Ladislau Dowbor: “Taxa de juros de 13,75% ao ano é surrealista”

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O economista Ladislau Dowbor classificou como “surrealista” a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados no Brasil. Em entrevista concedida à TV 247, o professor titular da PUC-SP fez um diagnóstico do impacto dos juros altos sobre o desenvolvimento econômico, o endividamento das famílias e a sustentabilidade das empresas brasileiras.

Para Dowbor, o modelo monetário atual funciona como um dreno de recursos coletivos que esteriliza o potencial produtivo da nação em favor de ganhos especulativos no mercado financeiro. O dreno do rentismo e a trava do investimento

Ao analisar o impacto da Selic sobre as contas públicas, o economista destacou a disparidade entre a realidade brasileira e a de outras economias globais. No Japão, por exemplo, o ajuste na taxa de juros de 0,25% para 0,5% ao ano gerou intensos debates.

No Brasil, contudo, a Selic mantida em níveis estratosféricos consome cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) oriundo da arrecadação de impostos. “Em vez de esses recursos servirem para financiar saúde, educação e infraestrutura, eles são drenados para grandes grupos financeiros na Faria Lima sem nenhum esforço produtivo”, afirmou Dowbor.

Segundo o professor, essa dinâmica desestimula diretamente a atividade empresarial real. “Para que um empresário vai investir, produzir algo ou assumir riscos se ele pode aplicar R$ 1 bilhão em títulos da dívida pública e retirar mais de R$ 100 milhões no fim do ano de mão no bolso?”, questionou.

As famílias sufocadas e a paralisia do mercado interno O impacto da política monetária atinge com força ainda maior a ponta final da economia: a população e os pequenos negócios.

Citando dados do Banco Central, Dowbor recordou que a taxa média de juros cobrada das pessoas físicas no país supera 60% ao ano. Com isso, aproximadamente 29% da renda das famílias brasileiras é destinada exclusivamente ao pagamento de juros bancários, retirando poder de compra da população.

“O principal motor da economia é colocar dinheiro na base da sociedade, porque isso gera demanda agregada. Quando você destrói a capacidade de consumo das famílias, você trava as empresas produtivas”, explicou.

O resultado desse estrangulamento de crédito e consumo é refletido na inadimplência, que atinge cerca de 9 milhões de empresas no país. Dowbor defendeu propostas de redução gradual da taxa de juros básica até patamares praticáveis em torno de 7,5% ao ano, permitindo que a economia volte a respirar de forma sustentável.

O entrave é político, não técnico Desmontando a narrativa de que o país carece de recursos para promover o bem-estar social, Ladislau Dowbor apresentou números que demonstram a abundância da produção nacional.

Se o PIB brasileiro fosse dividido igualmente pela população, a produção de bens e serviços equivaleria a cerca de R$ 20 mil por mês para cada família de quatro pessoas. No setor agrícola, a produção de grãos alcança a marca de 4 kg diários por habitante.

Para o economista, a verdadeira barreira para o crescimento inclusivo não é a escassez de recursos materiais ou tecnológicos, mas sim um entrave de governabilidade política frente ao poder do sistema financeiro. Ele lembrou ainda o contexto histórico da Constituição de 1988, cujo artigo 192 original classificava juros reais acima de 12% ao ano como crime de usura.

“Legalizaram a agiotagem ao retirar o limite constitucional, tornando a prática legal, mas jamais legítima ou ética”, pontuou. Ao concluir, Dowbor enfatizou que o equilíbrio fiscal autêntico não é alcançado pelo arrocho das políticas sociais, mas sim pela ampliação dos investimentos na base da sociedade.

“Quando você investe no povo, gera emprego e atividade econômica, a arrecadação do Estado aumenta e o orçamento se equilibra naturalmente. Resgatar a função social da economia é uma questão de bom senso e soberania nacional”.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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