Trecho do trailer do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro Reprodução/YouTube - Flávio Bolsonaro Os documentos tornados públicos neste domingo (13) por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmam duas investigações em andamento para apurar o repasse de recursos públicos a empresas ligadas à produtora do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal (PF) investiga a destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas à mesma empresária que produz o longa, Karina Ferreira da Gama, enquanto a Polícia Civil de São Paulo apura irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo com uma organização sem fins lucrativos comandada por Gama, o Instituto Conhecer Brasil (ICB). Aditivos depois aumentaram o valor do contrato para R$ 157 milhões. Caso 'Dark Horse': Perícia de SP recusou ao menos 17 aparelhos por falta de lacre e 'possibilidade de manipulação' Empresa de Karina Gama alegou 'desconfiança nas comunidades' para justificar cobrança antecipada em contrato em SP Karina Gama é sócia da Go Up Entertainment, responsável pela produção do filme “Dark Horse”, e também consta como responsável pelas empresas Instituto Conhecer Brasil (ICB), Academia Nacional de Cultura (ANC) e Conhecer Brasil Assessoria.
O inquérito da PF apura possíveis violações das exigências de transparência e rastreabilidade de emendas federais destinadas ao ICB e à ANC, envolvendo especificamente quatro emendas de deputados bolsonaristas do PL, duas de Mario Frias, uma de Marcos Pollon, e uma de Bia Kicis. A PF também determinou levantamento do histórico de doações eleitorais relacionadas aos investigados e aos parlamentares envolvidos.
De acordo com os autos, no entanto, só as emendas de Frias foram efetivamente pagas. Nos demais casos teria havido problemas técnicos.
Os documentos mostram que o ICB já tinha histórico de funcionamento baseado em dinheiro de emendas. Em 2018, teria realizado um evento literário gospel financiado por emendas de vereadores. Em 2025, Mário Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão cada ao ICB, para projetos de incentivo ao esporte e letramento digital.
Frias também aparece nos autos como roteirista e participante de “Dark Horse” e interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme. O deputado aparece ainda como político próximo de Gama, cuja empresa recebeu R$ 54 mil da campanha eleitoral de Frias em 2022.
Já a ANC, também comandada por Gama, aparece como beneficiária, em 2024, de R$ 2,6 milhões em emendas Pix de deputados do PL, entre eles Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Bia Kicis e Marcos Pollon, além de R$ 200 mil do deputado estadual Gil Diniz. Segundo reportagem citada nos autos, os recursos se destinariam à série documental “Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rende”, que não saiu do papel.
Além disso, a ANC teria solicitado R$ 1,084 milhão para um evento municipal de dança no Parque do Ibirapuera com recursos de emendas dos então vereadores Atílio Francisco e Rinaldi Digilio. O dinheiro teria sido recebido pouco depois. O evento era promovido pela Força Jovem Universal. Polícia de SP investiga suspeitas em contrato
Outra investigação, da Polícia Civil de São Paulo, aborda um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo com o ICB para instalar e manter 5 mil pontos de wi-fi em comunidades. A empresa contratada não tem experiência anterior em telecomunicações, foi a única concorrente na licitação e o preço é muito superior ao de contratações anteriores da prefeitura, mostram os documentos.
Parte do valor do contrato, R$ 26 milhões, foi transferida sem que o serviço fosse prestado. Dos 5 mil pontos acordados, só 3,2 mil foram instalados, a maioria durante a campanha eleitoral de 2024 do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Os autos reproduzem suspeitas de que recursos do contrato municipal possam ter sido desviados para custear as despesas de produção do filme “Dark Horse” pela Go Up Entertainment. Segundo a polícia, a origem do financiamento do filme “permanece oculta, evidenciando uma imbricação estrutural e confusão patrimonial entre as entidades geridas pela investigada”.
As investigações não mencionam apurações específicas sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Há, nos autos, referências a reportagens sobre o assunto, além de uma mensagem de voz de Mário Frias para Vorcaro, na qual agradece o apoio ao filme e afirma que o longa “vai mexer com o coração de muita gente.”
Os autos incorporam reportagens informando que Flávio Bolsonaro admitiu ter ido à casa de Vorcaro após a primeira prisão do ex-banqueiro, além de referências a áudios envolvendo os dois. As reportagens anexadas também mencionam que Vorcaro teria bancado mais de 90% do orçamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O que dizem os citados
Procurada, a Prefeitura de São Paulo negou irregularidades e disse que o contrato com o instituto seguiu os ritos legais. Em nota, disse que “a assinatura e execução do termo de colaboração firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) não têm qualquer irregularidade identificada”. De acordo com a prefeitura, o “Programa Wi-Fi Livre segue em pleno funcionamento na cidade com 3.200 pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados. A administração municipal reitera que o serviço contratado foi prestado, passando a parceria por prestações de contas semestrais, período mais rigoroso do que o mínimo legal. As movimentações financeiras da entidade não integram a relação contratual com a administração municipal”.
Em nota, a defesa de Karina Gama afirmou que “recebe com absoluto respeito e considera positiva” a decisão do ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e o contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo. “A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa. Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme a transparência.” “Desde o primeiro momento, a Sra. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito. A publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados. A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a Sra. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política”, afirmou a defesa, em nota assinada pelo advogado Ricardo Sayeb. “Investigar é legítimo. Esclarecer é do interesse de todos. Mas investigação não é acusação, muito menos, condenação e a repercussão política jamais poderá substituir o devido processo legal. Por essa razão, a defesa nada tem a opor quanto à transparência e ao levantamento do sigilo.” As assessorias de Frias, Zambelli, Ramagem, Pollon e Kicis não retornaram os pedidos da reportagem.
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