Na entrevista a Glenn Greenwald e Isabella Menon publicada pela Folha, Flávio Bolsonaro admitiu não ter provas de fraude, mas repetiu sua versão do bordão preferido dos bolsonaristas mais obtusos, o de que a vitória de Lula teria sido matematicamente impossível. Segundo ele, não haveria explicação matemática para o crescimento de mais de 10 milhões de votos do adversário no segundo turno.
Não é isso que mostra a análise estatística dos boletins de urna feita por dois pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os professores Dalson Britto Figueiredo Filho e Ernani Rodrigues de Carvalho Neto, ambos do Departamento de Ciência Política da UFPE, aplicaram aos resultados de 2026 um teste que já expôs a fabricação de números nas eleições russas.
O artigo, intitulado “Electoral Fraud and the Brazilian Missing Peaks”, foi publicado nesta sexta-feira (6) em inglês pelo King’s College London e republicado em português pelo DesvenDados. Como funciona o teste
O método foi criado por Dmitry Kobak, Sergey Shpilkin e Maxim Pshenichnikov em 2016. Ele não depende de informantes nem de documentos vazados.
Basta ter os resultados oficiais de cada seção eleitoral, fazer algumas contas e levar em conta um hábito humano conhecido. Quando alguém inventa números, tende a escolher valores redondos.
Os autores dão um exemplo. Um chefe de seção que precisa entregar comparecimento alto pode decidir registrar 85%.
Numa seção isolada, ninguém perceberia. Se centenas de seções fizerem o mesmo, mirando 85%, 90% ou 95%, o gráfico com todos os resultados do país passa a mostrar picos estreitos exatamente nos percentuais inteiros.
Foi esse padrão que apareceu repetidamente na Rússia e não apareceu em países como Alemanha, Polônia e Espanha. O que os dados brasileiros mostram
Os pesquisadores analisaram os boletins de todas as seções do país, disponíveis no portal de dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Só no segundo turno de 2026 foram 498.950 seções.
Examinaram o comparecimento e a votação do candidato que liderava em cada turno, Flávio no primeiro e Lula no segundo, e repetiram o exercício para os seis turnos presidenciais de 2018, 2022 e 2026. Os picos não apareceram.
As curvas têm as irregularidades normais de meio milhão de contagens independentes, espalhadas por toda a distribuição, sem concentração nos números inteiros. Para não depender só da inspeção visual, os autores simularam cada eleição mil vezes, sorteando os votos de cada seção ao acaso, e compararam quantas seções com resultados redondos seriam esperadas com quantas de fato existiram.
Essa diferença é a chamada anomalia dos inteiros. Na Rússia, esse excesso girou em torno de mil seções desde 2004, chegou a cerca de duas mil em 2008 e 2018 e alcançou 3.670 em 2020, sempre muito acima do que o acaso explicaria.
No Brasil, o maior valor encontrado foi de 171 seções, no primeiro turno de 2026, bem dentro da faixa que o acaso pode produzir, que vai até 795. No primeiro turno de 2022 o resultado foi até negativo, com 46 seções redondas a menos do que o esperado.
Testes alternativos, acompanhando Lula no primeiro turno ou calculando os percentuais sobre todos os votos depositados, também ficaram dentro da faixa normal. O limite do estudo
Os próprios autores deixam claro o alcance do resultado. No Brasil, as urnas eletrônicas produzem contagens de votos, que são transmitidas como contagens, e nenhum mesário precisa informar percentuais.
O tipo de manipulação que o teste procura praticamente não teria como ocorrer aqui. “Passar no teste é, portanto, compatível com uma eleição limpa, mas também com uma eleição fraudulenta na qual a manipulação nunca envolveu números redondos”, escrevem.
Ainda assim, concluem que vale saber o que o teste descarta. Se a apuração de 2026 tivesse sido manipulada como as russas, a evidência apareceria num gráfico simples.
“Procuramos por essa evidência em seis turnos eleitorais e não a encontramos.” O artigo é o primeiro de uma série que vai usar métodos de perícia eleitoral para avaliar a integridade e a consistência dos dados da eleição presidencial de 2026, dentro do Projeto Urna Transparente, da Transparência Eleitoral.
Leia a notícia da UFPE sobre o estudo e o artigo original no King’s College London, em inglês.
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