Um acervo valioso de obras de arte que abrange 500 anos de história será leiloado em novembro, e a Christie’s descreveu o proprietário apenas como um "colecionador particular distinto". Mas essa é uma descrição um tanto modesta. O vendedor é, segundo dois especialistas a par da negociação não autorizados a falar oficialmente, Jeff Koons.
Museu Nacional de Belas Artes: Em obras desde 2020, dá sequência à reabertura ao público com duas mostras 'Revolta em preto e branco': livro mostra como artistas usaram a pintura para se manifestar em 1954 Ao longo das últimas décadas, Koons, de 71 anos, reuniu uma coleção mantida principalmente em sua casa em Manhattan. Agora, ele está vendendo nove pinturas de artistas como Pablo Picasso, Édouard Manet e Cornelis van Haarlem, pintor da Era de Ouro holandesa. Estima-se que a coleção ultrapasse a marca de US$ 100 milhões em vendas, segundo a Christie’s, que não quis identificar publicamente o vendedor. "É uma visão", disse Alex Rotter, presidente global da Christie’s, sobre a coleção. "Não é algo comum." Koons não quis comentar. Jeff Koons é um dos artistas mais importantes da atualidade Reprodução Divulgação Rotter afirmou que uma obra de Picasso de 1969, intitulada "Le Baiser", seria o lote de maior destaque, com um valor estimado na casa dos US$ 40 milhões. A pintura é emblemática da exploração do tema dos amantes feita pelo artista na última década de sua vida, período em que suas imagens de casais entrelaçados pareciam diluir a fronteira entre paixão e violência. Koons explorou temas semelhantes em sua própria trajetória. Sua série "Made in Heaven", do início dos anos 1990, incluía imagens de teor sexual dele mesmo e de Ilona Staller, modelo húngara conhecida como Cicciolina. (O casal teve um filho e permaneceu unido pelo matrimônio por um breve período.) "Eu tentava eliminar qualquer forma de culpa ou vergonha", declarou ele recentemente à "T Magazine" a respeito da série. Em 2008, Koons adquiriu a pintura de Picasso em um leilão da Sotheby’s por US$ 17,4 milhões — valor equivalente a US$ 27,1 milhões em valores atuais. Três anos mais tarde, comprou outra tela de Picasso da mesma série por US$ 10,5 milhões (ou US$ 15,6 milhões, ajustados pela inflação). Em uma entrevista de 2024 ao canal de televisão europeu ARTE, Koons manifestou seu fascínio pelas obras da fase final de Picasso. "Acredito piamente que Picasso estava em seu momento de maior generosidade", disse o artista. "Ele era uma espécie de xamã e portador da tocha, mostrando-nos que podemos ter uma vida mais rica e melhor." Koons continua sendo um dos poucos artistas vivos amplamente conhecidos pelo grande público, mas sua predominância no mercado sofreu um declínio desde o auge alcançado no leilão da Christie’s em 2019, quando sua escultura de um coelho em aço inoxidável, de 1986, foi vendida por US$ 91,1 milhões. A ARTDAI, base de dados independente do mercado de arte, estimou que o desempenho financeiro de suas obras em leilões caiu quase 60% na última década (o levantamento não inclui vendas privadas). Koons também mudou de galeria nos últimos anos: deixou a David Zwirner e a Gagosian em 2021 para integrar a Pace Gallery, apenas para reverter a decisão quatro anos depois e retornar à Gagosian. Uma das esculturas de balão de Jeff Koons exposta no Whitney Museum of American Art, em Nova York, em junho de 2014 Andrew Burton/AFP Uma pessoa próxima à negociação com a Christie’s afirmou que a motivação de Koons para vender a coleção era reinvestir em sua própria produção artística. A coleção de Koons representa um grande trunfo para a Christie’s em uma temporada de leilões na qual o conjunto mais valioso de obras de arte foi para sua concorrente, a Sotheby’s. Esta última garantiu recentemente 12 pinturas avaliadas em US$ 450 milhões — incluindo obras de Vincent van Gogh, Paul Cézanne, Camille Pissarro e outros impressionistas — provenientes do espólio de Carlos Pedro Blaquier e Nelly Blaquier de Arrieta, herdeiros de uma fortuna ligada à indústria açucareira argentina. A Christie’s ofereceu uma garantia a Koons pelas obras de arte. O leilão, marcado para 17 de novembro, intitula-se "Heroes and Lovers" (Heróis e Amantes). "Heroes" (Heróis) refere-se a uma pintura de 1590 de van Haarlem que retrata o mito de Hércules e o deus fluvial Aqueloo disputando a mão de uma princesa. Koons havia comprado a obra em 2008 por US$ 8,1 milhões — valor mais de quatro vezes superior à estimativa máxima da época, o que equivaleria a US$ 12,6 milhões hoje. A Christie’s estimou que a obra seria vendida por cerca de US$ 12 milhões neste leilão. Koons já comentou diretamente sobre a obra de van Haarlem. Em 2015, ele adaptou outra pintura do artista holandês para sua série de quadros com "gazing balls" (esferas espelhadas). O artista contemporâneo inseriu uma grande esfera azul no centro da interpretação do artista holandês sobre a história bíblica do Massacre dos Inocentes em Belém. Koons afirmou que a esfera espelhada "representa a vastidão do universo e, ao mesmo tempo, a intimidade do aqui e agora".
O Globo