se repetiu. "A votação de 2022, em termos de distribuição, é muito semelhante à de 2026. E o estudo apontou que a desigualdade tem um elemento associativo importante nessa persistência", afirma. No agregado nacional, o senador Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, e Lula, 45,16%. O petista venceu nos nove Estados do Nordeste, com 63,8% na região. Flávio venceu em todo o Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O Norte ficou dividido. Minas Gerais e Tocantins foram as duas unidades da federação que migraram do petista para o PL entre 2022 e 2026. Segundo o estudo, a mudança foi pequena e em sentido único. No caso, Lula perdeu em média 3,1 pontos por Estado, em 25 das 27 unidades da federação. As perdas foram menores nos Estados mais desiguais. “Não estamos refutando a tese de que variáveis socioeconômicas têm uma associação com o voto, mas a gente está querendo instigar nessa pesquisa que existem outros componentes que têm que ser levados em conta, não só a pobreza dos Estados, na hora da definição do voto", afirma João Mário Santos de França, coautor do estudo e pesquisador do FGV Ibre. Os pesquisadores destacam que a literatura econômica sobre instituições sugere que a persistência do voto no Nordeste pode refletir o papel histórico dos recursos públicos na região. A hipótese é compatível com os dados, mas não foi testada. Outra hipótese sondada pelos pesquisadores é de que a questão é mais individual, e não estrutural. “São duas hipóteses. Se, na média, o pobre do Nordeste vota parecido com o pobre do Sul e Sudeste, então a questão é de característica individual, não tem nada a ver com regional. Se, de fato, o pobre do Nordeste tem um viés diferente do pobre de outras regiões, aí você pode dizer que tem algum componente regional na história. Eu tendo a pensar na primeira hipótese, eu acho que na média o pobre do Nordeste vota mais parecido com pobre do Sul e Sudeste do que diferente, na média", explica João Mário. A doutora em ciência política e pesquisadora no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Daniela Costanzo avalia que o estudo está observando os ecos de um realinhamento na geografia política brasileira que ocorreu a partir de 2006, com a reeleição do presidente Lula. “A coisa é mais antiga ainda. Historicamente é bem interessante que, em 2002, o voto do PT era quase que uniforme no território e muito espalhado pelo Brasil.” “Aí teve o primeiro mandato do Lula [2003-2006], quando ele fez políticas que foram fundamentais para O Nordeste, como o Bolsa Família, a transposição do rio São Francisco, a cisternas e o Luz Para Todos. Foram políticas públicas que chegaram no Nordeste e que ainda não tinham chegado. E é uma região muito populosa. Então, por isso que forma esse efeito também. Antes não era assim", analisa Costanzo. Em outra frente, o cientista político e analista da 4Intelligence Ricardo Ribeiro também aponta que historicamente regiões onde o setor agropecuário é muito forte tendem a criar "um ambiente mais desfavorável ao PT e ao lulismo", principalmente no interior de Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Discurso ambiental não tem aderência ou capacidade de convencimento junto a essas populações” “Mesmo nos melhores momentos do PT, essa área, mais do interior e mais ligada ao agronegócio é uma área onde predomina e tem mais força o antipetismo. E isso permeia todas as faixas sociais. O que não significa que não exista alguma correlação positiva entre eleitores de baixa renda e voto a favor do Lula e do PT”, explica. Segundo os autores do estudo, outra hipótese a ser testada é a de averiguar se a mudança no padrão produtivo de cada região alteraria o padrão de voto. "A gente fala, por exemplo, da influência na região Norte e, principalmente, no Centro-Oeste da expansão da fronteira agrícola. Talvez essa expansão para alguns Estados do Norte tenha mudado esse padrão das relações produtivas do trabalho", afirma Ataliba. O caso do Norte De acordo com o estudo, a região Norte foi a que trouxe dados mais reveladores, justamente por ser a única dividida entre os dois candidatos. A região tem a segunda maior taxa média de pobreza (35,8%), quase o dobro da do Sudeste. Mesmo assim, a votação média de Lula no Norte (37,8%) foi inferior até mesmo à do Sudeste, e a de Flávio Bolsonaro (55,5%) ficou próxima à do Centro-Oeste. Ou seja, pelo nível de pobreza, o Norte estaria próximo do Nordeste, mas pelo comportamento eleitoral aproxima-se do Centro-Oeste. "Condições materiais semelhantes estiveram associadas, portanto, a comportamentos eleitorais muito diferentes conforme a região e, no caso do Norte, até dentro dela. Isso indica a presença de fatores que a Pnad não mede, como a base produtiva ligada à fronteira agropecuária, a composição migratória e as redes políticas locais, hipóteses que os dados aqui utilizados não permitem testar", afirma o estudo. Sobre o comportamento da região Norte, Daniela Costanzo avalia que é importante destacar outros fatores do território para além da pobreza. A cientista política avalia que a região tem uma experiência distinta com as mudanças promovidas com as políticas públicas dos governos petistas em três pontos. "Primeiro, não tem uma população tão grande no Norte. Segundo, algumas populações lá ainda vivem de forma muito remota e acabam acessando menos políticas públicas. Terceiro, que essa região tem ganhado muito com atividades ilegais. Tanto na exploração de madeira, quanto no garimpo. Isso é fundamental, porque as pessoas dependem disso para viver. Então, você acaba gerando uma identificação com os bolsonaristas, né? Aqueles que dizem que ‘vão passar boiada’ e tudo mais”, diz. A avaliação é corroborada por Ribeiro. O cientista político afirma que parte da população residente dos Estados do Norte percebe a discussão sobre meio ambiente e ecologia, tradicionalmente difundida pelo Partido dos Trabalhadores, como um risco para atividades econômicas. “O discurso ambiental não tem uma aderência ou capacidade de convencimento junto a essas populações dessas regiões atreladas, muitas vezes, a atividades que são, do ponto de vista ecológico, danosas ao meio ambiente, como mineração e pecuária extensiva, que são alvo de críticas de ambientalistas, que estão conectados mais à esquerda”, afirma o analista político da 4Intelligence.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Valor