Lincoln Secco: “lulismo já é uma cultura política” e deve sobreviver “ao fim biológico” do presidente

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O avanço do lulismo no cenário nacional já ultrapassa os limites de uma simples corrente partidária temporária para se consolidar como uma verdadeira cultura política capaz de transcender a própria trajetória do presidente Lula (PT). A análise, feita em entrevista ao jornal O Globo, é do historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP) Lincoln Secco, autor do livro História do PT, que aponta um distanciamento entre a direção da legenda e os anseios históricos de suas bases sociais.

Para o especialista, essa desconexão entre a cúpula petista e o movimento dos trabalhadores ficou nítida na ascensão de mobilizações que nasceram fora das estruturas tradicionais do partido. É o caso da luta pelo fim da escala 6×1 de trabalho e da organização das redes digitais durante o período eleitoral, conduzidas por figuras externas às instâncias oficiais da agremiação.

Ao comentar a evolução do movimento fundado por Lula e as transformações na dinâmica política e trabalhista do país, o pesquisador refletiu sobre o caráter duradouro do fenómeno. “Mais do que um movimento, o lulismo já se trata de uma cultura política.

Embora tenha origem na trajetória do Lula, é muito provável que sobreviva ao fim biológico dele, de uma forma talvez parecida com a do peronismo na Argentina. Quando olhamos para as experiências latino-americanas, e o peronismo é a mais importante delas nesse sentido, dá para projetar que já existe um lulismo de centro, outro de direita, um de esquerda mais radicalizado.

O peronismo teve essa característica. Dentro do governo atual e do PT, há alas mais liberais, e ao mesmo tempo Lula fez uma radicalização à esquerda do programa no segundo turno”, afirmou Secco.

Ao comparar a força das manifestações de rua no processo eleitoral recente com outros episódios marcantes da história recente do país, o historiador identificou paralelos diretos com as mobilizações do período da redemocratização. “Se pensarmos nos grandes movimentos de massa da Nova República, teve o de agora, o de junho de 2013, que foi muito ambíguo do ponto de vista político, as manifestações pelo impeachment de Fernando Collor e a maior de todas, que foram as Diretas Já.

As Diretas tinham um objetivo institucional também. Desse ponto de vista, pensando em ter um objetivo central, o que aconteceu agora é mais parecido com as Diretas Já”, analisou.

Apesar da dimensão expressiva do engajamento popular, o docente ressaltou que a participação maciça da juventude ocorreu com menor vínculo ideológico formal com o partido em comparação às décadas anteriores. “Em 1989, a campanha de Lula teve uma grande adesão espontânea e massiva no segundo turno, mas naquela época as pessoas tinham uma relação mais orgânica com os partidos, sobretudo o PT.

Na de agora, a participação massiva veio de pessoas que têm relação menos orgânica com partidos, milhões de jovens que provavelmente participaram de sua primeira campanha eleitoral. Pegavam a bandeira do PT porque era a que estava à disposição, não significa que tinham uma identificação natural com o partido.

Mas, ao mesmo tempo, o partido foi o único instrumento possível para nuclear essa participação popular, que se deu em torno do PT e de Lula. Dificilmente aconteceria com outro partido hoje”, ponderou.

Essa contradição entre a energia demonstrada no processo eleitoral e o comportamento institucional da legenda lança incertezas sobre os rumos do Poder Executivo diante de um Congresso de perfil marcadamente conservador. “Veja o que aconteceu do primeiro para o segundo turno.

Quase não teve gente importante da burocracia do partido com relevância nessas manifestações. Daqui para frente, o que se desenha é um governo de bastante instabilidade e confronto por causa da composição do Congresso.

Apesar da crise do bolsonarismo com a fuga de Flávio, eles têm uma bancada ideológica que é a maior da Nova República. As ruas esperam que o governo mantenha seus compromissos do segundo turno, mas como fará isso mantendo a mesma composição de centro e até centro-direita que tem o atual governo? Lula tem capacidade de mobilizar as pessoas, mas esse não é o padrão do PT enquanto governo desde 2003”, questionou Secco.

O sintoma mais evidente da falta de sintonia da burocracia partidária com o mundo do trabalho atual reside, segundo o professor da USP, na incipiente atuação das centrais sindicais e da sigla em pautas que ganharam enorme apelo popular de forma autônoma. “Essa pauta ajuda a mostrar como a direção do PT estava desconectada da sua base social histórica.

O mesmo vale para o exército digital do Janones. Foi preciso que um deputado que não é do PT, com estrutura mais precária, criasse algo que podia ter nascido da estrutura do partido, que tem muito mais recursos para isso.

No caso da 6×1, a defesa da diminuição da jornada de trabalho é uma pauta clássica dos trabalhadores desde o século XIX, mas isso precisou vir de um influenciador do Rio de Janeiro (Rick Azevedo), depois eleito, que iniciou um movimento que não veio das centrais sindicais. Há uma desconexão com a demanda dos trabalhadores”, declarou.

Por fim, ao abordar os rumos da economia e a leitura do governo sobre o universo laboral, o historiador alertou contra diagnósticos simplificados sobre a realidade das classes trabalhadoras no Brasil contemporâneo. “Esse assunto é mal compreendido pela direção do PT.

Falam como se a classe trabalhadora como um todo agora fosse de aplicativos. Quando olhamos os números, é uma categoria relevante e multifacetada, não uma coisa única.

Ao mesmo tempo, não é dominante. Por incrível que pareça, ainda temos mais trabalhadores da indústria do que de aplicativos, além de categorias mobilizadas com as quais o partido não fala mais.

É um desafio, mas o governo e o PT não podem responder só com discurso de ideologia do empreendedorismo, que tem sido a resposta. Uma coisa é reconhecer que existe um discurso de autonomia e liberdade desses trabalhadores, mas sem esquecer que trabalham para aplicativos que são grandes empresas.

Vale lembrar também que um dos motes do atual mandato era reindustrializar o país”, concluiu.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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