Professora e pesquisadora da University College Dublin, na Irlanda, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado é autora do livro “Amanhã vai ser maior: O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual”, lançado em 2019. Segundo ela, a vantagem obtida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) na votação presidencial no primeiro turno e o avanço da direita no Congresso se devem à conquista do apoio de parcelas da população denominadas “classes aspiracionais”.
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Sem lembrança do impacto das políticas públicas criadas no início do século e com o desejo de ascender socialmente, o segmento tem relatado frustração com o atual governo e, em parte, se identificado com um discurso libertário propagado por políticos, influenciadores e coaches de direita.
Você criou o conceito de classes aspiracionais. O que elas são?
Um produto dos países emergentes do século XXI. Não é um fenômeno brasileiro, mas aqui estão muito marcadas pelas políticas dos governos Lula.
Nesses períodos, tiveram a sua capacidade de sonhar e de ver uma possibilidade de ascensão social ampliadas. Tiveram acesso ampliado ao consumo e à política de redistribuição de renda, mas se mantiveram na precaridade.
Isso gera uma bomba política. Esses eleitores querem mais, querem crescer, mas esbarram numa realidade difícil.
Como o ressentimento e a raiva impactam as opiniões políticas desse grupo? Nas classes aspiracionais, a frustração vem como um processo de perceber o Estado como algo que mais atrapalha que ajuda.
Elas começam a perder a memória das políticas sociais e dos direitos adquiridos pelo governo. A frustração vem de uma sensação do presente, de ver o seu poder de compra diminuído, e elas associam isso ao atual governo.
Forma-se a percepção de que Estado, governo e democracia são sinônimos de algo ruim, disfuncional, e que a batalha diária do sujeito é só por ele e sua família. “Amanhã vai ser maior: O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual”, o livro de Rosana Pinheiro-Machado
Reprodução Por isso essas pessoas tendem a votar na direita?
Elas procuram narrativas que justifiquem essa frustração. E as políticas populistas, principalmente da extrema-direita, conversam com isso a partir de um discurso vago.
Não oferecem projeto algum, mas vão achando culpados. Apontam o dedo, por exemplo, para os que precisam do Bolsa Família.
A partir dessa retórica, a extrema-direita se põe como antissistema e diz que é preciso destruir esse Estado corrupto. Isso alimenta um senso de merecimento precário: a ideia de que sou um pouco melhor que o outro, então, preciso negar esse outro para me sentir melhor.
Se os mais pobres são considerados marginais, vagabundos, é preciso dizer: “Eu não sou esse pobre vagabundo”. Debate final: na TV Globo, Flávio e Lula trocam cobranças e ataques, enquanto buscam explorar pontos fracos do rival
Como a plataformização do trabalho e as redes sociais impactaram, até aqui, a percepção desses eleitores? A partir da plataformização e do pós-pandemia, o que vimos de novo foi um componente libertário, para além do conservadorismo e do autoritarismo.
Esse sujeito que se vê sozinho e enxerga que o Estado atrapalha começa a navegar no mundo em que a extrema-direita vai muito bem, o do novo empreendedorismo. Isso inclui o ambiente do marketing digital, dominado por uma rede de criptomoedas, de investimentos, de uma linguagem financeira e de enriquecimento individual.
Esse universo que se formou na internet, a partir de influenciadores e coaches, virou uma elite digital com uma força política. A gente viu a surpresa do Pablo Marçal.
Eles dominam essa linguagem e são os únicos a falar para esses milhões que hoje são empreendedores digitais ou aspirantes a empreendedores digitais. É um discurso que vem disfarçado como estilo de vida, com informação sobre dinheiro, cripto.
Esse discurso vai compondo esse novo segmento que eu estou chamando de “autoritariado”, que é conservador, autoritário, mas cada vez mais libertário. Ele vê no indivíduo a única força de crescimento e de prosperidade.
Esse movimento explica a vantagem de Flávio em relação a Lula no primeiro turno e o avanço da direita no Congresso? Nos últimos anos, tenho defendido que segmentos dessas classes aspiracionais foram seduzidos, não manipulados, e encontram respostas para seus projetos de vida na extrema-direita.
Esse movimento, assim como qualquer movimento político nessa grande base da pirâmide social, vai decidir uma eleição. Nordestinos, católicos, com ensino superior: Quaest revela os grupos mais engajados na disputa entre Flávio e Lula
O que impede a esquerda do PT e o restante da esquerda de chegar a este movimento? Ainda há uma grande parte do Brasil que rejeita essa extrema-direita, mas vê em determinados projetos a possibilidade de ascensão social e reconhece que essa ascensão é lenta, demorada e envolve muito esforço.
A gente está falando de metade desse segmento que compõe as “classes aspiracionais”. Não é que exista exatamente uma derrota de lavada do PT.
As classes aspiracionais são muito divididas e, hoje, tendem à extrema-direita. Mas isso não quer dizer que a gente não tenha dezenas de milhões que seguem ali, fazendo com que essa eleição seja pau a pau.
O PT põe todas as suas fichas em outra direção, focando mais no mercado formal e nos trabalhadores formais, que ainda são milhões. Mas começa a entender que a autonomia e o tempo livre são importantes, reconhecendo que esse trabalhador mudou e quer tempo para outras coisas, inclusive para empreender.
Nisso, o discurso adotado sobre o fim da 6x1 é importante por ir ao encontro do desejo do trabalhador. Ilha do Richarlisson? Entenda a disputa do jogador com advogado amigo de Flávio, citada por Lula no debate da TV Globo
O Globo