247 – Em uma análise contundente transmitida pela TV 247 ao jornalista Leonardo Attuch, o analista geopolítico internacional Pepe Escobar dissecou o significado histórico e os desdobramentos globais da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Escobar, o Brasil operou um feito de repercussão planetária ao derrotar a “mãe de todas as guerras híbridas” — um ciclo prolongado de ingerência externa que incluiu o golpe contra Dilma Rousseff, a prisão arbitrária de Lula e as recentes investidas do capital financeiro internacional associado ao tecnofeudalismo.
Contudo, o recado central do analista é de alerta absoluto: a vitória eleitoral encerrou apenas uma batalha, e o novo mandato do líder brasileiro transcorrerá sob o cerco implacável dos centros de poder hegemônicos. A virada histórica: o povo nas ruas e a infantaria digital
Ao avaliar a arrancada do segundo turno, Escobar destacou que a reversão do quadro político se deu pela convergência espontânea e orgânica entre dois movimentos que surpreenderam as agências internacionais de monitoramento e os algoritmos das grandes corporações tecnológicas: a ocupação vigorosa das ruas pela sociedade civil e a criação de uma autêntica “guerrilha vietcongue digital”.
“Houve um encontro extraordinário entre o povo nas ruas — desde a juventude universitária e secundarista até senhoras de 90 anos — e uma infantaria digital voluntária que subverteu os algoritmos do tecnofeudalismo com as próprias armas do sistema. Pela primeira vez no mundo contemporâneo, a base social conseguiu virar a narrativa contra os donos da plataforma.”
Essa articulação em rede, que superou previsões de institutos e corporações ligadas à inteligência de dados estadunidense, demonstrou que a consciência popular brasileira soube ler o abismo de desmantelamento nacional e submissão colonial que estava colocado como alternativa. O cerco do Império e as trincheiras domésticas
Apesar da euforia do resultado, Pepe Escobar sublinhou que os artífices da desestabilização internacional e seus sócios internos não aceitarão o revés de braços cruzados. Segundo o analista, o Brasil representava a peça mais cobiçada para compensar o desgaste estratégico e econômico que o Ocidente enfrenta na Eurásia e no Oeste da Ásia.
Escobar alertou que os aparatos de coerção econômica, chantagem cambial e sabotagem política já estão em pleno movimento: O complexo do tecnofeudalismo: A pressão das grandes corporações globais de vigilância, tecnologia e dados, articuladas às franjas do Estado profundo em Washington, continuará operando para minar as iniciativas de integração soberana.
A correlação de forças interna: A articulação entre a Faria Lima, setores rentistas, as elites compradoras e a grande mídia corporativa manterá o governo sob vigilância hostil diária, criando sobressaltos artificiais de mercado e travando pautas no Parlamento. A ofensiva financeira: As movimentações de capitais especulativos e ataques à estabilidade cambial surgem como a primeira linha de atrito para asfixiar as políticas de reconstrução do poder de compra e redistribuição de renda.
Mao Zedong e a urgência da mobilização permanente Para enfrentar um horizonte de constante turbulência política, Escobar recorreu a um dos pensamentos mais célebres de Mao Zedong para sintetizar a postura que a esquerda, a militância e o governo devem adotar a partir de agora:
“Lembrem-se de Mao Zedong: a revolução não é um jantar de gala; ela não se faz com elegância, cortesia ou gentileza de salão. A luta se dá nas ruas e no terreno concreto da disputa diária.
Ganhar a eleição não significa cruzar os braços e esperar a posse em janeiro. É preciso manter viva uma máquina viva de resistência, mobilização e tecnoguerrilha comunicacional.”
Para o analista, qualquer tentativa de repousar sobre os louros da vitória ou confiar exclusivamente nos trâmites institucionais de gabinete fragilizará o Executivo diante da contraofensiva conservadora. O respaldo popular ativo — capaz de dialogar diretamente com as massas e neutralizar as investidas midiáticas — é a única blindagem real para assegurar a autonomia das decisões de Estado.
O Brasil como âncora do Sul Global e da multipolaridade Na dimensão geopolítica, Pepe Escobar reforçou que a consolidação da liderança de Lula é recebida com enorme alívio pelos países que constroem a nova arquitetura multilateral do planeta.
Com o desgaste crônico da hegemonia transatlântica e a perda de tração dos projetos de coerção unilateral, o protagonismo do Brasil nos BRICS e sua capacidade diplomática tornam-se indispensáveis para equilibrar as relações globais. Para o jornalista, ao barrar a captura definitiva de suas riquezas estratégicas e instituições públicas, o Brasil não apenas preservou o seu destino democrático, mas devolveu fôlego ao Sul Global em um dos momentos mais decisivos da história contemporânea.
A batalha que se inicia com o novo governo, portanto, transcende fronteiras: é a afirmação da soberania de um país que se recusa a ser quintal de qualquer império.
Brasil 247