No momento em que o presidente russo, Vladimir Putin, se encontrava com Steve Witkoff, negociador enviado pela Casa Branca para encontrar saídas para a guerra na Ucrânia, o Kremlin anunciou a libertação de um professor americano preso desde 2022. Classificado de “humanitário” por Witkoff, o gesto tem mais a ver com o desejo de Putin de agradar seu homólogo em Washington, Donald Trump, e obter um desfecho positivo para o conflito, do que garantir o bem-estar de estrangeiros detidos. 'Essa é a impressão': Trump está pressionando a Ucrânia a se render à Rússia, diz Zelensky Quer morar fora? Guia interativo reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp De acordo com a Casa Branca, o acordo para a libertação de Stephen Hubbard, capturado no leste da Ucrânia nos primeiros dias da guerra, não envolveu uma troca de prisioneiros, praxe em ações do tipo — em dezembro de 2022, por exemplo, a jogadora de basquete Brittney Griner foi trocada por Viktor Bout, um dos maiores traficantes de armas da História e inspiração para o filme "Senhor das Armas". Na versão oficial, foi um gesto de boa vontade de Putin, atendendo a um pedido de Trump.
— O senhor fala tanto sobre o meu presidente, o presidente Trump, ser um humanitário — afirmou Witkoff a Putin, pouco antes do início de uma reunião entre os dois em São Petersburgo. — O senhor também é um humanitário, senhor, e eu saúdo isso. Hubbard embarcou para os EUA ainda na manhã de quarta-feira, deixando para trás o país que o prendeu e o condenou a seis anos de prisão por supostamente integrar uma milícia armada nos territórios ocupados. No Truth Social, Trump disse que o retorno deveria ter ocorrido no governo de Joe Biden, seu antecessor. JD Vance, seu vice, defendeu os elogios de Witkoff a Putin, alvo de uma ordem de prisão por crimes de guerra por parte do Tribunal Penal Internacional.
— Eu me importo muito menos com o que o Steve disse e com o fato de ele estar trazendo um refém americano de volta para sua família — acrescentou Vance nesta quarta-feira. Nesta imagem retirada de um vídeo fornecido e divulgado pelo serviço de imprensa do Tribunal da Cidade de Moscou em 7 de outubro de 2024, o cidadão americano Stephen Hubbard, de 72 anos, acusado de lutar como mercenário pela Ucrânia, participa da audiência em que será anunciada sua sentença, em Moscou AFP Apesar de não ter envolvido cidadãos russos, a libertação foi, na prática, uma troca.
Trump recebeu os louros por resgatar um compatriota preso há mais de quatro anos, uma rara vitória diplomática a menos de duas semanas de eleições nas quais pode sofrer uma derrota histórica. Putin havia colhido alguns frutos já na fase de negociações, com os anúncios da compra de diesel pelos EUA e de uma ordem de Trump para suspender a imposição de sanções aprovadas pelo Congresso — em suas redes sociais, o presidente americano confirmou que esses temas, que provocaram uma enxurrada de críticas, faziam parte das conversas sobre Hubbard. “Se as sanções tivessem sido aplicadas, essas negociações teriam, certamente, sido interrompidas por completo”, escreve no Truth Social. Financiamento em risco: Crise entre Zelensky e Trump aumenta pressão sobre Europa para financiar guerra na Ucrânia, e Kiev pede mais € 70 bilhões Em outra vitória para Trump, a Rússia concordou “em princípio” com a retomada do diálogo com a Ucrânia, mediado pelos Estados Unidos. Em conversa com jornalistas após a reunião em São Petersburgo, Yuri Ushakov, assessor presidencial russo, afirmou que um encontro pode ocorrer no mês que vem, provavelmente em Abu Dhabi, em nível técnico. Ushakov reservou críticas a Kiev, afirmando que a Rússia estava pronta para iniciar as conversas “há várias semanas”, mas que os ataques ucranianos durante as eleições russas, em setembro, fizeram o Kremlin mudar de ideia.
Em resposta à aparente prontidão russa para as negociações, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, defendeu que as conversas começassem o quanto antes, apresentando ideias para as etapas iniciais: em Oslo, onde se reuniu com Witkoff na véspera, disse que os dois lados devem se concentrar “no cessar-fogo, no fim da guerra, em questões do setor energético e de outros setores, bem como iniciativas humanitárias e o retorno de prisioneiros e de diplomatas”. — A pauta, naturalmente, é encerrar a guerra, aproximar a paz e, pelo que entendo, preparar o terreno para um encontro em nível de líderes — disse o ucraniano, embora um encontro com Putin seja considerado improvável neste momento.
Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, deixa o Parlamento da Noruega, em Oslo JONATHAN NACKSTRAND/AFP Após quatro anos e meio de guerra, dezenas de reuniões inconclusivas e um conflito que deixou mais de 2 milhões de mortos e feridos, segundo levantamento feito em julho, o líder ucraniano segue cético. — Esperamos que a Rússia, que afirmou diversas vezes estar pronta para uma reunião, em um formato ou outro, cumpra o que disse — explicou aos jornalistas. — No passado, as coisas mudaram ou foram canceladas. Veremos como será desta vez. Não há sinais de que Putin tenha mudado de ideia sobre seus planos para o país vizinho, que incluem a anexação formal de todo o leste da Ucrânia, mesmo as áreas sob controle de Kiev, além de compromissos sobre a soberania ucraniana. Aos jornalistas em São Petersburgo, Ushakov disse que Witkoff conversou sobre "alguns aspectos novos nas abordagens dos europeus e de Kiev" apresentados em Oslo, mas decretou que "não havia, de fato, muita substância neles". Acusações mútuas: Trump está 'frustrado' com críticas de Zelensky, diz secretário de Estado dos EUA, que nega ações para prejudicar Kiev Um motivo a mais de preocupação em Kiev é a proximidade entre Trump e Putin, combinada à ojeriza do republicano a seu governo. No início do mês, o americano disse que era hora da Ucrânia “arrumar um novo líder” — o mandato de Zelensky terminou em 2024, mas a lei marcial impede novas eleições.
Trump criticou os ataques ucranianos contra a infraestrutura de petróleo e gás da Rússia, em meio à pressão interna sobre a alta dos combustíveis, e declarou que Kiev deveria “encontrar outra pessoa para negociar”. Nesta quarta-feira, o Wall Street Journal revelou que Elon Musk, dono da SpaceX, responsável pelo sistema de internet por satélite Starlink, ordenou que a velocidade nos equipamentos usados pelos militares ucranianos fosse reduzida, impedindo ações com drones e atrapalhando a comunicação. Como Trump, Musk elevou o tom das críticas a Zelensky recentemente.
Terminal de internet por satélite Starlink em Bakhmut, na Ucrânia YASUYOSHI CHIBA/AFP Também nesta quarta-feira, Ushakov confirmou conversas para uma possível reunião trilateral entre Putin, Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, durante a cúpula do fórum da Apec, a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, em Shenzhen, na China, no mês que vem. Segundo ele, “nenhuma das capitais envolvidas – Moscou, Washington ou Pequim – rejeitou essa ideia”, e o encontro ocorrerá “caso as circunstâncias se mostrem favoráveis”.
O plano de reunir os líderes das três maiores potências nucleares está sendo chamado por analistas de “Nova Ialta”, referência ao encontro no qual os chefes de EUA, Reino Unido e União Soviética discutiram os últimos capítulos da Segunda Guerra Mundial e como seria o mundo depois dela, em fevereiro de 1945. Agora, o Kremlin quer incluir soluções para o conflito na Ucrânia, em seus próprios termos, e debater os novos arranjos globais em um cenário onde Washington e Pequim se consolidam como as principais forças. — Usar termos como “uma nova Ialta” e outros do gênero é impreciso — retrucou o porta-voz da Presidência russa, Dmitry Peskov, nesta quarta-feira. — No entanto, quando os líderes dos EUA, da China e da Rússia se reúnem, trata-se, naturalmente, de um encontro que atrairá a atenção de todo o mundo.
O Globo