Elìna Borges Especial para o Jornal Opção
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han escreveu o ensaio “Sociedade do Cansaço” — lançado em alemão em 2010 e publicado no Brasil em 2015 pela Editora Vozes. Byung-Chul Han nasceu na Coreia, mas fixou-se na Alemanha, onde estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique.
Professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim, é pesquisador e autor de livros sobre a sociedade atual. O conteúdo do livro é instigante e absolutamente contemporâneo.
A palavra cansaço é um dos vocábulos mais pronunciados no século XXI. É muito difícil em uma conversa com amigos, familiares ou no trabalho a palavra não aparecer.
No consultório, os pacientes chegam relatando que estão exauridos, esgotados, que precisam fazer mais, que precisam alcançar o resultado estabelecido, que não se sentem realizados, que precisam melhorar a performance, que a vida está sem sentido, mas que estão mesmo é… cansados. Mas o que é a sociedade do cansaço? Byung-Chul Han cunhou esse termo para retratar a sociedade que opera em uma nova lógica, uma nova dinâmica, um novo jeito de “ser” e “viver” no mundo.
Esta sociedade abandona a lógica do dever e elege a lógica do desempenho. Nela o sujeito é caracterizado como protagonista, como um sujeito livre, capaz de realizar tudo o que sonha e deseja, ele é o “senhor do seu destino”, é empreendedor, conduz a sua própria vida e estabelece o próprio sentido para a existência.
Byung-Chul Han toma por base a sociedade disciplinar para demonstrar que a sociedade do cansaço é uma transformação dessa, é uma reconfiguração da forma como o poder atua sobre os sujeitos, de como o capitalismo tardio e o neoliberalismo operam sobre a sociedade Este sujeito está imbuído do sentido de demonstrar ao máximo a sua capacidade de desempenho, em todas as facetas da vida.
Ele é multifacetado, multitarefa, é altamente flexível, adaptável, possui uma energia potente, acorda de madrugada, vai para a academia, cuida do café da manhã, leva o filho na escola, trabalha, produz, desempenha, alcança metas, consegue o seu primeiro milhão(ou não) e está … cansado.
Esta é a sociedade do desempenho. Byung-Chul Han toma por base a sociedade disciplinar para demonstrar que a sociedade do cansaço é uma transformação dessa, é uma reconfiguração da forma como o poder atua sobre os sujeitos, de como o capitalismo tardio e o neoliberalismo operam sobre a sociedade.
O autor recorre a vários estudos e renomes mundiais como Michel Foucault, Friedrich Nietzsche, Hannah Arendt, Freud e outros para tecer o seu ensaio. Convido o leitor(a) para juntos fazermos um passeio pela obra de Han, uma das mais importantes da contemporaneidade.
Byung Chul Han: filósofo coreano radicado na Alemanha | Foto Divulgação “Cada época possui suas enfermidades fundamentais”, assim começa o capítulo um do livro.
O autor assegura que uma época bacteriológica chega a seu fim com a descoberta dos antibióticos. O século XX foi imunológico, surgiram várias técnicas imunológicas, erradicava-se tudo que era estranho, havia uma divisão entre amigo e inimigo, o que era de dentro e o que era de fora.
Isso coincide de certo modo com o final da sociedade disciplinar descrita por Foucault. Aqui o sujeito era submetido a técnicas disciplinares capazes de moldar o corpo e a subjetividade, é uma sociedade da negatividade, há proibições e deveres e espera-se que o indivíduo se comporte conforme o esperado, a forma de controle era externa.
O século XXI foge a essa negatividade, ao contrário, estabelece a positividade. Na sociedade do desempenho ou sociedade do cansaço não há proibições e deveres estabelecidos e rígidos, o sujeito não é passivo, mas sim operante, proativo, busca dar o máximo de si, mas não porque é obrigado, mas como forma de realização pessoal.
Não é para satisfazer ao “patrão” mas a si mesmo. Paradoxo da sociedade do cansaço: o sujeito é livre, não sofre controle externo, o desempenho depende, ninguém o obriga a fazê-lo, a escolha é pessoal, ele estabelece as metas, ele o obriga, ele explora a si mesmo.
Há uma coincidência de explorador e explorado O sujeito é empoderado, ele tem o poder, a sua capacidade produtiva é o que o define, é o que o faz ter destaque, é o que o realiza.
Nesta sociedade o poder saiu do poder disciplinar e se transformou em psicopolítica. Psicopolítica? Sim, é a atuação direta na mente do sujeito moldando a sua vontade.
Esse poder controla não por uma ação externa (imposição de deveres, proibições e controle externo), mas pela sedução e manipulação da vontade do sujeito, ele é livre. Ele pode produzir sem limites, é o seu próprio mandatário, a meta de desempenho é pessoal, portanto, poderá ter uma vida realizada, grande (não há limite nem coerção externa, é o sujeito quem define o seu limite e que faz o seu próprio controle).
Sísifo: o mito grego | Imagem: Reprodução Byung-Chul Han introduz nesse capítulo o conceito de “violência neuronal”, uma forma de violência do sistema contemporâneo.
Essa violência, contudo, não é externa – da sociedade disciplinar, é do sistema interno, ou seja, do próprio indivíduo. Essa violência não é imunológica porque não vem de fora, o inimigo não está do lado de fora, está do lado de dentro, é o próprio sujeito.
Esse é o paradoxo da sociedade do cansaço. O sujeito é livre, não sofre controle externo, ele pode ter o maior desempenho possível porque isso depende dele, do esforço dele, da sua competência, da sua dedicação, ninguém o obriga a fazê-lo, a escolha é pessoal, ele exige de si mesmo, ele estabelece as metas, ele o obriga, ele explora a si mesmo.
Há uma coincidência de explorador e explorado. “Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal.
Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout (SB) determinam a paisagem patológica do século XXI. Não são infecções, mas infartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade.
… A violência neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema.
Tanto a depressão quanto o TDAH ou a SB apontam para um excesso de positividade. A SB é uma queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual.
O hiper da hiperatividade não é uma categoria imunológica. Representa apenas uma massificação do positivo”, analisa Byung-Chul Han.
No capítulo dois, Byung-Chul Han faz um exame da transformação da sociedade disciplinar, conceito popularizado por Michel Foucault, para a sociedade de desempenho. Essa mudança acontece fundamentalmente na forma como o poder é exercido sobre o sujeito e de como ele se relaciona com esse poder.
O sujeito da sociedade de desempenho é mais produtivo que o da sociedade de obediência, porque tem poder sobre ele próprio, é livre. Ele é o definidor da sua capacidade produtiva.
Essa autoexploração conduz para um esgotamento inevitável. Daí a violência neuronal
Na sociedade disciplinar o sujeito era controlado, a coerção era externa, havia um sistema de vigilância e punição que, segundo Foucault, o objetivo era corrigir comportamentos que não atendia aos deveres e obrigações e produzir corpos dóceis e úteis. A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade.
Caracteriza-se pela negatividade da proibição. O verbo modal negativo que a domina é o não-ter-o-direito.
O grito, de Edvard Munch Na sociedade do desempenho, o paradigma é caracterizado pela positividade, pela liberdade individual e pela autoexploração, o sujeito precisa performar, se superar continuamente, afinal ele é empreendedor de si mesmo.
A autoexploração, paradoxalmente, é voluntária. O mesmo sujeito é senhor e servo de si mesmo, por isso impõe-se um ritmo de trabalho acelerado que o leva à exaustão.
O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade do desempenho. O sujeito da sociedade de desempenho é muito mais rápido e produtivo que o sujeito da sociedade de obediência, por uma razão lógica, ele tem poder sobre ele próprio, ele é livre, ele define a meta a ser alcançada, ele é o definidor da sua capacidade produtiva.
Byung-Chul Han adverte que essa autoexploração conduz para um esgotamento inevitável. Daí a violência neuronal.
“A sociedade do século XXI não é mais disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção.
São empresários de si mesmos. … O poder ilimitado é o verbo modal positivo da sociedade do desempenho.
… No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. … É o senhor e soberano de si mesmo.
Assim não está submisso a ninguém ou está submisso apenas a si mesmo. … Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal”, postula Byung-Chul Han.
Chaplin em Tempos Modernos | Foto: Reprodução No capítulo três, Byung-Chul Han explora o conceito de tédio profundo a fim de fazer uma contraposição à hiperatividade da contemporaneidade.
Há aqui um excesso de estímulos, informações e impulsos. Esse sujeito multitarefa é também um sujeito com atenção dispersa porque há muito que fazer, que estudar, que aprender, que atualizar, e ainda ter tempo de viver — ou sobreviver? Há pouca tolerância para o tédio.
O trabalhador da sociedade do desempenho é provido de um ego grandioso; é hiperativo e hiperneurótico. O foco é centrado no próprio ego, no eu que produz e que se autodefine.
Não há o outro para construir-se, não há alteridade, há o espelho, o reflexo de si “Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual”, segundo Han.
Esse tédio permite a criatividade, a contemplação, o confronto com o vazio existencial, a análise crítica, a reflexão, é um momento de afastamento ou de desligamento do processo de produção, é um momento de ‘espera’, de estar consigo mesmo ou de descanso. A sociedade de desempenho é veloz, hiperatenta, é multitarefa, é hiperestimulante, não há tempo para esse negócio de contemplação.
Na sociedade contemporânea é preciso estar ocupado, não ter tempo na agenda, há uma espécie de aversão ao silêncio e à inatividade. Não é permitido se desconectar, se desligar.
Esse sujeito contemporâneo é regido pelo lema de “nunca desliga”. O peso do pensamento, de Thomas Lerooy
Assim sendo, esse sujeito se distancia das realizações culturais, da arte, da filosofia, da estética. A arte é para consumo imediato, algo que não o confronte, que seja apenas um espelho do próprio sujeito.
Byung-Chul Han cita Nietzsche para ratificar o que está dizendo “por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie”, (Han, 2024, p. 35).
Na sociedade do cansaço não há espaço para a contemplação, para o repouso, para o vazio da existência. A vida activa é o tema do quarto capítulo, termo usado pela filósofa Hannah Arendt para analisar a dinâmica da ação na sociedade contemporânea.
Essa ideia é utilizada por Byung-Chul Han para criticar o desempenho exacerbado, a atividade incessante, a ação como um imperativo, afastando, desse modo, o sujeito da contemplação, da reflexão e do ligamento consigo mesmo. Essa vida activa promove o esvaziamento de si mesmo, há um empobrecimento da experiência humana.
A lógica da vida activa é definida pelo mercado e por uma ideologia de autoaperfeiçoamento. Autoaperfeiçoamento para o trabalho, para o desempenho e não para o ser humano, esse ser dotado de mente, de emoções, de sentimentos e de espiritualidade.
Byung-Chul Han ressalta que essa compulsão pela ação transforma o trabalho e as atividades do cotidiano em algo mecânico e sem sentido, daí decorre o sentimento de vazio e de cansaço. O trabalhador da sociedade do desempenho, esse ser de desempenho e de vida ativa, é provido de ego, um ego grandioso, um ego potente, um ego soberano, um ego capaz de quase dilacerar-se; é hiperativo e hiperneurótico.
O foco é centrado no próprio ego, no eu que produz e que se autodefine. Não há o outro para construir-se, não há alteridade, há o espelho, o reflexo de si mesmo.
Há outra forma de estar no mundo, segundo Han, seria com a afabilidade ou amabilidade. Seria com o foco na relação com o outro e não no próprio sujeito, valorizar o coletivo, os rituais, as celebrações, as festas, a contemplação, a meditação, o repouso, a criatividade
Byung-Chul Han reforça a ideia da contemplação como necessidade humana. Han não acena para uma nova sociedade estruturada com novos paradigmas capazes de transformar a sociedade do cansaço, não aponta novos rumos plausíveis, não oferece pistas reais para o sujeito se tornar um humano contemplativo, capaz de silenciar-se e repousar.
Ele fala da afabilidade como forma de relacionar-se com o outro, de enxergar o outro e ter tempo para a contemplação e o repouso. Como desaquecer essa sociedade contemporânea? Como estruturar uma nova base de produção? Como estabelecer um novo jeito de ser e ver o mundo? Há um caminho longo a ser percorrido para a construção de uma sociedade mais humana, humanizada e humanizante.
Escultura de Thomas Lerooy O assunto do quinto capítulo é a pedagogia do ver, inspirado em Nietzsche, no qual defende a importância da contemplação e da lentidão do processo necessário para a aprendizagem.
Aqui a crítica é para a rapidez e a eficiência da sociedade do cansaço, em contraposição a paciência e a atenção profunda. Considera que há uma decadência espiritual da humanidade.
O processo educativo precisa de educadores capazes de ensinar a ler, a pensar, a falar e a aprender. “A hiperatividade é paradoxalmente uma forma extremamente positiva de fazer, que não admite mais nenhuma ação livre.
Radica-se numa absolutização unilateral da potência positiva”, assevera Byung-Chul Han. O caso Bartleby (personagem literário de Hermann Melville), assunto do sexto capítulo, analisa um estudo de caso de uma sociedade adoecida.
Esse caso descreve o universo de trabalho desumano de Wall Street. Os auxiliares do escritório sofrem todos de distúrbios neuróticos, são superativos e superexcitados.
Bartleby, ao contrário de todos, está sempre calado, petrificado. Ele representa, ainda, a sociedade de obediência.
Bartleby sucumbe, adoece com a positividade e com tantas possibilidades. Ele não suporta o peso do imperativo reinante, não consegue abandonar o próprio eu — esgota-se.
O esgotamento conduz para a morte. A sociedade que empodera, que suscita o desejo, que acorda os sonhos, que gera a pulsão de vida, também promove na sua dinâmica, a pulsão de morte.
Essa dança, esse equilíbrio entre as pulsões, na teoria de Freud, ficam prejudicados vez que são tantos os estímulos que chegam até a mente, é tanta atividade, é tanta energia, é tanto desejo que acontece um superaquecimento, uma potência de agir que explode, um eu que dilacera-se, que esgota, que adoece, que deprime, que é comparado, que se torna pouco produtivo, que fracassa e morre.
Pintura de Edward Hopper A sociedade do cansaço é por fim o último capítulo do livro.
Ele a caracteriza como a sociedade do doping, é uma espécie de desempenho sem desempenho, ou seja, doping cerebral. “Como contraponto, a sociedade do desempenho e a sociedade ativa geram um cansaço e esgotamento excessivos.
Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade, Não são reações imunológicas que pressuporiam uma negatividade do outro imunológico. Ao contrário, são causadas por um excesso de positividade.
O excesso de elevação do desempenho leva a um infarto da alma. O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando.
… É um “cansaço que confia no mundo”, enquanto o eu, o cansaço-eu enquanto cansaço solitário, é um cansaço sem mundo, destruidor de mundo.” Falta relação com o outro, e é na relação com o outro que o sujeito vive experiências.
É na experiência que há o encontro com o outro. Esses encontros são transformadores, modificam o sujeito.
As vivências prologam o eu no outro, no mundo. A sociedade do desempenho promove o eu, o ego, o indivíduo, o solitário, o ensimesmado, o narcisista.
Na sociedade do desempenho ninguém alcança a meta porque surge uma nova meta imediatamente, é um jogo sem fim. Uma fase abre outra, que abre outra e assim vai infinitamente.
Não tem ganhador, tem jogo. O narcisista começa a ter perturbações psíquicas porque não conclui nunca o jogo.
A coerção de desempenho força-o a cada vez produzir mais. Assim, jamais alcança um ponto de repouso, de gratificação.
Vive com sentimento de carência e culpa. “E visto que, em última instância, concorre consigo mesmo, procura superar a si mesmo até sucumbir.
Sofre um colapso psíquico, que se chama burnout (esgotamento). O sujeito do desempenho se realiza na morte.
Realizar-se e autodestruir-se, aqui, coincidem.” A busca pela realização dos desejos é a pulsão de vida, é o realizar-se; a autodestruição é a pulsão de morte. Na teoria de Freud, essas forças precisam de equilíbrio para uma vida saudável, na sociedade do desempenho elas não se equilibram, elas coincidem; ou seja, o que realiza é também o que promove o esgotamento, a morte; se não a morte efetiva do corpo, ao menos a morte da alma.
O consumo exagerado da informação promove uma desconexão com a realidade, com o outro, um egocentrismo, uma vida solitária, triste, ensimesmada e doente. É o cansaço que esgota, que exaure, que mata a alma.
Existem muitos sujeitos da sociedade do desempenho vivos, mas mortos, ou vivo-mortos, o coração trabalha, mas a mente e a alma já desiludiram e estão mortos ou fingindo que morreram. A imaginação, a empatia, a racionalidade discursiva e até a democracia ficam prejudicadas, vez que o sujeito vive em bolha, as redes ditam a vida social.
A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são livres, afirma Han. Nessa vida o sujeito suprime a dor, a tristeza, a frustração, o fracasso.
Ele precisa parecer estar feliz e bem-sucedido. Ele precisa sobreviver e não bem-viver.
O sujeito precisa ser ocupado, ter dinheiro, ou seja, ser eficiente e alcançar a meta, estar nas redes, aparecer sempre jovem, bonito, magro e saudável. A sociedade do cansaço, para Byung-Chul Han, é caracterizada por uma existência econômica, isto equivale a dizer está centrada na autoafirmação e na autopreservação do sujeito.
A máxima aqui é “mais capital equivale a menos morte”. “Na transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho o superego acaba se positivando no eu-ideal.
O superego é repressivo. Pronuncia acima de tudo proibições. Com o “traço duro e cruel do dever de ordem”, com o “caráter da restrição árdua, da proibição cruenta”, ele impera sobre o eu.
Contrariamente ao superego repressivo, o eu-ideal é sedutor. … A negatividade do superego restringe a liberdade do eu.
O projetar-se do eu-ideal, ao contrário, é explicado como um ato de liberdade. Se o eu se enreda num eu-ideal inalcançável, vê-se literalmente fatigado ao extremo por ele.” Como sair da sedução do eu-ideal? Como equilibrar as forças de pulsão de vida e pulsão de morte? Como ter uma vida psiquicamente saudável? Como não sofrer um colapso psíquico? Como preservar a vida e a alma?
Vimos que no livro “Sociedade do cansaço”, Byung-Chul Han faz uma crítica severa à sociedade contemporânea. É uma reflexão forte e desafiadora, é preciso coragem para lê-lo, deixar-se levar pelo ensaio, sair dele, refletir sobre cada linha que se leu e começar a rascunhar alguma possibilidade alternativa ou concluir-se que essa é a sociedade do momento, que essa é a doença da vez e resignar-se, ou acomodar-se, ou quem sabe … morrer.
Há outra forma de estar no mundo, segundo Byung-Chul Han, seria com a afabilidade ou amabilidade. Seria com o foco na relação com o outro e não no próprio sujeito, valorizar o coletivo, os rituais, as celebrações, as festas, a contemplação, a meditação, o repouso, a criatividade.
O outro é fundamental para a constituição do eu. O que importa, nessa perspectiva do autor, é o ser e não o fazer.
É o humano sendo verdadeiramente humano. É o poder da presença, da vida bem vivida, do sujeito comum, do ser efetivamente livre.
É estar conectado com o outro, com o universo e consigo mesmo. Ao leitor(a), que fez esse passeio comigo, agradeço a companhia e a viagem.
Espero ter sido prazeroso, mesmo que angustiante, afinal prazer e angústia fazem parte da vida. E por falar em vida, qual é a vida que queremos mesmo?
Elìna Borges é mestre em Engenharia da Produção, especialista em Gestão Estratégica de Marketing, administradora. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), psicóloga.
Psicanalista. Palestrante e escritora.
Integrante da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás e da Academia Goianiense de Letras. É colaboradora do Jornal Opção.
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