“O melhor significado de liberdade é ter o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.” — George Orwell Não.
Ainda não se pode comemorar a “morte” do bolsonarismo, o movimento de extrema direita que conquistou corações e mentes de milhões de pessoas de todas as classes sociais, inclusive entre os pobres e a classe. O movimento, de matiz mais reacionário do que liberal, conseguiu entrar na cabeça das pessoas, com ideias tão vagas quanto simples.
Por que você é bolsonarista? “Porque sou”, ouve-se comumente entre pessoas simples. Argumentos? Nenhum.
Mas há uma fala frequente: cansaço em relação ao PT e ao petismo. O que levou o ex-deputado federal Vilmar Rocha — um intelectual público — a sugerir que o antipetismo é mais sólido do que o bolsonarismo.
O antipetismo — ou anti-lulopetismo —é a arma principal do bolsonarismo. Outra é o discurso moral, a suposta defesa da família.
Na quarta-feira, 28, um repórter do Jornal Opção presenciou um prestador de serviço, pertencente à classe média, arrastando uma bandeira do Brasil, na portaria do condomínio Housing Flamboyant, em Goiânia. Estava, disse, “indignado” com a vitória do presidente Lula da Silva, do PT.
Ele se apresentou como “evangélico”, “patriota” e “defensor da família e dos bons costumes”. Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro: a senadora eleita pelo Distrito Federal pode ser a aposta do Velhão para a Presidência da República em 2030? | Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República
Arrastar a bandeira, para o bolsonarista, “não é crime”. É “só” uma maneira de mostrar sua ira contra a vitória do petista-chefe.
O que o entusiasma agora, com a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos? “Só o Nikolas. Ninguém mais.” Ele acredita numa improvável intervenção americana no Brasil.
“No dia 18.” O repórter perguntou: “O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não seria uma alternativa aos Bolsonaros”.
Ele olhou para bandeira e para o vigilante que ouvia a conversa e disse: “Só vejo duas pessoas como alternativas — o Nikolas e o ‘Velhão’”. Que “Velhão”? Agastado com a conversa, respondeu, ríspido: “Jair Messias”.
Mas ele está preso? “Não vai ficar preso a vida toda.” Evita Péron: há espaço para uma Evita (ou Isabelita) brasileira? | Foto: Reprodução
Neste momento, outro prestador de serviço contrapôs: “O cagaço dos Bolsonaros é imperdoável. Janones organizou o Exército de Lula e, de fato, o PT tinha um marechal, o presidente.
Mas Flávio Bolsonaro, acovardou-se e fugiu. Um general que abandona seu exército merece o quê? Cadeia”.
O fato é que a extrema direita bolsonarista, para além da direita, não tem espírito democrático. É golpista e pró-ditadura.
Tanto que não busca referencial político no pré-1964 e no pós-1985, e sim exatamente na ditadura O prestador de serviço, de classe média, admite que votou em Flávio Bolsonaro.
“Meu voto foi contra Lula”, esclareceu. Ao lado, o homem que usava seu automóvel para arrastar a bandeira do Brasil, pontificou: “A gente ganha em 2030”.
O repórter perguntou com quem? “Com qualquer um. Lula não tem sucessor no PT”.
Camilo Santana, senador pelo Ceará, é visto como gestor e articulador político eficiente| Foto: Reprodução O Jornal Opção publicou um texto , na edição de 3 de outubro, no qual mostra um certo estranhamento pelo fato de uma direita que têm viabilidade eleitoral ser golpista.
O fato é que a extrema direita bolsonarista, para além da direita, não tem espírito democrático. É golpista e pró-ditadura.
Tanto que não busca referencial político no pré-1964 e no pós-1985, e sim exatamente na ditadura. Para piorar as cousas, a identificação do bolsonarismo nem é com a ditadura mais moderada, a do presidente-general Ernesto Geisel, e sim com a ditadura mais cruenta, a do presidente Emilio Garrastazu Médici.
Brilhante Ustra é só a face mais identificada com os Bolsonaros, mas o coronel não era a figura decisiva na formulação das ações do Exército. Na linha de frente estavam os brutais generais Médici, Orlando Geisel e Milton Tavares.
Em 1978, quando o ministro do Exército, Sylvio Frota, planejou atacar o Palácio do Planalto e derrubar Ernesto Geisel, o capitão Augusto Heleno era seu ajudante de ordens. Mais tarde, já como general, Augusto Heleno conspirou com Jair Bolsonaro para impedir a posse do presidente Lula da Silva e, na sequência, para derrubá-lo e, até, matá-lo.
Rafael Fonteles, governador: o Estado do Piauí deu a maior votação proporcional ao presidente Lula da Silva em 2026 | Foto: Divulgação do governo do Piauí Os Bolsonaros não são políticos ilustrados, porém não são inteiramente néscios.
Tanto que o bolsonarismo vinha iludindo muita gente sobre seus planos. Flávio Bolsonaro estava “usando” a democracia, não para fortalecê-la, e sim para miná-la.
A extrema direita pensa a democracia como “passagem” para a ditadura, e não com valor universal. A mudança da Constituição, que Flávio Bolsonaro postulou na “hora errada” — mais pessoas (empresários, políticos, “O Globo” e o “Estadão”) começaram a desconfiar de suas verdadeiras intenções —, era um sinal de que se usaria a lei maior para “legalizar” um golpe de Estado, permitindo que o bolsonarismo se perpetuasse no poder, inspirando-se no putinismo de Vladimir Putin, o czar que dirige a Rússia há 26 anos (Stálin mandou na União Soviética por 29 anos).
A vitória pode ter libertado a direita do controle da extrema direita. O Brasil tem políticos de direita que são gestores eficientes e absolutamente democratas e nada golpistas: Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Tarcísio de Freitas
Para além do fujão Flávio Bolsonaro — que ficará na história como o “general” que abandonou seu vasto exército e seus muitos viúvos (por exemplo, Daniel Vorcaro) e viúvas —, há um aspecto a considerar: a vitória de Lula da Silva é emblemática por vários motivos. André Janones: o deputado que “acordou” a esquerda (e o PT) na eleição de 2026 | Foto: Câmara dos Deputados
Primeiro, porque impediu que a extrema direita conquistasse o poder no país mais rico da América Latina — o que trava a “renovada” política do big stick do presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump. Segundo, o mercado de terras raras não ficará, ao menos na América do Sul, sob controle de um único país (a terra de Franklin D.
Roosevelt, que tinha dez dedos e governou o país, por quatro mandatos, de uma cadeira de rodas; teve pólio aos 39 anos). Terceiro, manteve a democracia no país (quem troca a democracia por um suposto rigor fiscal não sabe o que é viver sob uma ditadura) —, o que não é pouco.
Quarto, a vitória de Lula da Silva pode ter libertado a direita do relativo controle da extrema direita. O Brasil tem políticos de direita que são gestores eficientes e absolutamente democratas e nada golpistas: Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Tarcísio de Freitas.
Isto para citar apenas três. Guilherme Boulos: radicalismo o afasta de disputas majoritárias | Foto: Câmara
Então, a derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro podem levar ao renascimento da direita democrática e não golpista. Quando a esquerda — como a petista — e a direita têm viabilidade eleitoral (e não é golpista), a democracia sai incólume dos processos eleitorais.
Tarcísio de Freitas é bolsonarista? Por certo, é. Não é golpista? Espera-se que não.
Em São Paulo, faz um governo democrático, com várias realizações. Até agora, não defendeu golpe de Estado.
Mas vale a pergunta: Tarcísio de Freitas tem viabilidade eleitoral sem o bolsonarismo? Ao menos até o primeiro semestre de 2026, ou até pouco mais adiante, os defensores do mercado apostavam na candidatura do gestor de São Paulo a presidente da República. Mas o bolsonarismo — leia-se os caudilhos da família Bolsonaro — rejeitou Tarcísio de Freitas.
Por julgá-lo “moderado” (nas vezes em que tentou apresentar um discurso radical, de maneira atabalhoada, não convenceu ninguém, nem ele mesmo, tanto que recuou), o bolsonarismo o deixou de lado. Tabata Amaral e João Campos | Foto: Reprodução
Em 2030, daqui a quatro anos, Tarcísio de Freitas poderá ser candidato a presidente. Ele já admite isto.
Mas o bolsonarismo apostará no governante de São Paulo? É possível que sim, por uma questão de sobrevivência e até porque não terá um nome da família para bancar — exceto a senadora eleita Michelle Bolsonaro (espécie de Evita Perón do país de Adélia Prado e Edival Lourenço; recomenda-se não subestimá-la).
Carlos e Renan Bolsonaro são inexpressivos. Se aglutinar o bolsonarismo e a direita civilizada, que parece não rejeitá-lo, Tarcísio de Freitas poderá ser um forte candidato a presidente.
Uma chapa com Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado seria, sem dúvida, consistente. A título de ilustração, Tarcísio de Freitas reconheceu a vitória de Lula da Silva de imediato.
Assim como o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, e o PL de Valdemar Costa Neto. O que se prova? Bom senso da direita que, com a fuga de Flávio, talvez tenha se libertado dos Bolsonaros.
Ao menos em parte. Fala-se muito em Nikolas Ferreira — o deputado federal mais votado do país em 2026, com espantosos 3.119.318 votos (mais do que o número de eleitores de Sergipe e Tocantins juntos).
Mas o parlamentar de Minas Gerais não terá 35 anos em 2030. Terá 34 anos.
Poderá ser candidato a governador, mas não a senador e a presidente. Lula vai preparar Boulos pra presidente? Talvez não.
Porque o político de São Paulo é visto como “radical”. André Janones talvez não seja palatável para os eleitores de centro-direita.
Há Camilo Santana e Rafael Fonteles Lula da Silva terá quatro anos para preparar um sucessor.
Mas em quatro anos não se prepara um Lula da Silva — talvez seja preciso décadas, como é o caso do presidente. O que fará o PT em 2030? Não dá para saber, é claro.
Porque a imprensa não deve fazer profecias. Mas não dá para construir de imediato um nome do PT com a grandeza histórica e política de Lula da Silva.
Lula da Silva quer preparar Guilherme Boulos para presidente? Realista absoluto, é provável que não. Porque o político de São Paulo é visto como “radical”.
André Janones, que sabe mobilizar as massas, talvez não seja palatável para os eleitores de centro e centro-direita. (Pode ser impressão, mas Boulos parece enciumado com a onipresença de Janones ao lado do “pai” Lula.)
De onde virá o sucessor do nordestino Lula da Silva? Talvez do Nordeste. O senador Camilo Santana (PT), do Ceará, poderá ser a alternativa.
Foi governador do Ceará, ministro da Educação e, este ano, eleito senador. O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), foi reeleito e é apontado como gestor e político eficiente.
Se trocar o governo de seu Estado por um ministério, logo depois de ser eleito, estará dando um sinal de falta de compromisso com seus eleitores. Ao perder a disputa para governador em Pernambuco, João Campos (PSB) viu reduzido seu capital político, mas ainda é um nome a considerar.
Há nomes substantivos entre as mulheres de esquerda? Duas Marílias — as senadoras eleitas Marília Arraes (PDT), em Pernambuco, e Marília Campos (PT), em Minas Gerais. Ana Elisa, do PT de Minas, só tem 21 anos e não poderá ser candidata.
(A direita — e não a extrema direita — tem ao menos um nome consolidando-se: Tarcísio de Freitas. Michelle Bolsonaro é uma incógnita.)
Como terá de construir um nome, e não será fácil, Lula da Silva terá de tentar edificá-lo, não em 2030, e sim a partir de 2027. A reeleição de Lula da Silva contribuiu para enfraquecer o bolsonarismo — que ficará longe do poder ao menos por oito anos.
Se o candidato do PT vencer em 2030, o bolsonarismo pode ser “liquidado”. E se a direita, com Tarcísio de Freitas (bolsonarista relutante), ganhar? É possível que o bolsonarismo se torne cada vez mais anêmico.
Lula da Silva jogou a cal e Tarcísio de Freitas poderá jogar a terra no caixão político do bolsonarismo? Não se sabe. O PT é sempre surpreendente.
Quem diria que, do nada, surgisse um Janones para balançar o país? O Exército de Lula, dirigindo pelo “general” Janones, de eficiência excepcional e rápida, é um caso a ser estudado com lupa pelos cientistas políticos, sociólogos e especialistas em comunicação.
Com o deputado mineiro, criador do “janonismo”, a esquerda deixou de ser analógica e finalmente se tornou digital.
Jornal Opção