Janja busca manter influência construída nos últimos anos

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Fonte da notícia: Valor Valor

Janja: primeira-dama acumulou poder e atuou em temas como redes sociais e combate à violência contra mulher Ricardo Stuckert - 5/9/2026

Se há algo que define o primeiro “mandato” de Rosângela Lula da Silva como primeira-dama, é que ela não passou despercebida. Durante os últimos quatro anos, Janja, como é chamada, acumulou polêmicas, poderes, aliados e detratores, dentro e fora do governo.

É atribuída diretamente a ela uma espécie de “rebranding” da imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente no debate sobre as mulheres. A aposta na Esplanada dos Ministérios é que o estilo “tratoraço” será mantido no novo - e possivelmente último - mandato do marido.

A influência começa dentro de casa. Pessoas que acompanham a rotina presidencial relatam que Janja costuma mostrar a Lula notícias de feminicídios, sobretudo os casos mais violentos, para cobrar respostas do governo.

A primeira-dama também teria estimulado mudanças nos hábitos do marido, com exercícios físicos e atividades domésticas. Um interlocutor chama o resultado de “retrofit” do presidente, que passou a incorporar com maior frequência temas ligados à realidade das mulheres em seus discursos, especialmente durante a campanha.

A transformação extrapolou a vida privada. Janja passou a discursar em eventos oficiais, opinar sobre políticas públicas e atuar em áreas da administração, especialmente nas pautas das mulheres, mas com bastante influência na comunicação.

Para integrantes do governo, ela rompeu com a expectativa de uma primeira-dama dedicada apenas a funções protocolares. A própria Janja já declarou que pretendia remodelar esse papel e atuar como articuladora política.

O método, porém, produziu atritos. Segundo relatos de pessoas do governo, que preferem o anonimato, Janja faz cobranças diretas, interfere em decisões e não hesita em contrariar ministros e dirigentes petistas.

Uma dessas fontes considera que ela enfrenta resistência por ocupar espaços tradicionalmente masculinos, mas reconhece que seu estilo contribui para ampliar o desgaste. “Ela perde a medida entre ser assertiva, combativa e ser autoritária”, afirma.

Dois episódios sintetizam essa combinação de protagonismo e controvérsia. Em 2024, durante o G20 Social, Janja xingou o empresário Elon Musk, provocando críticas até entre integrantes da diplomacia.

Em 2025, sua intervenção sobre o TikTok em uma conversa de Lula com o presidente chinês, Xi Jinping, gerou mal-estar na comitiva brasileira. Lula a defendeu e disse ter introduzido o assunto - versão reforçada pelo chanceler Mauro Vieira.

Aliados citam, em contrapartida, sua atuação na proteção de mulheres e crianças nas plataformas digitais. Em agosto deste ano, após a morte de uma adolescente associada a uma transmissão no Discord, Janja cobrou o bloqueio da plataforma no Brasil.

A Advocacia-Geral da União (AGU) passou a exigir da empresa medidas de segurança. Uma pessoa familiarizada com as discussões afirma que a primeira-dama pressionou diretamente o órgão para que houvesse uma reação rápida.

Na campanha eleitoral, a presença de Janja ganhou outra dimensão. Relatos apontam que ela participou da definição de agendas, logística e composição dos palanques, provocando queixas entre aliados históricos.

Depois do primeiro turno, pessoas próximas perceberam uma postura mais retraída, atribuída ao desgaste de sua imagem. A influência sobre Lula, entretanto, permaneceu preservada.

Para o quarto mandato, interlocutores não esperam uma mudança de essência, embora admitam ajustes na exposição pública. A avaliação é que Janja prefere o poder exercido nos bastidores à disputa de um cargo eletivo.

Não seria, portanto, uma trajetória semelhante à de Michelle Bolsonaro, mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro, eleita senadora por Brasília. Na definição de uma pessoa que acompanha seus movimentos de perto, Janja não quer necessariamente aparecer mais: quer continuar participando das decisões.

A incógnita é se conseguirá fazê-lo sem reproduzir os conflitos que marcaram os últimos quatro anos.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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