JOTA Principal | Lula conquista virada histórica, promete ‘melhor mandato’ e tem desafios à frente

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Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, fez valer o bordão de que “nunca antes na história deste país” — e, contra as probabilidades da véspera, reelegeu-se presidente da República com uma virada sem paralelo, para o quarto mandato de seus 80 anos de vida. Em comparação com o primeiro turno, a votação no petista cresceu em todos os estados do Brasil.

Depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio Bolsonaro (PL), por 45,2% a 47% dos votos válidos, o presidente reverteu a desvantagem e venceu por 51,8% a 48,2%. A virada foi resultado de uma transferência desigual de votos, Daniel Marcelino analisa no JOTA PRO Poder.

Entre os turnos, Lula ganhou 10,3 milhões de votos, contra 3,7 milhões de Flávio. O presidente ficou com 74% dos votos adicionais conquistados pelos dois candidatos.

Lula não perdeu votos em nenhum estado. Flávio recuou em seis: Acre, Amapá, Roraima, Amazonas, Tocantins e Maranhão.

A votação no segundo turno também ficou marcada por pedidos de ambas as campanhas por uma prorrogação de horário, atendida às 17h03 em decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal. Gabriella Salles e Lucas Mendes reconstroem a linha do tempo no JOTA.

As duas horas a mais de votação em poucas seções eleitorais não tiveram qualquer influência no resultado final, ao contrário do que Flávio Bolsonaro deu a entender ao recusar a aceitar a derrota. O filho de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar pela tentativa de golpe de Estado em 2023, ficará sem mandato a partir de 2027.

Segundo os registros do Tribunal Superior Eleitoral, a prorrogação afetou 7.352 urnas (1,48% do total), nas quais pouco mais de 5.000 votos foram depositados após as 17h — proporção insignificante diante dos 4,4 milhões de votos de diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro. Leia a seguir como se deu a virada de Lula e as perspectivas para o quarto governo do petista nas análises de Fabio MuraKawa, Fábio Pupo e Maria Eduarda Portela.

Paula Bonelli colaborou nesta edição. Boa leitura e boa semana.

O PONTO CENTRAL 1.

Lula contra o impossível Depois de ver sua reeleição seriamente ameaçada, Lula foi buscar forças onde poucos acreditavam que ainda existissem, Fabio MuraKawa escreve no JOTA PRO Poder.

Com uma mobilização inédita nas ruas e nas redes, em três semanas ele recuperou terreno nas pesquisas e virou uma eleição que parecia escapar de suas mãos. Uma vitória extraordinária, que o leva pela quarta vez à Presidência da República e acrescenta mais um capítulo a uma biografia política sem comparação na história brasileira deste século.

💥 Panorama: A vitória demonstrou a extraordinária capacidade de mobilização de Lula e a força de um campo político que parecia abatido depois do primeiro turno. Em 21 dias, a campanha petista recuperou o ânimo, reorganizou suas forças e conseguiu assegurar por um fio a recondução de seu líder.

O feito ganha dimensão ainda maior diante da força do antipetismo, do enraizamento do bolsonarismo na sociedade e do desejo de mudança que impulsionaram a candidatura de Flávio. A conquista, porém, não elimina as dificuldades que esperam o presidente.

Lula terá de extrair lições não apenas da campanha, mas dos quatro anos que quase lhe custaram a reeleição. Diante de um Congresso ainda mais adverso do que aquele eleito em 2022, precisará ampliar alianças, compartilhar poder e romper o isolamento que marcou boa parte de seu terceiro mandato.

O “Lula imperial”, como o descrevem alguns aliados, acostumado a centralizar decisões, cercado de uma corte restrita, terá de dar lugar ao articulador e ouvinte, que construiu sua trajetória negociando e costurando acordos. O presidente também precisará entender melhor o país que governará pela quarta vez.

Terá de se reaproximar de parcelas importantes da sociedade, sobretudo entre evangélicos e integrantes da classe C. E deixar de confiar excessivamente que o crescimento econômico e a melhora dos indicadores sociais seriam suficientes para garantir reconhecimento popular.

Precisará olhar com mais atenção para o orçamento das famílias, o endividamento e o custo de vida. E reconhecer que a defesa da democracia e da soberania nacional, que ele quis colocar como marcas de seu terceiro mandato, são valores abstratos para boa parte da população diante das dificuldades da vida real.

Outra lição é que a derrota de Flávio não significa o fim do bolsonarismo. Lula subestimou a força política do adversário e demorou a perceber que a condenação da tentativa de golpe de 2023 não teria o peso eleitoral que imaginava.

O antipetismo continua vivo e a direita sai das urnas com uma presença expressiva no Congresso. A vitória não lhe dará um cheque em branco nem permitirá ignorar a profunda divisão da sociedade brasileira.

⏩ Pela frente: Uma das maiores incógnitas a respeito do quarto mandato é sobre como Lula pretende governar. Ele poderá optar por uma inflexão ao centro, fazendo mais concessões aos partidos do Congresso, inclusive na distribuição dos ministérios com maiores orçamentos.

Ou recorrer à força das ruas, ressuscitada durante a campanha, e à mobilização nas redes, que o PT aprendeu a explorar sob a liderança de André Janones, para pressionar a classe política em Brasília e defender as bandeiras dos setores sociais que jamais soltaram sua mão. Os dois caminhos não são necessariamente excludentes, mas a escolha da ênfase dirá muito sobre o perfil do Lula 4.

🔖 Leia também: Lula atribui virada histórica à juventude e fala em proteger Brasil de interferência estrangeira

UMA MENSAGEM DO JOTA Antecipe os movimentos do novo governo Lula

O resultado das urnas encerrou a eleição, mas até o final do ano teremos uma nova etapa: a formação do novo governo, a relação com o Congresso e a definição das pautas que avançam primeiro. Por isso, acompanhar o resultado não basta para a sua empresa decidir com segurança.

É preciso entender o que esses movimentos significam para o seu setor antes que eles se tornem regra, e é isso que o JOTA PRO Poder entrega. O serviço de inteligência corporativa do JOTA monitora os Três Poderes e reúne análises de bastidores e de cenário para que a sua organização antecipe riscos regulatórios e políticos.

Conheça aqui. 2.

Lula 4 e a economia O ministro da Fazenda, Dario Durigan / Crédito: Wagner Araújo/Fotoarena/Estadão Conteúdo

A depender de seu ministro da Fazenda, Dario Durigan, Lula vai anunciar algum tipo de correção de rota nas contas públicas após as eleições — embora não se saiba ainda de que tamanho, Fábio Pupo escreve no JOTA PRO Poder. O chefe da equipe econômica afirmou nos bastidores ao longo dos últimos meses que, independentemente quem vencesse, seria necessário apresentar um aceno mais firme ao mercado em termos de equilíbrio fiscal.

Por que importa: Um dos primeiros passos nessa direção vai ser a modificação da proposta orçamentária de 2027. A peça foi enviada em agosto ao Congresso com uma gordura de apenas R$ 10 bilhões em relação ao centro da meta (de 0,5% de superávit).

Como depois do envio do texto houve anúncio de diferentes medidas que expandem gastos — como o reajuste do Bolsa Família (mais R$ 22,7 bilhões em 2027) —, será preciso ajustar os números para fazer com que essas iniciativas recebam recursos. Esse movimento já pode se traduzir em uma oportunidade para se acenar ao mercado e fazer com que todas as adições de medidas sejam neutras do ponto de vista fiscal.

Além disso, apresentar um resultado sem piora em relação a agosto pode ajudar a acalmar os ânimos para o ano que vem. Ainda assim, é esperado que o mercado exija um aceno mais contundente para os anos seguintes.

💸 Panorama: Porta-voz da campanha presidencial na economia, Durigan defendeu durante a campanha presidencial diferentes ideias para conter a trajetória dos gastos públicos. Entre as propostas mais importantes, está a diminuição do limite máximo de crescimento das despesas anuais do arcabouço fiscal, atualmente em 2,5% ao ano.

Isso causaria um efeito cascata em várias frentes, como no teto de reajuste do salário mínimo e nos pagamentos do BPC (Benefício de Prestação Continuada). Para isso ser mais efetivo e não cortar verbas para investimento, no entanto, precisariam ser feitos ajustes nas regras de despesas obrigatórias.

Entre os itens que poderiam passar por mudanças, Durigan citou mudanças no piso de saúde e educação. O tema ainda precisaria passar por discussão e inclusive convencer a bancada da esquerda no Congresso.

Mas discussões do tipo já passaram recentemente pelo Parlamento sem grandes obstáculos. Por exemplo, a limitação (ao teto do arcabouço, atualmente de 2,5%) do crescimento do salário mínimo.

Outra mudança já implementada sem grandes resistências pelo governo foi a mudança no cálculo da Receita Corrente Líquida, que diminuiu o crescimento do piso da saúde. 3.

Lula 4 e o Congresso Hugo Motta e Davi Alcolumbre aplaudem discurso de Lula na promulgação da PEC pelo fim da escala 6×1, no Congresso / Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

Lula iniciará o quarto mandato diante de um Congresso Nacional mais à direita, com o PL à frente das maiores bancadas da Câmara e do Senado, Maria Eduarda Portela escreve no JOTA PRO Poder. O desafio será ampliado pelo controle dos parlamentares sobre as emendas, que representam 25% das despesas não obrigatórias do governo federal e reforçam o poder de negociação do Legislativo.

Por que importa: Nesse cenário, a capacidade do Palácio do Planalto de aprovar propostas dependerá não apenas de acordos com os partidos de centro, mas também da relação com os presidentes da Câmara e do Senado, responsáveis por conduzir as pautas legislativas. Apesar do avanço bolsonarista, as legendas de centro continuarão decisivas para a formação de maiorias.

A Federação União-PP terá 87 deputados, enquanto o PSD contará com 43. São bancadas que poderão garantir apoio ao governo, mas também ampliar o custo político das negociações.

A nova correlação de forças exigirá de Lula uma articulação permanente com diferentes grupos do Congresso. 🔮 O que observar: Terão papel central nesse processo os presidentes das duas Casas, Hugo Motta, na Câmara, e Davi Alcolumbre, no Senado — que articulam a permanência nos cargos em 2027.

Motta já se movimenta para construir uma maioria capaz de garantir sua reeleição e conta com o apoio do Republicanos, da Federação União Brasil-PP, do PSD, MDB, Podemos, Federação PSDB-Cidadania, Federação Solidariedade-PRD, PSB, PDT e PV. Juntas, essas bancadas terão 239 deputados a partir de 2027, número que ainda poderá sofrer alterações com eventuais trocas partidárias antes da posse.

Alcolumbre também intensificou as articulações para permanecer na presidência do Senado. Ele assumiu pessoalmente as negociações sobre a distribuição de gabinetes e apartamentos funcionais aos parlamentares eleitos, em uma estratégia para ampliar sua base de apoio.

Como mostrou o JOTA, Alcolumbre também conta com dissidências à direita, inclusive dentro do PL, para viabilizar sua reeleição. 4.

A verdadeira face Flávio Bolsonaro fala a jornalistas na noite deste domingo (25/10), após a confirmação da derrota / Crédito: Frederico Brasil/The News 2/Estadão Conteúdo

O candidato à Presidência derrotado no segundo turno, Flávio Bolsonaro, não reconheceu o resultado do segundo turno e defendeu a anulação das eleições deste domingo (25). 💥 Panorama: Ele criticou a prorrogação da votação das 17h às 19h pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, decidida após problemas no transporte público em várias cidades, como São Paulo e Salvador.

“Um ministro da Suprema Corte, que não é membro da Corte eleitoral, alterou o funcionamento das eleições pela primeira vez na história”, disse o senador no primeiro discurso após o resultado. Sim, mas… Flávio também pediu a prorrogação do horário ao TSE: a decisão de Zanin atendeu a ambas as campanhas.

“Nos lugares onde as urnas ficaram abertas, eu nunca vou saber quantos votos eu teria”, afirmou. O candidato perdeu o segundo turno por 4,4 milhões de votos.

🔖 Leia também: Direita passa a comandar 15 estados no país

5. Planos frustrados

O ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar / Crédito: Wilton Junior/Estadão Conteúdo A derrota de Flávio Bolsonaro frustrou os planos de Jair Bolsonaro de manter a liderança da direita nas mãos da família, Marianna Holanda escreve no JOTA PRO Poder.

O ex-presidente contrariou aliados que defendiam uma candidatura à Presidência mais competitiva. Ele terá que lidar com o peso do fracasso eleitoral por ter escolhido o primogênito e deve continuar preso por liderar a trama golpista de 2022.

O resultado tende a ampliar as dificuldades jurídicas enfrentadas por integrantes do clã. Vivendo nos Estados Unidos, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro tem um mandado de prisão expedido pelo STF.

⏩ Pela frente: Flávio deixará o Senado e seu futuro é incerto. Na campanha, aliados disseram que ele poderia até deixar o Brasil com a família.

Além disso, ele é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro em um processo com o amigo Willer Tomaz. 🔮O que observar: O resultado pode abrir espaço para a direita criar alternativas menos dependentes da família Bolsonaro.

Entre elas, estão Tarcísio de Freitas e, a longo prazo, Nikolas Ferreira, de 30 anos. Ao contrário do PT, que custa a achar sucessores para Lula, a direita tem vários nomes com potencial nacional.

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