247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem pela frente o desafio de retomar negociações comerciais com os Estados Unidos, preservar a relação com a Argentina e ampliar mercados na Ásia em seu quarto mandato. A estratégia combina diálogo com governos de diferentes orientações políticas e fortalecimento da cooperação entre países sul-americanos no combate ao crime organizado, destaca reportagem do g1.
A relação com o presidente americano, Donald Trump, concentra parte dos desafios imediatos. O governo brasileiro já sinalizou interesse em reabrir conversas sobre tarifas e barreiras comerciais, apesar das divergências acumuladas ao longo do terceiro mandato de Lula.
A agenda internacional dos próximos meses poderá oferecer oportunidades para contatos entre os dois presidentes. Estão previstos encontros com a participação de ambos na cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), nas Filipinas, em novembro, e no G20, na Flórida, em dezembro.
Essas reuniões poderão abrir espaço para conversas sobre os pontos de atrito e os interesses comuns entre Brasília e Washington. Antes disso, as eleições legislativas americanas de 3 de novembro ajudarão a definir o ambiente político com o qual o Brasil terá de negociar.
Uma eventual maioria democrata no Congresso alteraria a correlação de forças em Washington, mas Trump permanecerá no comando da Casa Branca. Um novo elemento nessa relação é a decisão do governo americano, anunciada na quinta-feira (29), de conceder visto humanitário ao senador Flávio Bolsonaro (PL).
Ao mesmo tempo, Trump afirmou que não pretende se envolver nas alegações sem provas apresentadas pelo parlamentar sobre a eleição brasileira. Apesar dos atritos, o governo Lula pretende manter os acordos de cooperação com os Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado, sobretudo ao tráfico internacional de drogas.
A intenção é preservar iniciativas de interesse comum mesmo quando houver discordâncias políticas. Na Argentina, a continuidade das relações comerciais e da cooperação bilateral terá destaque, embora o diálogo entre Lula e o presidente Javier Milei permaneça comprometido.
A avaliação do governo brasileiro é que os vínculos entre os dois países precisam ser preservados, inclusive no âmbito do Mercosul. Milei apoiou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e esteve no Brasil para participar da convenção que oficializou o senador como candidato.
O posicionamento se somou aos ataques públicos do presidente argentino a Lula. A passagem de Flávio pela Argentina antes de chegar aos Estados Unidos acrescentou tensão ao cenário.
Deputados argentinos acusaram Milei de facilitar a fuga do senador, cobraram esclarecimentos de integrantes do governo e pediram o reconhecimento formal da vitória de Lula. A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que Flávio e os três familiares que o acompanhavam apresentaram documentos válidos e não tinham impedimento legal para ingressar no país.
Já nos Estados Unidos, o senador divulgou uma carta em que agradeceu a Milei e a Trump. Na primeira publicação, apresentou-se como “presidente eleito”.
Depois, apagou o texto e substituiu a expressão por “líder do Brasil”. Mesmo sem um embaixador brasileiro em Buenos Aires, os canais diplomáticos continuam funcionando, assim como o comércio e as iniciativas de cooperação.
Para interlocutores de Lula, porém, a retomada das conversas entre os presidentes depende de Milei abandonar os ataques pessoais. A busca por relações pragmáticas também orienta a atuação brasileira nos demais países sul-americanos.
Segundo o relato do g1, a diplomacia considera que há espaço para ampliar parcerias, apesar das diferenças ideológicas entre os governos da região. Na avaliação de interlocutores do governo, países como Peru, Bolívia e Chile mantêm interesse em cooperar com o Brasil mesmo quando se alinham politicamente a Trump.
Esses governos também teriam dúvidas sobre os benefícios concretos que Washington pode oferecer à região. O combate ao narcotráfico aparece como uma das principais áreas de convergência.
O governo brasileiro pretende ampliar a cooperação a partir da capacidade de inteligência e de atuação operacional da Polícia Federal, com maior articulação entre as forças de segurança. Entre os instrumentos mencionados estão a presença de um delegado brasileiro na Interpol e os centros de inteligência e cooperação na Amazônia e no Rio de Janeiro.
Também está em avaliação uma estrutura em Buenos Aires que reuniria delegados de países da região para enfrentar organizações criminosas transnacionais. Na frente comercial, o quarto mandato deverá dar continuidade à aproximação com a Ásia.
O objetivo é conquistar compradores para produtos brasileiros e diversificar as parcerias, ampliando as alternativas do país diante das grandes potências. A China continuará entre as prioridades da política externa.
A busca por novos mercados asiáticos, conforme a avaliação do governo, deverá ocorrer com a expansão dos vínculos com outros países da região, preservando a parceria com os chineses. Essa agenda começará a ser trabalhada antes da posse do próximo mandato.
Além da Asean e do G20, o Brasil participará da Cúpula do Mercosul entre novembro e dezembro. Em novembro, o país também deixará a presidência da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, assumida após sediar o encontro em Belém.
Brasil 247