Túneis sem registros oficiais, relatos de aparições e histórias de vozes ouvidas em prédios antigos alimentam o imaginário sobrenatural de Goiânia. Uma pesquisa de mestrado realizada na Universidade Estadual de Goiás (UEG), em 2024, reúne lendas urbanas que atravessam gerações e transformam espaços da capital em cenários de histórias de terror.
Luiz Felipe Pereira | Foto: Arquivo Luiz Felipe Pereira realizou a pesquisa sob orientação do professor Thiago Fernando Sant’Anna.
No trabalho, intitulado “Pelas ruas de Goiânia: evocando lendas urbanas como patrimônio imaterial”, ele lista 15 lugares que contêm histórias de terror na capital e incentiva o turismo macabro. O pesquisador compartilha as características que percebeu nas histórias.
“Então, muitos lugares são assombrados por fantasmas. Isso é uma coisa que eu acho muito curioso aqui em Goiânia, porque, como comentaram, a gente vê Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, que são cidades muito grandes e muito antigas, e elas nem têm tantas histórias de fantasma quanto a gente”, afirma.
Outra característica é que as histórias de terror daqui não possuem antagonistas como bruxas e lobisomens. São, geralmente, espíritos em sofrimento.
“Essa característica de não ser um vilão. É só uma alma que tá ali presa na casa, presa na região.
O próprio do cemitério mesmo, que são pessoas que pedem carona. São almas que pedem carona.
Para onde essas almas querem ir?”, declara. Teatro Goiânia
Por vezes, essas histórias de um mundo acima das nossas mentes passam, justamente, por baixo dos nossos pés. Exemplo disso são as histórias que acontecem nos misteriosos túneis do Teatro Goiânia.
Ninguém sabe dizer quando eles foram construídos nem por quê. O fato é que eles lá estão.
Goiânia fora construída durante o período da Segunda Guerra. O medo de uma invasão estrangeira ou de uma revolta interna era real, e uma das possibilidades apresentadas para a construção dos túneis é que eles interligariam os principais pontos da cidade e serviriam como rota de fuga.
Letícia Oliveira, gerente dos espaços culturais da Secretaria de Cultura, conta ao Jornal Opção que os túneis não estão na planta do Teatro e que não há nenhum registro deles em documentos oficiais da época, ou seja, foram construídos de forma quase secreta e sem registro. Ela também compartilha uma história que é contada no Teatro há anos.
“Dizem que tinha um trabalhador que ficava aqui e dormia aqui, perto… Debaixo do… Do palco e um dia chegaram e ele estava morto na cadeira.” Diante da curiosidade com os túneis, o Jornal Opção visitou o Teatro e foi até onde a coragem permitiu, para dentro das enigmáticas construções.
A princípio, há um salão com três entradas de túneis diferentes. Ao entrar em um deles, o impacto inicial é causado pelo cheiro e pela presença de baratas.
1/1 Tunel do Teatro Goiânia | Foto: Oyagy Vieira/ Jornal Opção
Um fedor intenso de mofo e poeira se junta ao abafamento do ambiente subterrâneo e, à medida que se avança para dentro, o calor e o cheiro ficam mais intensos, inversamente proporcionais ao espaço, que se estreita a cada segundo. Ao fim do túnel, há ainda mais um espaço, que dizem ir até o Palácio das Esmeraldas.
Entretanto, só entrando para descobrir. Técnico Edioni | Foto: Oyagy Vieira
Para entrar, é preciso assinar um termo de responsabilidade, pois, além de a pessoa correr o risco de passar mal, há ratos, baratas e muita, muita sujeira. Diante disso, a reportagem parou por ali e retornou à superfície.
Ao sair, encontramos Edioni Borges, técnico de maquinária que trabalha no Teatro desde os 14 anos. Ele diz que não conhece essa história do homem morto nos túneis, mas compartilha relatos ainda mais estarrecedores.
“Eu mesmo, uma vez, eu estava no balé, descendo e subindo o cenário. Quando eu vi uma pessoa do outro lado.
Ela estava assim, tinha três vãos lá, e ela estava olhando para mim, só que eu não vi o rosto dela. Eu falei: ‘Ó, tem uma pessoa aqui assim.
Vai lá e tira’. Aí, quando eu cheguei perto, ela entrou para dentro da parede assim.
Não é de brincadeira.” Edioni também comenta que, às vezes, escuta o seu nome ser chamado, assim como outros funcionários, principalmente os que trabalham no horário noturno.
Além disso, ele conta que alguns lugares por onde passa no Teatro lhe dão arrepios, mas que já se acostumou. O Jornal Opção também foi ao Centro Cultural Martim Cererê, em Goiânia, para conhecer as histórias que alimentam a fama de lugar mal-assombrado.
Inaugurado em 1988, o espaço cultural reúne relatos de ruídos estranhos, portas que batem sozinhas e presenças percebidas durante a noite. Coordenador do local desde a inauguração, Marco Antonini acompanha há décadas as histórias que circulam entre frequentadores e trabalhadores.
Para ele, essas narrativas fazem parte do imaginário popular e ajudam a despertar a curiosidade sobre o espaço. “A gente diz hoje que são lendas urbanas”, afirma.
Marco Antonini | Foto: Oyagy Vieira Uma das histórias mais conhecidas relaciona o Martim Cererê ao período da ditadura militar.
Segundo a lenda, o local teria sido utilizado para sessões de tortura. Antonini, entretanto, afirma não conhecer registros que comprovem essa versão.
Ele conta que conversou sobre o assunto com Mauro Borges, ex-governador de Goiás e integrante de uma família com a qual mantém amizade. Segundo o coordenador, Mauro negava ter conhecimento de episódios de tortura no espaço.
Antonini relata que ouviu outra explicação para a origem da história. De acordo com ele, Mauro Borges teria contado que a polícia levava ao local pessoas flagradas furtando para aplicar castigos físicos.
“O que acontecia lá é que, vez ou outra, quando alguém era pego furtando alguma coisa, aí a polícia trazia para cá para meio que dar uns cascudos”, recorda Antonini, reproduzindo o relato que ouviu. O coordenador ressalta, porém, que não dispõe de provas para confirmar essa versão nem para descartá-la.
“Nem que sim, nem que não”, resume. A fama de lugar assombrado, por sua vez, não se limita às histórias sobre o passado.
Antonini explica que a rotina noturna do centro cultural, especialmente durante montagens de espetáculos, favorece o surgimento de relatos sobre acontecimentos estranhos. Ele próprio já passou longos períodos no local, inclusive 27 dias, e afirma ter ouvido barulhos que não conseguiu identificar.
Ainda assim, nunca presenciou uma aparição. “Fantasma mesmo, do que é bom, só o meu mesmo”, brinca, referindo-se à própria permanência no espaço.
Para Antonini, a percepção de sons e movimentos em ambientes silenciosos ajuda a manter vivas essas narrativas. Ele também lembra que histórias semelhantes são comuns em teatros e outros espaços culturais, onde ruídos e sensações podem ganhar interpretações sobrenaturais.
Em vez de tentar acabar com os relatos, o coordenador prefere preservar o mistério. “Não cabe a mim julgar ou tirar essas lendas porque elas são bacanas, as pessoas gostam e se interessam”, afirma.
1/4 Martim Cererê antigamente.
Foto: Acervo Pessoal Lista dos demais lugares
Além do Martim Cererê e do Teatro Goiânia, outros pontos da capital alimentam o imaginário popular com histórias de fantasmas, aparições e acontecimentos inexplicáveis. Os relatos vão desde cemitérios, instituições de ensino e prédios públicos até casas associadas a mortes trágicas e supostas manifestações sobrenaturais.
Confira a lista de outros 13 lugares e suas respectivas histórias: Cemitério Santana: motoristas relatam, segundo a lenda, a aparição de um homem, de uma mulher ou de uma criança na entrada do cemitério.
A figura pediria carona durante a noite e desapareceria depois de ser vista. Parthenon Center: o edifício é associado a relatos de vozes e ruídos estranhos atribuídos a pessoas que teriam morrido no local.
Uma das versões conta que uma voz pediria água insistentemente. Instituto de Educação de Goiás (IEG): histórias populares mencionam os fantasmas de três irmãs que teriam morrido no local e de uma freira que, segundo a narrativa, teria morrido na piscina da instituição.
Massacre da Rua 74: a lenda está relacionada a um crime ocorrido em 1957, quando uma família foi assassinada em Goiânia. Segundo os relatos, vizinhos ainda ouviriam vozes durante a noite na região onde ocorreu a chacina.
Casa na Rua 228: o imóvel é associado a histórias de objetos arremessados, murmúrios e sussurros inexplicáveis. A narrativa popular afirma que as ocorrências teriam dificultado a permanência de moradores na residência.
Colégio Santa Clara: relatos atribuem à torre do sino da capela uma fama de assombração. Também circulam histórias sobre salas consideradas misteriosas, um quadro que aparentemente pisca para os alunos e acontecimentos inexplicáveis relacionados à piscina.
Hospital Areião: a principal lenda envolve portas que se abririam e se fechariam sozinhas, sem que houvesse alguém por perto. Os episódios são associados à fama de hospital mal-assombrado.
Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (UFG): a lenda gira em torno do padre Luís Palacín, historiador e professor que morreu em 1998. Segundo a história, sua presença ainda seria percebida nos corredores e nas salas de aula.
Tribunal de Justiça de Goiás: relatos populares mencionam elevadores que se movimentariam sozinhos, passos ouvidos em escadas vazias e aparições nos corredores do prédio. Redondo da Araguaia: o edifício inacabado, localizado na região central de Goiânia, é associado a histórias de movimentações estranhas, barulhos noturnos e supostos símbolos de rituais em seu interior.
Antiga fábrica de leite Gogó: a lenda mais conhecida fala de uma mulher de branco que teria morrido em um acidente de carro nas proximidades. Motoristas afirmariam avistar a figura à beira da estrada durante a noite, antes de ela desaparecer.
Casa na Rua 57: o imóvel é associado à lenda do menino Pitibá, uma suposta entidade infantil que apareceria na residência e provocaria acontecimentos inexplicáveis, como a movimentação de objetos. Colégio Gonçalves Ledo: a proximidade com o Cemitério Jardim das Palmeiras alimenta uma história sobre alunos que teriam pulado o muro do colégio para matar aula e voltado traumatizados, sem contar o que teriam visto no cemitério.
Jornal Opção