Bandidos de Hollywood fugiam para o Brasil… agora os Estados Unidos acolhem fugitivos (reais) brasileiros

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No artigo “Fugindo para a fronteira”, publicado na “Folha de S. Paulo”, em 27 de junho deste ano, o jornalista Ruy Castro deu uma dica aos diretores de cinema — “Hei, uma ideia: que tal filmes brasileiros sobre os nossos patriotas de araque e golpistas que vão se esconder debaixo da gravata de Trump?”

Em tempos idos, e às vezes nem tão idos assim, criminosos do cinema de Hollywood, nos Steites, fugiam para o Brasil com o objetivo de escapar das garras da polícia, da Justiça e, até, de outros bandidos. Agora, a situação inverteu-se.

Ruy Castro afirma que três trânsfugas para o Tio Sam são o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o policial federal Alexandre Ramagem e o jornalista e youtuber Allan dos Santos. Os bolsonaristas têm contas com a Justiça brasileira, por isso escafederam-se para a terra de Al Capone.

Ruy Castro acrescenta: “Há também influencers, foragidos do 8/1 e ex-agentes da PF particular de Bolsonaro”. Cineastas têm material pra contar sobre a fuga de Flávio Bolsonaro.

Títulos para o filme? Que tal “A Odisseia de Flávio Fujonaro”? Parece adequado, mas o personagem não tem coragem. Um bom título pode ser “Fuga para o Nada”

Neste outubro de calor (30 graus, em média) e chuvas, depois do segundo turno das eleições presidenciais, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, escapou, de maneira espetacular — os agentes da Polícia Federal foram olimpicamente enganados (exceto se não estivessem de campana) —, para a nação de Mike Corleone, o poderoso chefão do filme de Francis Coppola.

A CIA está por trás da fuga bem-sucedida de Flávio Bolsonaro? A imprensa local e internacional especula que sim (há quem cite até o Mossad). Se isto for verdade, os responsáveis pela fuga do senador são o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o secretário de Estado, Marco Rubio.

Porque Donald Trump decidiu sacar Flávio Bolsonaro até agora não se sabe (quis mostrar força para o presidente Lula da Silva? Teria dado um recado-ameaça: “Veja como é fácil extrair alguém do Brasil”? Talvez). Os dois são de direita, é fato.

Mas o presidente e empresário americano é bem menos ideológico do que parece. Não é, a rigor, um homem de Estado — da linhagem de Franklin D.

Roosevelt e Winston Churchill. Trata-se de um negociante — altamente pragmático.

Amanhã, se avaliar como oportuno, Donald Trump deporta os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro para o Brasil. Suas lealdades são provisórias, como sabe Steve Bannon.

Mas quem está mesmo certo é Ruy Castro. Os cineastas têm farto material para contar (e especular) sobre a fuga sensacional de Flávio Bolsonaro.

Quais títulos para o filme ou filmes? “A Hora do Cagão”? Não, claro. Trata-se de um título de baixo nível.

Que tal “A Odisseia de Flávio Fujonaro”? Parece adequado, mas o personagem não tem a coragem de Ulisses e de Homero. Um bom título pode ser “Fuga para o Nada”.

Porque, depois de um primeiro momento, Flávio Bolsonaro será colocado na geladeira por Donald Trump. Ele não servirá para nada.

Como o presidente é de um pragmatismo absoluto, quando o dinheiro do filme “Dark Horse” acabar, o brasileiro do Rio de Janeiro terá de trabalhar — assim como seu irmão, Eduardo. Este sabe, ao menos, fazer um hamburger.

Olhar Estrangeiro, de Lúcia Murat, é um filme obrigatório para entender o que traz a bandidagem gringa para o Rio. Lúcia redescobre a aura do exotismo que ainda cerca a cidade, fazendo dela cenário para o entretenimento

Ruy Castro cita apenas um filme americano em que o “bandidos” decidiram escapar para o Brasil, ou melhor, para o Rio de Janeiro: “O Homem que se Vendeu” (“The Great McGinty”), de 1940, dirigido por Preston Sturges “Trata-se de dois políticos, Brian Donlevy e Akim Tamiroff — um que nunca foi corrupto exceto por um minuto e outro que sempre foi, exceto também por um minuto —, que escapam da lei e vêm ser felizes como garçons num botequim carioca”, anota Ruy Castro.

Será que, quando acabar a bufunfa, Flávio e Eduardo vão trabalhar como garçons ou lavadores de pratos? Lembrado por Ruy Castro, um criminoso da vida real, Ronald Biggs, assaltante do trem pagador inglês em 1963, escafedeu-se para o Rio de Janeiro.

A história de Ronald Biggs e comparsas está contada no filme “Buster — Procura-se um Ladrão” (1988), de David Green. Num texto publicado no jornal “Extra!”, com o título de “Rio de Janeiro é refúgio para ladrões e golpistas em filmes de Hollywood” (de 6 de dezembro de 2010), Rodrigo Fonseca fornece mais informações sobre o instigante tema.

 Planejando mudar de vida, para melhor, o corretor Andy Hanson (Phillip Seymour Hoffman), articula um assalto à joalheria de sua família. O mala diz para sua mulher (Marisa Tomei): “Vamos para o Brasil, viver no Rio”.

(Flávio Bolsonaro, na carta em que quase disse “diga ao povo que fujo”, escreveu Brazil com “z”. Por quê? Talvez porque avalie seu próprio país como colônia dos Estados Unidos.

Ele parece considerar Donald Trump como monarca e, decerto, se pensa como súdito.) “Seis Destinos” (“Tales of Manhattan”, de 1942), de Julien Duvivier, conta com Charles Boyer e a bela Rita Hayworth no elenco.

Como articular um bom ambiente para a paixão adúltera da dupla? Escapando, é claro, para o Rio de Janeiro (que, no cinema americano, é sinônimo de Brasil) — terra de todas as liberdades… Até Sir Alfred, o grande Hitchcock, descobriu o Brasil.

Nazistas do filme “Interlúdio” (“Notorius”, de 1946) circulam pelo Brasil, ou seja, no Rio de Janeiro. Lembrando que o médico genocida Josef Mengele circulou por São Paulo e morreu afogado em Bertioga, em 1979.

(Por sinal, você sabe que não é chique falar Rio de Janeiro? Raffiné mesmo é dizer só Rio.) Você sabia que o grande ator Alec Guinness, mais um Sir, “circulou” pelo Rio no filme “O Mistério da Torre” (“The Lavander Hill Mob”, de 1951)? Caixa de banco, ele roubou uma fortuna federal e escondeu-se na cidade de Machado de Assis.

(A bem da verdade, as filmagens foram feitas em Paris e Londres, em estúdios.) Os atores Jean-Paul Belmondo e Françoise Dorléac aparecem no filme “O Homem do Rio” (“L’Homme de Rio”, de 1964), dirigido por Phillipe De Brocca.

Com eles, chegam ao país bandidos ferozes. Há cenas gravadas no Museu de Arte Moderna do Rio, mas Rodrigo Fonseca não registra que há cenas rodadas em Brasília — a capital que ainda engatinhava.

Gente nada de bem aparece no filme “Um Samurai em Copacabana” (“Rio no Wakadaishô”, de 1968), de Katsumi Iwauchi, nascido na Indonésia, mas considerado como japonês. Sabe James Bond, aquele que sempre tem licença para matar, mesmo quando não há a mínima necessidade? Pois ele, na pele de Roger Moore, andou pelo Rio no filme “007 Contra o Foguete da Morte” (“Moonraker”, de 1979).

Trata-se daquele filme em que o adorável (e violento) Bond, James, enfrenta o assassino da mandíbula metálica. No filme “Um Dia a Casa Cai” (“The Money Pit”, de 1986), de Richard Benjamin, malas de primeira dão golpe num casal e escondem-se no… sim, acertou: no Rio.

Vincent Benedict (Danny DeVito) é o escroque-mor do filme “Irmãos Gêmeos” (“Twins”, de 1988), no qual contracena com o irmão Julius (o improvável Arnold Schwarzenegger). Endividado e perseguido, Vincent manda um recado para o irmão gigante: “Já estava a caminho do Brasil”.

Dois bandidaços decidem mudar-se para o Rio no filme “Freiras em Fuga” (“Nuns on the Run”, de 1990), de Jonathan Lynn, com Eric Idle e Robbie Coltrane no elenco. O taxista (Andrew McCarthy), do filme “Sádica Perseguição” (“Night of the Running”, de 1994), de Mark L.

Lester, também escapa para o Rio. Por supuesto, local de bandidagem… ma non troppo.

(Sabe o mafioso italiano Tommaso Buscetta? Pois ele morou no Rio de Janeiro, onde se casou com a brasileira Maria Cristina Fernandes. Quem não se lembra dos apresentadores da Globo fazendo uma ginástica verbal danada para evitar pronunciar corretamente o nome do chefão da Cosa Nostra? Por fim, optaram pela pronúncia menos perigosa: “Busqueta”.)

O sábio Rodrigo Fonseca, base deste meu texto, conta que o documentário “Olhar Estrangeiro”, da notável Lúcia Murat, é “um filme obrigatório para entender o que traz a bandidagem gringa para o Rio”. “Lúcia redescobre a aura do exotismo que ainda cerca a cidade, fazendo dela cenário para o entretenimento.”

Agora, com Eduardo e Flávio Bolsonaro na terra do Big Stick, como súditos, Lúcia Murat poderia fazer outro filme, com o título, quem sabe, de “Olhar Provinciano”.

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