Análise: Saques a marcas de grifes durante protestos na França expõem 'relação de amor e ódio' com a máquina do luxo

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Em meio a todas as imagens e vídeos dos tumultos que ocorreram na França no fim de semana, os mais chocantes são os da torre do relógio que desabou em Limoges, depois que a prefeitura da cidade, um edifício do século XIX, foi incendiada. Logo atrás, porém, vêm as imagens de saqueadores invadindo lojas de marcas de luxo como Celine, Hermès, Louis Vuitton e Saint Laurent, rompendo as enormes vitrines de vidro que funcionam como uma barreira entre o mundo exterior e os interiores silenciosos destinados aos ultrarricos, estilhaçando as reluzentes vitrines de exposição e levando as mercadorias. Contexto: Produtos saqueados durante distúrbios na França aparecem em plataforma de venda online, que reforça fiscalização de anúncios Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Dos mais de 3 mil estabelecimentos comerciais afetados pelos protestos, que se intensificaram e atingiram supermercados, farmácias e pequenos negócios familiares, foram as cenas de destruição de lojas de luxo que mais chamaram a atenção — e despertaram a imaginação — de pessoas que acompanhavam os acontecimentos pelo mundo. Um pedestre posa para fotos em frente a uma loja da 'Burberry' danificada, com a etiqueta 'ACAB - Todos os Policiais São Bastardos', no centro de Paris, em 18 de outubro de 2026 MATTHIEU RONDEL / AFP Sempre que manifestações vêm acompanhadas de saques, elas provocam discussões sobre expressões mais amplas, muitas vezes difusas, de revolta contra a desigualdade, não apenas na França, mas em todo o mundo. Seria fácil interpretar o episódio como mais um capítulo de uma longa história em que produtos de luxo são usados como símbolo da injustiça social e econômica — uma tradição que remonta à Revolução Francesa. Porém, os ataques também são uma reação a uma realidade particularmente contemporânea, criada pela própria indústria do luxo.

Afinal, a situação atual representa a terceira onda de ataques físicos contra marcas de luxo nos últimos oito anos na cidade que se apresenta como a capital mundial do setor. Em 2023, durante o movimento contra a reforma da Previdência proposta pelo governo, manifestantes invadiram a sede da LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy) na avenida Montaigne, em Paris, agitando sinalizadores e, por fim, queimando uma efígie de Bernard Arnault, o bilionário dono do grupo — que, naquele ano, chegou a ser por um breve período o homem mais rico do mundo. Em 2019, lojas da Dior e da Chanel na avenida Champs-Élysées, em Paris, entre outros estabelecimentos de luxo, foram saqueadas durante manifestações dos coletes amarelos. Fachadas de lojas fechadas com tábuas passaram a fazer parte da paisagem. Entenda: O que se sabe sobre os protestos na França e qual a disputa ideológica em torno dos atos de violência? Segundo Serge Carreira, diretor da iniciativa de marcas emergentes da Federação da Alta-Costura e professor associado da Escola de Gestão e Impacto da Sciences Po, “a França sempre cultivou uma relação de amor e ódio com o luxo — orgulhosa de sua influência global, desconfiada de sua moralidade e crítica à sua essência desigual”. Esta fotografia mostra uma placa com os dizeres 'ACAB - Todos os Policiais São Bastardos' em uma loja 'Dior' que foi saqueada à margem dos protestos nacionais de ontem contra o 'alto custo de vida', em Paris, no dia 18 de outubro de 2026. MATTHIEU RONDEL De certa forma, é justamente essa influência, cultivada com tanto empenho pelas próprias marcas, que agora está se voltando contra elas. 'Realização materialista' O setor de luxo usou as redes sociais e seu próprio prestígio cultural para se tornar onipresente na vida até mesmo de quem não pode pagar por seus produtos. Graças a embaixadores famosos, à transformação dos desfiles de moda em entretenimento e dos tapetes vermelhos em oportunidades de marketing, todo mundo conhece a Dior, mesmo que nunca compre um produto da marca. O mesmo vale para Louis Vuitton, Chanel, Burberry e tantas outras. Presidente francês: Macron classifica de ‘estúpidas’ declarações de Trump e Netanyahu sobre distúrbios na França Paradoxalmente, porém, ao se apresentarem como o ápice da aspiração e do bom gosto, essas marcas também elevaram tanto seus preços que seus produtos se tornaram inacessíveis para quase todos. São emocional e psicologicamente sedutores, mas, na prática, inalcançáveis.

— (Como resultado), a maior parte da geração mais jovem se sente excluída desse mundo — afirma Carreira. — Não há mais sonho, apenas inveja e raiva. Uma lojista organiza o local em frente à sua loja danificada em Paris, no dia 18 de outubro de 2026, um dia após protestos em todo o país contra o 'alto custo de vida' MATTHIEU RONDEL / AFP Esses sentimentos se manifestaram por meio da destruição física. Ao quebrar as vitrines das lojas opulentas, os manifestantes estão destruindo um sistema que oferece apenas a promessa de inclusão, disse Carreira.

— Eles escapam das normas e alcançam uma forma de realização materialista — explica. Violência social na França: O que os vândalos nos dizem, às vezes sem perceber, por Édouard Louis Ao se apropriarem dos próprios produtos — muitos dos quais acabaram no mercado de revenda de artigos de luxo e no mercado ilegal —, os saqueadores tomaram para si parte daquilo que lhes havia sido negado e literalmente levaram essas mercadorias para as ruas. Nesse contexto, em vez de símbolos do trabalho artesanal e do patrimônio cultural, como as marcas de luxo costumam descrever a si mesmas e seus produtos, as mercadorias passam a representar o excesso e a decadência do capitalismo. Os membros do Corpo de Segurança Republicano Francês (CRS - Compagnies Républicaines de Sécurité) estão ao lado de uma loja Galeries Lafayette na rua Sainte-Catherine durante uma manifestação contra o "alto custo de vida", em Bordeaux, no sudoeste da França, em 17 de outubro de 2026. CHRISTOPHE ARCHAMBAULT Sobre os próximos passos, Dior, Celine e Hermès não responderam aos pedidos de comentário, se recusaram a comentar o que aconteceu com suas lojas ou não informaram quais medidas adotaram para protegê-las. A Ralph Lauren não respondeu aos e-mails enviados. Análise: Extrema direita na França capitaliza onda de violência para impulsionar campanha eleitoral Uma nota interna enviada aos funcionários da LVMH em 19 de outubro por Antoine Arnault, responsável pela área de comunicação e sustentabilidade do grupo, e obtida pelo New York Times, informou que a empresa havia “tomado as medidas adequadas para garantir a segurança de todos e a continuidade de nossas operações”. Segundo relatos, seguranças particulares foram contratados. Arnault também agradeceu aos “artesãos, virtuosos e a todos os integrantes de nossas equipes”, chamando-os de “nossos melhores embaixadores”. Com a imposição de toques de recolher na França e as cidades se preparando para uma nova rodada de protestos, o governo promete reforçar a segurança.

— Acredito que a avenida Montaigne e a rua Faubourg Saint-Honoré serão como Fort Knox no próximo fim de semana e em qualquer outro dia de protesto nas próximas semanas — observa Carreira, em referência ao complexo militar americano conhecido por abrigar reservas de ouro e contar com forte esquema de segurança. Leia mais: Após onda de violência, França impõe toque de recolher parcial em Paris e outras cidades e não descarta estado de emergência Bilionários são famosos por gostar de bunkers. Mas será que as marcas que os atendem realmente querem ficar presas lá dentro?

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