Aliados de Flávio Bolsonaro (PL) avaliaram positivamente o desempenho do senador no debate com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas apontaram “derrapadas” em dois momentos: ao provocar o petista com a expressão “nove dedos”, durante a discussão sobre tarifa zero, e ao abordar o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um disparo de policial militar em Niterói (RJ), em 2021.
Na avaliação de interlocutores do senador, o saldo geral foi favorável, apesar dos episódios que chamaram a atenção durante o confronto. No primeiro caso, depois de ser questionado por Lula sobre sua opinião a respeito de tarfia zero, Flávio passou a criticar Lula afirmando que não adiantava o presidnte “dar com uma mão e tirar com os nove dedos”, em referência à perda de um dedo da mão esquerda pelo presidente em um acidente de trabalho, quando era metalúrgico.
A provocação levou Lula a reagir. O presidente disse que não permitiria ser chamado daquela forma pelo adversário e o chamou de “miliciano”.
— Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos.
E Eu quero que ele saiba de uma coisa: se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando à noite.
Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos — afirmou Lula. Na sequência, Flávio pediu desculpas ao presidente pela expressão usada.
— Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de “nove dedos”, eu te peço desculpas, de verdade. Não queria te ofender.
Te peço desculpa de verdade — disse o senador. Entre aliados, o episódio foi visto como uma derrapada, mas o pedido de desculpas também foi interpretado como um gesto positivo e demonstraçã de “grandeza” de Flávio por admitir que também pode errar.
Eles destacaram ainda que Flávio reconheceu ter votado contra o aumento da licença-maternidade de servidores do Rio, em outro momento do debate, reforçando o argumento. O segundo ponto de crítica entre interlocutores do senador foi a abordagem do caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um disparo de policial militar na porta de casa.
Ao responder a Lula sobre sua atuação como advogado de defesa do PM acusado pelo disparo, Flávio se dirigiu à mãe da criança, Cristiane Gomes, pelo nome da filha. — Ana Clara, eu quero falar para a senhora e prestar de verdade a minha solidariedade.
Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filhinha de 5 anos.
Era uma troca de tiros em uma comunidade conflagrada, a senhora sabe que tem o tráfico de drogas aí — afirmou o senador, ao argumentar que a morte ocorreu durante um confronto. A fala provocou reação de Cristiane, que acompanhava o debate na plateia e se levantou para dizer que ainda não havia recebido uma resposta sobre os motivos que levaram Flávio a defender o policial.
Ela contestou a versão de que a morte teria ocorrido em uma troca de tiros e afirmou que o senador não conhecia a história do caso. Na preparação para o confronto, Flávio contou com a ajuda do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que o auxiliou com informações sobre infraestrutura e também fez as vezes de Lula nos treinamento.
Integrantes da campanha também avaliaram positivamente a saída de Pablo Marçal do entorno da preparação, por entenderem que isso permitiria ao senador se expressar de maneira mais espontânea. Do lado de Lula, aliados de Flávio criticaram a atuação do presidente e disseram que ele pareceu nervoso durante o confronto.
Na avaliação desses interlocutores, o petista recorreu à ironia e tentou desqualificar o adversário ao chamá-lo repetidamente de “mentiroso” e “miliciano”, comportamento que, segundo eles, havia sido criticado em Flávio no debate anterior. Os aliados do senador também avaliaram que a tentativa de Lula de adotar uma aparência mais jovem, inclusive sem gravata, não funcionou como esperado.
O Globo