Bom dia, boa tarde, boa noite, a depender da hora em que você abriu esse e-mail. Sou o editor de Política e Brasil do GLOBO e nessa newsletter você encontra análises, bastidores e conteúdos relevantes do noticiário político.
No ano passado, a newsletter “Jogo Político” ouviu doze dos maiores marqueteiros e donos de institutos de pesquisa do Brasil em busca de projeções para a corrida presidencial de 2026. A um dia do fim da campanha entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro, (PL) conversamos novamente com oito dos 12 estrategistas que estiveram nas páginas do e-book “Quem será o próximo presidente?”, publicado em setembro de 2025 pelo GLOBO com base nas entrevistas feitas ao longo do primeiro semestre.
Relembrar frases ditas no passado por profissionais que respiram política 24 horas por dia evidencia a complexidade de prever o futuro em tempos tão turbulentos. Não quiseram dar palpites sobre o próximo domingo Sidônio Palmeira e Duda Lima, marqueteiros de Lula e Flávio, Felipe Nunes, CEO da Quaest, João Santana, ex-marqueteiro de Lula e Dilma Rousssef; e Pablo Nobel, estrategista de Tarcísio de Freitas.
O marqueteiro de Romeu Zema na campanha eleitoral foi o primeiro entrevistado da série. Ao contrário de muitos que consideravam que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seria o candidato natural escolhido pela direita, Pereira projetou corretamente que alguém da família Bolsonaro estaria na urna esse ano.
Depois de apostar que a eleição seria de mudança e que poderia haver espaço para um outsider se destacar, o marqueteiro agora aposta na virada de Lula no segundo turno. — Em 2023, nas eleições municipais na Espanha, houve vitória contundente da direita representada por PP e Vox contra o PSOE da esquerda.
Logo depois, o primeiro-ministro Pedro Sánchez convocou eleições legislativas, em uma atitude considerada suicida. Ali, ele mudou o eixo da disputa e transformou a disputa que antes avaliava o governo de centro-esquerda dele em uma corrida sobre o avanço da extrema-direita.
Sanchéz está no poder até hoje e é o que vai acontecer no Brasil. O primeiro turno foi sobre Lula e houve um desejo por mudança.
O segundo é sobre Bolsonaro. Os brasileiros vão dizer 'não' duas vezes na mesma eleição.
Lula vencerá. Vencedor da eleição no Rio com o candidato Douglas Ruas, o marqueteiro apontou em 2025 dificuldades para Lula se reeleger devido a problemas na comunicação.
"O presidente e o PT precisam perceber que envelheceram", disse Vasconcelos, que também já previa, em 2025, um gargalo na estratégia de apenas martelar conquistas de governos petistas do passado. Estrategista de Ronaldo Caiado até agosto, ele reconhece que esperava um desempenho maior da terceira via esse ano.
— Pesquisas qualitativas mostravam um desejo no eleitor de menos briga e mais leveza nas campanhas. Cerca de 32% de pessoas não queriam nem Lula nem Flávio.
Mas os candidatos não aproveitaram a oportunidade — diz Vasconcelos, para depois dar dar o seu palpite sobre domingo — Acho muito difícil uma virada do Lula. As manifestações nas ruas mobilizaram apenas quem já votou em PT e PL no primeiro turno, foram desfiles de escola de samba de convertidos.
Escolhido para substituir Vasconcelos na campanha de Caiado, o marqueteiro segue com a mesma opinião de 2025 e acha a direita favorita no domingo, embora menos do que já considerou antes. Carvalho reconhece, no entanto, que superestimou a capacidade de candidaturas fora da polarização de conseguir decolar na campanha.
— Se eu tiver de arriscar um nome, diria Flávio, por uma margem mínima. O Datafolha aponta empate, e a disputa está aberta até o último voto.
Lula chega competitivo e qualquer movimento de última hora pode decidir a eleição — afirma o marqueteiro, que também analisou o seu cliente. — Dizia que Caiado poderia ser um nome viável pela experiência de gestão e pela capacidade de dialogar com o centro.
A força do campo anti-Lula se confirmou, mas o ex-governador não encontrou escala nacional. O marqueteiro da campanha de Eduardo Paes foi um dos raros entrevistados do ano passado que previu a vitória de Lula esse ano .
Ele acreditava nos números positivos da economia, na agenda de soberania contra Donald Trump, na direita esfacelada e no aspecto subjetivo ligado à trajetória do petista: "Ele é uma espécie de Romário da política, o escolhido, a história dele é contra todas as possibilidades, against all the odds", disse em 2025.
— Estruturalmente, o governo, a história e a narrativa do Lula são bem superiores para o eleitorado que não é lulista nem bolsonarista. O discurso do Flávio de mudança é uma farsa que surfa na teoria anti-incumbente.
Estava dando certo até a campanha do Lula conseguir mostrar que ele não é nem a mudança nem o novo. É simplesmente a volta do muito mal avaliado governo do pai dele — , diz Faulhaber, para concluir elencando novos fatores que não estavam no seu radar ano passado.
— Entretanto, há fatores que desequilibram a disputa em favor do Flávio. A atuação de André Mendonça e Nunes Marques no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE); A atuação da Meta; O dinheiro das bets e do crime organizado nas ruas; e o excesso de participação da Janja na campanha do Lula por personificar todos os sentimentos por trás do antipetismo.
O fator Janja como elemento relevante da dificuldade de Lula em ampliar apoios no terceiro mandato foi apontado pelo marqueteiro que já fez 35 campanhas majoritárias no Brasil e na América Latina, entre elas as vitoriosas de João Dória para o governo de São Paulo, em 2018, e a de JHC, em 2020, para a prefeitura de Maceió.
Mendez, que passou o ano passado sendo consultor de imagem do presidente da Câmara, Hugo Motta, afirma que da sua entrevista até hoje o bolsonarismo se consolidou como uma força ainda maior. — É como se fosse um sistema religioso.
O Concílio se juntou em dezembro e o Papa Jair Bolsonaro escolheu o filho como o representante. Quem contestou, se ferrou.
Não há vida própria na direita fora do bolsonarismo. Veja o Ratinho Junior no Paraná.
Teve 80% de aprovação durante o mandato e não conseguiu eleger o sucessor - diz Mendez, mantendo o seu palpite de 2025 -— Acho muito difícil o Lula tirar votos do Flávio, ou convencer a turma que se absteve a ir votar. Seriam fatos que nunca aconteceram na história.
Fundador do Ideia e colunista do GLOBO, Moura vem batendo na tecla desde o ano passado sobre a dificuldade global de presidentes eleitos serem aprovados em seus países e conseguirem se reeleger. Quando deu a entrevista no ano passado, afirmou ter estudado 21 eleições em nações democráticas do mundo que terminaram com a vitória da oposição em 17 oportunidades.
Moura considera que a sua entrevista continua atual porque o governo não conseguiu melhorar a avaliação ao longo de 2026. — A pergunta central da eleição foi se o governo merecia continuar.
Está sendo um plebiscito sobre isso. Os caminhos de vitória do Flávio no domingo são mais óbvios.
O Lula precisa virar o voto de eleitores que votaram no adversário no primeiro turno. Ele conseguiu fazer isso em 2006 na disputa contra Geraldo Alckmin num outro contexto.
O antipetismo de chegada mais uma vez apareceu. Dono do Instituto Locomotiva e colunista do GLOBO, Meirelles afirmou, em 2025, que Lula era o favorito e ainda mantém a posição de que o petista pode vencer domingo, embora reconheça a consolidação de um mal estar econômico que não estava no seu radar.
— O dia a dia econômico não está fácil para os brasileiros e isso criou um mal estar que favoreceu o discurso contra quem está no poder. Mas a campanha só começou no segundo turno.
Antes estávamos discutindo apenas terras raras e o STF. Agora que as pessoas começaram a falar sobre quem é Flávio Bolsonaro e não podemos esquecer de 2006 quando Geraldo Alckmin perdeu 2 milhões de votos de um turno para o outro contra o próprio Lula.
O maior vencedor da história das eleições presidenciais — com os sucessos em 2006 (Lula) e 2010 e 2014 (Dilma Rousseff) — via problemas para a esquerda e para a direita na entrevista de um ano atrás. Agora, mais uma vez, mantém-se em cima do muro para prever o resultado das urnas amanhã:
— É imprevisível. Qualquer um dos dois pode ganhar.
Mas me parece que o maior desafio para Lula ou Flávio não é vencer. Mas, sim, terminar o mandato em caso de triunfo.
Porque ganhe quem for, as crises econômica, institucionais e de governabilidade serão de magnitude gigantesca. Entrevistado na semana passada pela newsletter, o antropólogo Juliano Spyer é hoje um dos intelectuais brasileiros que menos olha com preconceito o fenômeno do crescimento dos evangélicos no país.
Por isso, acaba criticado em alguns momentos por colegas da academia por "passar pano" para determinadas igrejas no debate sobre as instituições envolvendo valores e envolvimento com a política. Na conversa que tivemos depois da entrevista, Spyer me perguntou o que via de diferente em "O Brasil dos evangélicos" na comparação com "Crentes" e "Povo de Deus" - seus outros dois livros publicados em 2020 e 2025.
Respondi que achava a obra a mais crítica de todas que ele já escreveu até hoje. No livro e em suas colunas semanais no jornal Folha de S.
Paulo, Spyer costuma abordar o temor que a elite intelectual tem dos evangélicos virarem maioria no país e o reflexo desse avanço na vida política e cultural brasileira. Embora o livro tenha muitos momentos em que ressalta os aspectos positivos do trabalho das igrejas pelo país, há muito espaço dado para as contradições embutidas no avanço evangélico.
A começar pelo posicionamento que faz com clareza sobre a pauta do homeschooling: "A defesa do homeschooling revela como o campo evangélico é plural e disputado.
Este é um projeto elitista, associado a interesses econômicos e políticos, que promove, irresponsavelmente, a ideia de que os evangélicos pobres e com baixa escolaridade devem ter medo das escolas". O capítulo 3 a partir da página 69 traz o relato de mulheres convivendo com preconceito dentro das igrejas a partir do momento que decidiram se separar.
Abaixo o depoimento impactante de uma delas: "Hoje sou uma espécie de mula sem cabeça para a comunidade da igreja que eu frequentei por vinte anos como esposa de pastor - e por muito mais tempo como membro.
Ao me separar, perdi toda a rede de amizades ligada à igreja, pessoas que acolhi em casa, ajudei, vesti seus entes queridos quando morreram, ensaiei coral, cuidei dos filhos. Nunca mais me cumprimentaram nem me perguntaram se meus filhos e eu estávamos bem, se tínhamos contas para pagar".
O Globo