Contextualizando: Nesta semana, repercutiram nas redes sociais vídeos de uma mulher loira ao lado do senador e candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). A mulher, identificada como Julia Berlli Cortez, virou assunto de um vídeo do influenciador Guga Figueiredo, conhecido como o “Xerife da Internet”.
Em seu Instagram, Figueiredo expôs que a loira seria, na verdade, um bot deepfake criado por inteligência artificial (IA). Diversas reportagens jornalísticas confirmaram a denúncia de Figueiredo (1, 2, 3) e, mais tarde, um conteúdo da BBC identificou mais de 30 perfis similares ao de Julia Cortez.
A dinâmica é parecida: os perfis usam um deepfake de inteligência artificial que manifesta apoio político a algum candidato nas eleições presidenciais e chamam os espectadores para links de sites onde vendem conteúdo adulto. No caso de Julia Berlli Cortez, apelidada de “Bolsonaro Bombshell”, os vídeos que mais viralizaram foram montagens da mulher em atos políticos de Flávio Bolsonaro que ocorreram nos dias 17 e 18 de outubro na Bahia, Espírito Santo e São Paulo.
Nesses materiais, a personagem aparece ocupando o espaço que, nos vídeos originais, era do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Um dos vídeos que viralizou com essa configuração foi o da passagem de Flávio Bolsonaro e sua comitiva pela Praia de Camburi, em Vitória, no dia 17.
Due to a lack of female supporters, Brazilian presidential candidate Flávio Bolsonaro has resorted to using AI to transform middle-aged men into attractive young women. This AI-generated creation has been dubbed the "Bolsonaro Bombshell."
Ao submeter os vídeos ao Hive Detector, ferramenta que mede a presença de inteligência artificial nos conteúdos, o Comprova confirmou que o vídeo em que Julia Cortez aparece tem um índice consideravelmente maior de alteração por IA (14,5%) do que o vídeo original que circulou nas redes sociais.
Também chama a atenção o fato de ela aparecer com a mesma roupa nos posts. Os vídeos publicados no perfil do Instagram de Julia Cortez aparecem com intervalos de aproximadamente duas horas entre as postagens.
Em determinados momentos, os conteúdos relacionados à participação de Julia em protestos bolsonaristas são arquivados e, posteriormente, voltam a ser exibidos no perfil. Esse comportamento pode configurar uma técnica de camuflagem algorítmica, conforme estudos sobre a dinâmica da plataforma (1).
Perfis como o de Julia costumam ocultar posts temporariamente para “limpar” seu histórico e restaurar sua reputação perante os classificadores da Meta, mitigando o risco de sofrerem shadowbanning. No dia 20 de outubro, foi identificado um segundo perfil com a mesma foto e descrição biográfica, diferenciado apenas pelo nome de usuário.
Já no Google, o nome de Julia Berlli Cortez leva para sites de conteúdo adulto como a plataforma Privacy, um serviço brasileiro de venda de assinaturas de conteúdo exclusivo, semelhante ao OnlyFans. Os vídeos na página de Julia Cortez chegam a 40 mil visualizações.
Os outros links conduzem para um site de vídeos pornográficos. Ambas as páginas possuem sequestro de histórico, uma técnica que redireciona os usuários para páginas de sites indesejados ou não permitem que ele volte para a aba original.
Os vídeos de Julia – sejam os de teor pornográfico ou os de teor político – também são replicados para outras redes sociais como o TikTok, X e Kwai. Considerando os pacotes semanais, que custam R$ 14,90 e R$ 39,90, o faturamento bruto potencial da venda desses conteúdos poderiam variar de R$ 9,8 milhões a R$ 26,2 milhões por mês, caso todas as inscrições correspondessem a uma única modalidade e fossem mantidas durante as quatro semanas.
Os valores são estimativas e não consideram taxas, cancelamentos ou a distribuição dos assinantes entre os planos. A decodificação da chave Pix de cobrança (formato QR Code dinâmico/EMV) revelou que a conta recebedora dos valores pertence à empresa Sync Tecnologia Ltda., sediada em Brasília, com infraestrutura processada pela instituição Bass Pago.
A empresa faz parte do mesmo grupo econômico da Sync Pay Ltda., fintech especializada em soluções de pagamentos e integrações com agentes de inteligência artificial. Houve tentativa de contato com a equipe de Flávio Bolsonaro para se posicionar em relação à manipulação digital das imagens em eventos de sua campanha, mas o candidato não encaminhou resposta até o fechamento desta verificação.
A estratégia observada no caso da “loirona do Flávio” combina a polarização política com a venda de conteúdo adulto. Ao inserir uma personagem hiper-realista em registros verídicos de comícios e caminhadas de figuras públicas de destaque, os criadores geram curiosidade e engajamento orgânico nas redes sociais.
Fontes consultadas: Para verificar o conteúdo, a reportagem comparou os vídeos virais com as transmissões e publicações oficiais da agenda de Flávio Bolsonaro, identificando que as imagens originais traziam o deputado Nikolas Ferreira. As mídias foram submetidas ao Hive AI Detector, ferramenta online gratuita que analisa probabilidades de manipulação sintética e geração por inteligência artificial em fotos e vídeos.
As páginas digitais e publicações foram preservadas com os serviços de arquivamento e captura de telas. Também foram consultados os Padrões da Comunidade da Meta sobre solicitação sexual e rotulagem de IA, além de contato direto com a empresa Sync Tecnologia e a assessoria de imprensa do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro.
Para se aprofundar mais: Além das reportagens já citadas nesta checagem, os jornais O Globo, UOL e a agência Lupa realizaram matérias sobre o caso da “loirona do Flávio”. O Comprova também já fez outros textos verificando a atuação da Meta AI nas eleições de 2026, imagens falsas envolvendo o candidato Flávio Bolsonaro, conteúdos desinformativos envolvendo IA e a imagem do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Investigado por: Correio Braziliense, GZH, Correio de Carajás e Programa de Residência do Projeto Comprova Texto verificado por: A Gazeta, Correio do Estado, Estadão e Programa de Residência do Projeto Comprova
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