Há projetos de vinho que nascem com vocação comercial, planejamento definido e a ambição de conquistar espaço no mercado. Outros seguem um caminho bem diferente.
O Milimétrico pertence a essa segunda categoria. Sua história começou há mais de duas décadas, quase como uma brincadeira entre amigos, sem maiores pretensões além de produzir bons vinhos para consumo próprio.
O que ninguém imaginava era o trabalho, a dedicação e, sobretudo, a persistência que seriam necessários para chegar aos resultados de hoje. Agora, depois de uma longa trajetória, o projeto finalmente chega ao mercado brasileiro, com distribuição da Zahil.
Acompanhei essa história desde o início, em meados dos anos 2000, quando um amigo decidiu dar uma finalidade a uma propriedade de aproximadamente dez hectares, situada nas proximidades de Mafra, a cerca de 40 minutos ao norte de Lisboa e apenas 6 quilômetros do Atlântico. Era uma área praticamente intocada, numa região sem tradição vitivinícola e que, a princípio, não parecia reunir credenciais especiais para a produção de vinhos.
A propriedade ocupa uma pequena elevação, cujo ponto mais alto havia abrigado um moinho, implantado pelos antigos proprietários. A proximidade do oceano, a brisa constante e um clima relativamente fresco, com umidade mais baixa do que se poderia imaginar para uma zona costeira, acabaram se revelando características interessantes para o cultivo da vinha.
A ideia inicial era reservar uma pequena parcela para plantar algumas castas e produzir vinho para nós mesmos. Nada de grandes volumes ou planos de comercialização.
Mas havia uma condição inegociável: os vinhos precisavam ter qualidade, estar à altura daqueles que costumávamos conhecer e beber em nossas viagens. Como não existiam referências suficientes sobre o comportamento das diferentes variedades naquele terroir, resolvemos experimentar.
Entre as escolhas estava a riesling, uma casta que sempre apreciamos, embora soubéssemos que as condições locais eram bastante distintas daquelas em que tradicionalmente encontra seu habitat. Não foi uma decisão propriamente convencional.
A riesling é exigente, e trabalhar com ela num lugar sem histórico vitícola representava um desafio considerável. Mas, diante da dimensão reduzida do vinhedo, que permitiria produzir no máximo cerca de 1.500 garrafas anuais, parecia valer a pena correr o risco.
Outras variedades também foram testadas, algumas sem continuidade. Entre as tintas, a alicante bouschet foi a que acabou se mostrando mais promissora, apesar de não estarmos numa região quente, como normalmente se espera dessa casta.
A primeira vindima aconteceu em 2013. Foi quando percebemos que plantar as videiras e esperar que a natureza fizesse sua parte era apenas o começo.
Para obter uvas no padrão que pretendíamos, tornou-se necessário um trabalho minucioso, praticamente artesanal, tanto no manejo do vinhedo quanto na colheita e na seleção dos cachos. A triagem é rigorosa, praticamente bago a bago, e não é raro descartar uma parcela significativa da produção.
Em alguns anos, chega a 20%. No caso da alicante bouschet, o cuidado é ainda maior: a condução das videiras exige atenção permanente, a produtividade precisa ser bastante limitada e a maturação não acontece necessariamente de maneira uniforme.
Por isso, a vindima pode exigir até três passagens pelo mesmo talhão, recolhendo apenas os cachos que atingiram o ponto desejado. Para compor com a personalidade mais austera da alicante bouschet, foram implantadas duas pequenas parcelas de merlot.
A intenção era acrescentar ao corte uma dimensão mais macia e um caráter frutado, sem descaracterizar a identidade portuguesa que buscávamos. A combinação funcionou bem e se consolidou nos primeiros blends.
Embora seja uma variedade relativamente fácil de cultivar, a merlot nunca foi pensada para dar origem a um vinho varietal. Seu papel é complementar, contribuindo para o equilíbrio do conjunto.
O nome Milimétrico traduz bem o espírito do projeto. Tudo é feito em pequena escala e com uma preocupação quase obsessiva com os detalhes.
Não há espaço para grandes volumes, atalhos ou concessões. Cada etapa depende de decisões precisas, desde a condução das videiras até a definição do momento da colheita e a composição final dos vinhos.
É um trabalho que exige disponibilidade e acompanhamento constante, algo que pude experimentar pessoalmente ao longo desses anos. Em 2010/2012, Bernardo Pinto, DipWSET, também passou a integrar o projeto.
Durante boa parte da trajetória, as uvas eram levadas para vinificação numa adega de conhecidos, a cerca de meia hora da propriedade, que dispunha de estrutura profissional e equipe especializada. Eu costumava permanecer por aproximadamente um mês durante a vindima e voltava outras vezes ao longo do ano para acompanhar a evolução dos vinhos nas barricas e participar das decisões relativas aos cortes.
O cotidiano, naturalmente, ficava a cargo do proprietário, que sempre esteve à frente do empreendimento. Uma nova etapa começou com a construção de uma adega própria, concluída pouco antes da vindima de 2022.
Ter instalações independentes significava assumir também a responsabilidade integral pela vinificação, com todas as exigências técnicas e operacionais que isso envolve. Para essa tarefa, contamos com a assessoria de um casal que dispensa apresentações no universo do vinho português: Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges.
Ambos são nomes consagrados, com projetos de grande relevância no Douro, entre eles o Pintas, a Quinta da Manoella e o Guru. A experiência e o conhecimento dos dois foram fundamentais para orientar essa nova fase, sem que o projeto perdesse suas características originais.
É curioso olhar para trás e constatar como uma iniciativa despretensiosa acabou adquirindo uma dimensão que jamais esteve nos planos iniciais. Durante muito tempo, os vinhos permaneceram restritos ao círculo de amigos e conhecidos.
Em algumas ocasiões, mencionei o projeto em meus artigos, despertando a curiosidade de leitores. Em 2023, cheguei a contar parte dessa história, quando ainda não havia qualquer perspectiva de comercialização.
Agora, o Milimétrico finalmente chega ao mercado brasileiro. Os três vinhos apresentados nesta primeira etapa são da safra 2016, completando dez anos desde sua elaboração.
Desde o começo, procuramos privilegiar frescor, acidez e equilíbrio, sem recorrer a níveis elevados de álcool ou a uma presença excessiva da madeira. São escolhas que refletem a intenção de preservar a identidade do lugar e a personalidade das castas, sem buscar concentração ou potência a qualquer preço.
Mais do que apresentar um novo vinho português, esse lançamento representa a conclusão de uma etapa e o início de outra. Para mim, que acompanho sua evolução desde os primeiros passos, há uma satisfação especial em ver essas garrafas saírem do ambiente quase privado em que foram concebidas e encontrarem novos apreciadores.
Afinal, se há algo que aprendi nessa experiência é que produzir vinho, mesmo em escala diminuta, exige muito mais do que boas uvas e boas intenções. Exige tempo, paciência, conhecimento e uma disposição permanente para perseguir um resultado que nunca está garantido.
Jorge Lucki escreve neste espaço semanalmente. E-mail: Colaborador-jorge.lucki@valor.com.br
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