Lázaro Ramos: 'Tenho uma vida que superou as minhas primeiras expectativas'

Lázaro Ramos: 'Tenho uma vida que superou as minhas primeiras expectativas' - Foto
Fonte da notícia: Revista Quem Revista Quem

É difícil associar a imagem de Lázaro Ramos à de um homem durão, machista e malvado, mas seus trabalhos recentes na TV e no cinema mostraram uma nova faceta do ator, que reafirma seu talento em personagens que vão na contramão da sua real personalidade. O artista estreia nesta quinta-feira (5) em Feito Pipa, filme que vai representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional na 99ª edição do Oscar.

Já na sexta-feira (6), ele se despede do primeiro vilão de sua carreira, o Jendal, de A Nobreza do Amor. Além das novas nuances de interpretação, os dois trabalhos se unem por um tema em comum: a paternidade.

“Esse foi um ano de fazer personagens controversos, mais duros e mais rígidos”, comenta Lázaro, que, mesmo vivendo um tirano na novela das 18h da Globo, conseguiu, pelo lado paterno de Jendal, humanizar seu personagem. “Comecei sem saber como é que eu ia me ver ou ser visto nesse lugar, porque afinal de contas as pessoas criam uma expectativa.

Acho que isso foi superado muito rapidamente, as pessoas já entenderam o papel desse vilão, sem perdoá-lo pelo meu carisma pessoal”, avalia. Lázaro Ramos usa jaqueta Casa Juisi, camisa Mondepars e broches Minha Avó Tinha

Marcus Sabah Já em Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, o artista vive Batista, um pai que tem dificuldade em aceitar o filho queer, Gugu (Yuri Gomes), e, por conta disso, deixa o menino viver com a avó, Dilma (Teca Pereira).

Lázaro mal terminou as gravações da novela e já começou a intensa divulgação do filme nos Estados Unidos. A conversa com a Quem, por exemplo, aconteceu entre uma ponte aérea e outra, com o ator dentro de um carro após descer de um avião.

“Fiquei com uma certa ansiedade e um certo medo, porque o Oscar realmente virou torcida de futebol, mas hoje em dia eu estou muito feliz com a oportunidade”, fala o ator, que destaca a importância de levar uma nova temática à maior premiação do cinema. “Vejo como muito positivo para a gente não ficar estigmatizado com um gênero de filme ou temas recorrentes.

Sinto que isso vai abrir portas para os próximos movimentos do cinema nacional”. Lázaro não se identifica com a trama do longa, mas sente que o trabalho rendeu a ele novos aprendizados como pai: “Esse personagem me ensina mais do que eu empresto alguma coisa minha a ele.

Ele reforça meu olhar para os meus filhos, de não querer que eles sejam uma extensão de mim, de aceitá-los do jeito que eles são e de dar suporte para eles crescerem seres humanos plenos”. Enquanto Batista é frio com Gugu, o ator é um pai caloroso para João Vicente, de 15, e Maria Antônia, de 11, do casamento com Taís Araujo.

“O Lázaro pai é um pai de muito abraço, de muito conselho, muita conversa e que, agora, está passando por uma fase de entender que os filhos já não são mais crianças”, conta o artista, que não dispensa nenhuma oportunidade de estar em família. “Uma coisa muito bacana na nossa relação é que as companhias que eu mais gosto de estar são as dos meus filhos”.

Entre os desafios atuais da paternidade está a tecnologia, pois, para Lázaro, é preciso ter um controle. “Não existe como não interferir nos conteúdos que eles consomem e no tempo que eles ficam na tela, porque é muito viciante e a tendência deles é ficarem lá, só que quem educa eles somos nós.

A gente, às vezes, tem que pegar umas brigas e, o tempo todo, fazer uns combinados, não tem jeito”, enfatiza. “Durante um tempo, até tentei deixar mais livre, mas percebi que isso deixa a criança mais ansiosa, que deixa mais impaciente, com a comunicação mais limitada e, quando a gente começou a restringir, eles ficaram melhores, é notório”.

O artista sabe bem a importância de trabalhar a questão da comunicação, pois foi um adolescente extremamente tímido. “Foi o teatro que me salvou da timidez.

Até hoje, eu acho que a minha profissão é o que me salva, porque eu ainda, por incrível que pareça, sou tímido. Eu sou comunicativo, eu estou presente nos lugares, mas sempre tem um personagem que me salva nas relações sociais”, revela.

“O teatro me abriu várias possibilidades, não só a fuga da timidez, mas também entender o meu papel cidadão e entender quais são os artifícios de comunicação que eu posso ter para conviver nos espaços”. Lázaro Ramos usa calça Welcome Sunny Garments, sapatos Bottega Veneta e camisa Acervo Pessoal

Marcus Sabah Em setembro deste ano, Lázaro comemorou 22 anos de casamento com Taís.

Questionado pela Quem sobre o que é preciso para ter uma relação tão longa no meio artístico, ele fala: “Hoje em dia eu acho que é por que a gente refaz o nosso contrato de casamento de tempos em tempos e por que a gente ri muito junto. O humor tem sido um alimento da nossa relação.

E também se reconhecer a cada tempo. Mudamos muito ao longo do tempo e aprendemos que nós temos que nos reconhecer de novo”.

A parceria de sucesso se repete no âmbito profissional. Ao longo dos anos, o casal esteve junto em vários projetos, sendo A Nobreza do Amor o mais recente.

“Posso dizer que trabalhar junto com Taís é mais fácil do que sermos casados. É muito legal isso, porque a gente, quando vai contracenar, rapidamente encontra os códigos para a cena ser boa, a gente tem muita confiança um no outro em cena, e acho que tem muita química quando a gente trabalha junto, o que poderia não ser, porque ser casado não significa ter química no trabalho”, explica.

Olhando sua história, o ator diz que, se pudesse voltar no tempo, talvez dissesse ao jovem Lazinho que ele é merecedor de ser quem ele é. Ao mesmo tempo, ele tem dúvidas, pois sente que foi sua trajetória que o tornou a pessoa e o artista que ele é.

“Tenho uma vida que superou as minhas primeiras expectativas”, destaca Lázaro, que para o futuro deseja tranquilidade. “Acho que a palavra ideal é essa.

Quero tranquilidade para ver meus filhos crescerem com saúde, tranquilidade para ver os coletivos dos quais eu faço parte convivendo em maior harmonia e com mais comunicação. Profissionalmente, quero continuar tendo as oportunidades de viver personagens desafiadores”.

Lázaro Ramos usa paletó Empório Armani, camisa Mateus Cardoso e broche Minha Avó Tinha Marcus Sabah

Quem: O que Feito Pipa representa na sua carreira? Lázaro Ramos: Uma renovação de linguagem.

É uma alegria imensa fazer parte de um projeto como esse, que emociona tanto as plateias e, agora, vai tentar representar o Brasil no Oscar. Ele representa também um movimento de reapaixonamento pelo cinema falado em nosso idioma, em português.

O público não está acostumado a ver você em papéis tão rígidos. Como foi essa experiência?

Acho que esse foi um ano de fazer personagens controversos, mais duros e mais rígidos, o Jendal, em A Nobreza do Amor, e o Batista, no Feito Pipa. As pessoas têm falado muito de me ver nesse outro lugar.

Mas eu tento, apesar de fazer personagens rígidos, mostrar várias camadas. O Jendal, por exemplo, é um pai.

Um pai todo errado, mas, ao mesmo tempo, quando está com a filha, ele modifica um pouco da personalidade. Assim como no pai de Feito Pipa.

Eu tentei mostrar esse homem que é rígido, mas que tem amor, mesmo com a impossibilidade de aceitar o filho como ele é Por que você acredita que Feito Pipa tem chance de concorrer ao Oscar?

Ele tem um grande potencial no Oscar, porque ele vem depois de um trabalho muito bonito do Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, mas com uma nova linguagem, com uma nova paisagem e uma nova história, mostrando que o cinema brasileiro é diverso. Também porque ele fala de uma história tão particular, mas que, ao mesmo tempo, é universal, pois fala da relação de avó e neto, da questão do Alzheimer, de uma criança queer, da relação de um pai que não aceita o filho ser do jeito que é, ou seja, são temas que estão ao redor do mundo.

Acho que as pessoas vão se conectar em qualquer lugar. Lázaro Ramos usa jaqueta Casa Juisi, camisa Mondepars, calça Hist, sapatos Bottega Veneta e broches Minha Avó Tinha

Marcus Sabah O brasileiro de fato tem demonstrado cada vez mais orgulho do cinema nacional.

Como é para você, que faz cinema há tantos anos, ver esse movimento? Primeiro, fiquei com uma certa ansiedade e um certo medo, porque o Oscar realmente virou torcida de futebol, mas hoje em dia eu estou muito feliz com a oportunidade.

Acho que é um filme estratégico para esse momento, principalmente porque é uma oportunidade, já que a gente está tendo um pouco mais de atenção, de mostrar a diversidade que o cinema brasileiro tem. A gente está mostrando uma outra paisagem, um outro perfil de atores, um outro tipo de roteiro, um outro gênero e tudo com qualidade.

Fora que o filme já está emocionando as pessoas independentemente da nacionalidade. Eu vejo como muito positivo [o filme ter sido escolhido] para a gente não ficar estigmatizado com um gênero de filme ou temas recorrentes.

Sinto que isso vai abrir portas para os próximos movimentos do cinema nacional. E como está sendo essa loucura pré-Oscar? Você já lançou o filme em vários lugares do Brasil e está a caminho de Los Angeles.

Olha, eu acabei uma novela há menos de um mês e estava naquela expectativa que a gente fica no fim de qualquer trabalho de descansar. A verdade é essa.

De repente, o filme foi convocado e eu tirei forças, porque vale a pena, né? Mas, assim, está mais intenso do que eu esperava. Cada dia numa cidade diferente, muitas entrevistas, agora estou me preparando para a parte internacional, mas estou animado.

A gripe bateu um pouquinho, mas vou cuidar da saúde, me hidratar bastante, dormir o máximo possível, mesmo que seja entre voos, porque vale a pena. Chego um pouco cansado nos lugares, mas quando eu vejo a recepção do público e tenho papos empolgados com os jornalistas que já assistiram ao filme, a força volta de novo, mas é uma maratona.

Você acompanhou de perto com o Wagner Moura, que é seu grande amigo, como foi a corrida do Oscar de O Agente Secreto. Como essa amizade vai se refletir agora com Feito Pipa?

Na verdade, tem duas pessoas que já passaram por isso e foram muito generosas, que são Walter Salles [diretor de Ainda Estou Aqui] e o Wagner. Waltinho parou por um longo tempo para fazer uma reunião com a gente, contar da experiência, falar um pouco de estratégia e indicar pessoas.

E Wagner a mesma coisa, assistiu, incentivou muito a gente e foi muito gentil. No dia 2 de novembro, a gente fez uma exibição para votantes, na qual ele [Wagner] foi a pessoa que convidou o público.

Essa foi uma das estratégias e isso é muito importante, porque quando você abre espaço no cinema nacional e oferece generosamente a sua experiência, ou seu tempo, ou um incentivo, faz toda a diferença para todos nós. Não só para um filme, mas para todo o resto.

Espero poder no ano que vem fazer isso com o próximo filme indicado, compartilhar um pouco da experiência e oferecer tempo para quem for representar o Brasil no Oscar 2028. "Espero poder no ano que vem oferecer tempo para quem for representar o Brasil no Oscar 2028"

Você sente que sua história conversa de alguma forma com a trama de Feito Pipa? Não.

E isso é bom, porque impõe um novo desafio. Eu acho que não conversa nem a minha história e nem com o tom de interpretação que estava habituado a fazer nos últimos anos.

Isso fez com que eu acabasse tendo que fazer um filme que, além de emprestar o meu emocional, eu tivesse que ativar o meu racional também para não fazer um personagem que fosse estereotipado. Eu acho que esse personagem, na verdade, me ensina mais do que eu empresto alguma coisa minha a ele.

Ele reforça meu olhar para os meus filhos, de não querer que eles sejam uma extensão de mim, de aceitá-los do jeito que eles são e de dar suporte para eles crescerem seres humanos plenos. Lázaro Ramos usa paletó Empório Armani, camisa Mateus Cardoso e lenço e broche Minha Avó Tinha

Marcus Sabah Em 2022, você disse que sonhava em falar mais de paternidade no cinema.

Você sente que ainda é um assunto escasso? É um assunto escasso, mas eu, felizmente, estou conseguindo falar sobre paternidade com mais recorrência, não só no cinema.

Tem o filme O Papai é Pop, que é um filme temático sobre isso, mas depois, em Velhos Bandidos, fiz um pai de uma filha que está doente, em Antártida fiz um pai que acabou criando o filho sozinho por causa do comportamento dele com a mãe e na novela A Nobreza do Amor fiz um pai torto e tirano.

Agora, faço um pai em Feito Pipa que, de todos, é o que tem mais camadas de conflitos ligados à paternidade. Em resumo, todos os trabalhos deste ano eram pais.

Falando sobre essa questão de paternidade, como é o Lázaro pai? O Lázaro pai é um pai de muito abraço, de muito conselho, muita conversa e que, agora, está passando por uma fase de entender que os filhos já não são mais crianças, são pré-adolescente e adolescente.

E muda muita coisa. Eu tinha muito a tendência de ainda ficar tratando eles como criancinhas, mas eles não são mais.

Então, estou numa nova adaptação. A paternidade, para mim, é um aprendizado todos os dias, não tem muito jeito, não tem como fugir disso.

Uma coisa muito bacana na nossa relação é que as companhias que eu mais gosto de estar são as dos meus filhos. Acho eles uma companhia muito agradável, são dois seres humanos interessantes, que têm as demandas que toda criança e adolescente têm, mas são boas companhias de estar perto, sabe? Um dos maiores prazeres que eu tenho na minha vida é ser pai.

"As companhias que eu mais gosto de estar são as dos meus filhos" Lázaro Ramos usa camisa, calça e sandálias Misci

Marcus Sabah Você falou sobre a questão da companhia e isso chama atenção porque a juventude de hoje é muito conectada.

Como você e Taís tratam a questão da tecnologia com eles? Não tive filhos sem a tecnologia existir, então não tenho muito comparativo, mas acho um grande desafio, porque a gente tem que interferir.

Não existe como não interferir nos conteúdos que eles consomem e no tempo que eles ficam na tela, porque é muito viciante e a tendência deles é ficarem lá, só que quem educa eles somos nós. A gente, às vezes, tem que pegar umas brigas e, o tempo todo, fazer uns combinados, não tem jeito.

Durante um tempo, até tentei deixar mais livre, mas percebi que isso deixa a criança mais ansiosa, que deixa mais impaciente, deixa com a comunicação mais limitada e, quando a gente começou a restringir, eles ficaram melhores, é notório. Uma semana depois, o comportamento e o jeito de lidar com as coisas mudaram, então, por isso, a gente é muito presente nesse sentido.

O restringir seria limitar o uso de tela? Isso, exato.

Lázaro Ramos usa calça Welcome Sunny Garments, sapatos Bottega Veneta e camisa Acervo Pessoal Marcus Sabah

Lázaro Ramos usa calça Welcome Sunny Garments, sapatos Bottega Veneta e camisa Acervo Pessoal Marcus Sabah

Na sua adolescência, você era muito tímido. Como foi superar isso e escolher seguir na carreira de ator?

Acho que a carreira de ator me deu a possibilidade de viver personagens. Então, através dos primeiros personagens que eu fiz nos cursos de teatro, eu fingia que não era eu.

Acho que foi o teatro que me salvou da timidez. Até hoje, eu acho que a minha profissão é o que me salva, porque eu ainda, por incrível que pareça, sou tímido.

Eu sou comunicativo, eu estou presente nos lugares, mas sempre tem um personagem que me salva nas relações sociais. O teatro foi o lugar que eu descobri isso.

Na verdade, o teatro me abriu várias possibilidades, não só a fuga da timidez, mas também entender o meu papel cidadão, entender quais são os artifícios de comunicação que eu posso ter para conviver nos espaços e abriu a minha sensibilidade. "Eu sou comunicativo, eu estou presente nos lugares, mas sempre tem um personagem que me salva nas relações sociais"

Você ingressou no teatro aos 10 anos e, depois de tantos anos de carreira, viveu um novo desafio, que foi interpretar seu primeiro grande vilão. Agora que as gravações acabaram, que balanço você faz? O que descobriu de novo nesse processo?

Foi mais do que positivo, superou minhas expectativas. Comecei sem saber como é que eu ia me ver ou ser visto nesse lugar, porque afinal de contas as pessoas, depois de você fazer tantos heróis e personagens cômicos, criam uma expectativa.

Acho que isso foi superado muito rapidamente, as pessoas já entenderam o papel desse vilão, sem perdoá-lo pelo meu carisma pessoal, entendendo que ele era um tirano. Para mim, foi importante enquanto ator experimentar fazer um personagem que, além da vilania, tinha um humor irônico, tinha uma relação ali com a filha, que era um amor torto.

Isso tudo foi muito bom, porque a cada mês, a cada semana, a cada bloco de capítulos, eu conseguia levar o personagem para outros caminhos. A recepção do público está muito positiva, eu chego nas ruas e as pessoas falam, abraçam, dão bronca, me contam cenas como se eu mesmo não tivesse feito a novela, isso é um ótimo parâmetro, né? É sinal de que as pessoas estão envolvidas.

E, pessoalmente, me deu a alegria de trabalhar com atores que se tornaram meus amigos, pela boa convivência que a gente teve. Foi uma novela muito tranquila de bastidores.

A equipe de direção me desafiou e o texto me deu muito prazer em decorar e estudar. Para mim, foi uma das novelas mais importantes que eu fiz.

Fica como um marco na minha vida como ator. Já estou sentindo saudades.

Lázaro Ramos usa camisa Misci Marcus Sabah

Olhando sua trajetória no cinema — passando por Madame Satã, O Homem Que Copiava, Carandiru e por aí vai —, você teve personagens muito diversos. Já na televisão, foram muitos personagens cômicos.

Você sente que existia, na TV, uma tentativa constante de te colocar na comédia? Não posso dizer isso, não, porque eu tive uma variedade grande de personagens.

Lado a Lado foi o marco e o próprio André de Insensato Coração. Faço parte de um grupo de criadores que é muito capitaneado por Jorge Furtado e Guel Arraes, e a gente se tornou uma família.

Do Sexo Frágil foi para o Mister Brau, que foi para o Ó Paí, Ó. São todos projetos que eu tenho muito carinho e que estava fazendo ali com a minha turma.

Todas as vezes em que fui para outro lado, foi também por desejo meu. Acho que uma coisa realmente estava faltando, que era fazer dramas como eu fiz no cinema.

Passei um período fora da Globo, uns quatro anos e pouco, e quando voltei, eu voltei justamente nesse outro lugar, e foi um ano muito positivo. Veio a terceira temporada de Os Outros, que fiz um personagem com uma densidade grande, veio o Antártida, que é o filme no mesmo lugar, e depois o desafio do primeiro vilão.

Teve uma transição, tanto por escolha minha, quanto por uma nova geração de produtores de elenco que apareceu na Globo e entendeu que poderia me colocar nesse lugar. Em A Nobreza do Amor, você e Taís voltaram a contracenar.

Você já comentou que é sempre muito bom trabalhar com ela, mas tem alguma parte desafiadora? Posso dizer que trabalhar junto com Taís é mais fácil do que sermos casados.

É muito legal isso, porque a gente, quando vai contracenar, rapidamente encontra os códigos para a cena ser boa, a gente tem muita confiança um no outro em cena, e acho que tem muita química quando a gente trabalha junto, o que poderia não ser, porque ser casado não significa ter química no trabalho.

Trabalhar com ela é muito fácil, é impressionante. A gente talvez nem precisasse ensaiar para fazer uma cena.

A gente ensaia porque tem um grupo que precisa disso, de diretor, de câmera, de iluminação, mas a gente, graças aos deuses e às deusas da arte, tem facilidade de trabalhar juntos. "Trabalhar junto com Taís é mais fácil do que sermos casados"

Vocês estão juntos há mais de 20 anos, algo difícil no meio artístico. O que é preciso para manter uma relação tão longa?

São 22 anos. Não sei [o que é preciso], hoje em dia eu acho que é porque a gente refaz o nosso contrato de casamento de tempos em tempos e porque a gente ri muito junto.

O humor tem sido um alimento da nossa relação. E também se reconhecer a cada tempo.

Mudamos muito ao longo do tempo e aprendemos que nós temos que nos reconhecer de novo. Acho que é isso, mas também não tenho certeza (risos).

Lázaro Ramos usa camisa Mateus Cardoso Marcus Sabah

Lázaro Ramos usa calça Welcome Sunny Garments, sapatos Bottega Veneta e camisa Acervo Pessoal Marcus Sabah

Quando você fala em contrato, como seria? Pode explicar? Às vezes, a gente muda de vontade.

A gente quer fazer uma viagem para um lugar que não queria antes, por exemplo, e a gente entende que mudamos o nosso gosto. Agora, nós somos pais de adolescentes, então como é que a gente vai negociar para educar os nossos filhos? A gente conversa: “Olha, agora que eles viraram adolescentes, a gente tem que se adaptar”.

Ou então: “Estão num período em que estamos trabalhando mais, então a gente vai se ver menos. Vamos tirar sempre um dia da semana que a gente vai jantar só nós dois?”.

A gente sempre faz esses novos acordos, entendendo as mudanças na rotina e de personalidade de um e de outro. "A gente refaz o nosso contrato de casamento de tempos em tempos"

Você tem dois livros de reflexões e memórias, que são Na Minha Pele e Na Nossa Pele. Como que foi para você revisitar seu histórico e colocar isso em palavras?

Hoje em dia, eu entendi uma coisa muito legal, porque primeiro foi isso, revisitar emoções e experiências, depois eu entendi que tem algo de dramaturgia. Tem uma hora que, para conseguir dar conta dos sentimentos que o livro gera, eu transformei o Lázaro num personagem e olhei um pouco de fora para ter a habilidade de contar essas histórias, porque são histórias mais íntimas, pessoais e não queria que ficasse somente no fetiche de conhecer a curiosidade de um ator famoso, mas que tivesse também assim pontos de reflexão.

Isso foi interessante, porque foi um jeito que eu descobri de dar conta de entrar em contato com esse material. A experiência de ler o Na Minha Pele é completa.

Ele também revisita a história da minha mãe como empregada doméstica. Estou supefeliz porque o livro vai ganhar uma vida nova.

No dia 21 de novembro, estou indo para Portugal para fazer uma book tour de uma edição especial que tem os dois livros juntos e com um capítulo novo. Nunca pensei, lá em 2017, quando eu lancei o Na Minha Pele, que essa história tão íntima ia tocar tantas pessoas e ganhar tantos desdobramentos.

Lázaro Ramos usa camisa, calça e sandálias Misci Marcus Sabah

Nos últimos anos, você dirigiu longas e curtas. Você tem vontade de explorar mais seu lado diretor?

Com certeza. Eu acho que já é uma nova profissão.

Antes, eu achava que ia ser uma experiência só, mas gostei tanto e tantas histórias que apareceram, que eu estou me preparando e preparando novos projetos para dirigir. Agora, estou querendo experimentar gêneros.

Quero dirigir novos projetos e entender que o meu prazer vai ser esse. Dirigi o Medida Provisória, que era aquele thriller tenso, e depois dirigi um musical jovem, que é Um Ano Inesquecível - Outono.

Agora, estou achando que cada filme que eu fizer, vou experimentar um gênero diferente. Feito Pipa fala de um menino que deseja ser quem ele é sem julgamentos.

Considerando sua trajetória, o que você falaria para o Lázaro criança? Eu diria o que eu mesmo, Lázaro, aprendi com o Gugu.

Ele desde sempre sabia que era merecedor de ser quem ele é. Acho que eu diria para Lazinho isso.

Mas, ao mesmo tempo, eu tenho dúvidas, porque eu acho que a minha trajetória e a minha história fizeram com que eu me tornasse tanto a pessoa quanto o artista que eu sou. Então, eu fico com medo também de interferir nessa trajetória, já que agora que eu sei o final.

Tenho uma vida que superou as minhas primeiras expectativas. "Quero tranquilidade para ver meus filhos crescerem com saúde, tranquilidade para ver os coletivos dos quais eu faço parte convivendo em maior harmonia"

E o que o Lázaro quer para o futuro? Quero tranquilidade.

Acho que a palavra ideal é essa. Quero tranquilidade para ver meus filhos crescerem com saúde, tranquilidade para ver os coletivos dos quais eu faço parte convivendo em maior harmonia e com mais comunicação.

Profissionalmente, quero continuar tendo as oportunidades parecidas com as que eu tive esse ano, de viver personagens desafiadores, novos e que entretenham as pessoas do jeito que foi. Fico muito feliz de ter sido um ano que eu vou encerrar tendo recebido vários abraços, tendo várias conversas com quem assistiu aos trabalhos que eu fiz e me falando de como foi importante esse momentinho que a gente teve junto por conta do meu trabalho, seja em filme, novela ou série.

Lázaro Ramos usa camisa Misci, calça Welcome Sunny Garments e sapatos Bottega Veneta Marcus Sabah

Créditos: Texto: William Amorim (@william.amorim5)

Fotos: Marcus Sabah (@msabah) Styling: Thiago Ferraz (@thico)

Beleza: Gabriel Gomez (@gabrielgomezls) Direção criativa: Pedro Flutt (@pedroflutt)

Direção de redação: Camila Borowsky (@camila_borowsky) Edição: Ana Carolina Moura (@anacmoura)

Vídeos: Eduardo Garcia (@eduardogarda) Assistência de fotografia: Felipe Viveiro (@felipe.viveiros) e Victor de Beija (@debeija)

Produção de Moda: Gabriela Fabosa (@gabrielafabosa), Luan Baptistta (@luanbaptistta) e Maicon Vechii (@maiconvechii) Camareira: Salvadora do Nascimento

Tratamento de imagem: Felipe Few (@ffew.retouch) Produção: Cecilia Bastos (@cbastos)

Relações Públicas: Trigo Comunicação (@trigocomunica) Design de capa: Bárbara Garcia (@babi_troncoso)

Publicação Original Revista Quem revistaquem.globo.com
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