247 – O empresário Josué Gomes da Silva afirmou neste sábado (7), em artigo publicado pela Folha de São Paulo, que o Brasil precisa encerrar a interdição imposta ao debate sobre a taxa de juros e construir um pacto nacional para recuperar a capacidade de crescimento da economia. Mais de um ano após defender a criação de um novo Plano Real, Gomes avaliou que a urgência daquela convocação aumentou diante do custo extraordinariamente elevado do dinheiro.
Segundo ele, a reação desproporcional dos mercados financeiros aos resultados das eleições revelou frustração de expectativas de investidores, mas ressaltou que o mercado não recebeu das urnas o mandato para ditar sozinho a organização do ajuste fiscal brasileiro. Mercado rejeita debate e impõe censura prévia à política monetária
A discussão econômica nacional enfrenta barreiras institucionais e políticas severas, conforme apontou o empresário ao criticar o isolamento de propostas alternativas. Para Gomes da Silva, estabeleceu-se uma espécie de interdição ao debate sobre os juros no país, onde propostas que extrapolam o corte linear de despesas públicas são sumariamente desqualificadas.
O debate suscitado pelo trabalho técnico do economista André Lara Resende foi citado como exemplo dessa dificuldade, demonstrando que a sociedade não pode transformar em tabu a discussão sobre o custo mais elevado da economia e a necessidade de rever as premissas da política monetária vigente.
A autonomia do Banco Central, embora tratada como conquista institucional importante, não significa ausência de debate ou imunidade à crítica pública. Segundo Gomes da Silva, é fundamental reconhecer que a política monetária precisa ser discutida abertamente, sem que suas premissas sejam tratadas como dogmas intocáveis.
Uma sociedade que pretende resolver problemas complexos necessita de coragem para pensar diferente, generosidade para ouvir e maturidade para construir soluções que compatibilizem estabilidade monetária, equilíbrio fiscal e queda sustentável do custo do crédito. Peso dos juros nominais sufoca contas públicas e endividamento estrutural
O equacionamento das contas do Estado não pode se limitar apenas ao resultado primário, ignorando o impacto avassalador das despesas financeiras sobre o orçamento federal. Nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, os juros nominais do setor público custaram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% do PIB, enquanto o déficit nominal se aproximou de 10% do PIB.
Para Gomes da Silva, torna-se indispensável reconhecer o peso do serviço da dívida nessa equação, pois não há como discutir a sustentabilidade fiscal a longo prazo ignorando um custo dessa magnitude. O endividamento generalizado de indivíduos, famílias, empresas e governos exige uma resposta coordenada que vá além da retórica fiscalista tradicional.
Embora a revisão de despesas, o combate aos desperdícios, a eliminação de privilégios e a avaliação de subsídios sejam essenciais, o ajuste não pode simplesmente transferir a conta para os programas sociais e para as parcelas da população que mais dependem da atuação do Estado. O empresário destacou a característica nacional em que todos defendem o ajuste desde que seja feito à custa dos outros, com a resistência de cada segmento em sacrificar os próprios interesses.
Pacto nacional busca construir alternativas sem transferir sacrifícios sociais A superação dos atuais entraves econômicos passa pela reunião da inteligência nacional em torno de uma mesa de diálogo, com o objetivo de construir um diagnóstico comum e avaliar alternativas viáveis.
O Plano Real histórico foi bem-sucedido porque o país conseguiu superar divergências profundas e estabelecer um consenso em torno de um objetivo maior, capacidade esta que precisa ser resgatada para enfrentar o cenário atual. Com o término do processo eleitoral e o esvaziamento das apostas especulativas de parte do mercado, os problemas estruturais brasileiros continuam a exigir respostas concretas.
A prioridade econômica deve abandonar a disputa estéril sobre quem deve arcar com o sacrifício e concentrar-se em como tornar o ônus menor para toda a sociedade. Sem a disposição coletiva para o diálogo e a construção conjunta de saídas, o Brasil continuará preso a patamares de juros que sufocam o presente e comprometem irremediavelmente o futuro das próximas gerações, um luxo que o país não pode mais se permitir.
Brasil 247