Gerd Altmann/Pixabay Os investimentos das empresas de inteligência artificial (IA) atingem alturas fantásticas, só menores do que as promessas do que a tecnologia é capaz de realizar, mas a capacidade de sustentar financeiramente a corrida trilionária começou a mostrar perigosa fragilidade.
Nos últimos dois dias, tombos nas ações das Big Techs, como Oracle, Meta e Nvidia, e vendas com deságios de bônus que bancam a construção de data centers indicam que o mercado pode estar diante de uma correção de rumos, que pode ou não ser turbulenta. Ontem, os investidores correram para os títulos do Tesouro americano em busca de proteção, diminuindo o movimento de alta de seus rendimentos, os maiores desde o início do século.
As chamadas “hyperscalers” — Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Oracle — dobrarão este ano seus investimentos em relação aos de 2025, atingindo US$ 800 bilhões. Seu fluxo de caixa cobre US$ 700 bilhões, em um gap que tende a aumentar o risco dos investidores que estão financiando as apostas na nova tecnologia e a pesadíssima infraestrutura de data centers.
As desconfianças sobre a capacidade dessa montanha de dinheiro produzir bons retornos, antes isoladas em alguns cantos do mercado, se generalizaram. Os números que as consultorias apresentam indicam que as contas não vão fechar.
“Muitos investidores não têm a menor noção sobre aquilo no que estão investindo”, disse Hock Tan, CEO da Broadcom, fabricante de chips americana, na segunda-feira. “Colocaram expectativas extremas só para descobrirem que é como se estivessem em um cassino.” A declaração antecedeu uma semana de baixa em ações dos fabricantes de semicondutores, computação em nuvem e construtores de data centers.
As palavras de Tan foram seguidas pela derrocada de 11,1% das ações das coreanas SK Hynix e de 9,1% da Samsung Electronics nos pregões subsequentes. Mais do que a impressão que poderia parecer subjetiva de um participante da corrida da IA, um relatório da consultoria Gartner mostrou a realidade objetiva.
Para cobrir os custos de capital e financiamentos previstos pelas empresas até 2032 e ainda obter um lucro robusto, o consumo desses serviços precisaria atingir 9% do PIB americano, cerca de US$ 8,5 trilhões. Mas a previsão de receitas das empresas é muito menor, de US$ 3,6 trilhões.
As Big Techs criaram veículos específicos para financiar todos os setores da infraestrutura de IA com emissões de bônus. O temor em relação à rentabilidade futura da tecnologia já atingiu esses papéis, que passaram a ser comercializados com deságios nos últimos dias.
Uma das principais atingidas foi a CoreWeaver, uma startup que vende espaços na nuvem e capacidade de computação para IA, cujos bonds recuaram a 75 centavos de dólar para cada dólar de valor de face. Os títulos da Blackstone para o Projeto Excalibur, alugado à Microsoft, caíram a 88 centavos, e os do projeto Hyperion, bancado pela Meta, a 92 centavos.
O CDS da CoreWeaver (credit default swap, custo de cobrir eventual calote) subiu a 11 pontos percentuais, nada menos que dez vezes mais que o CDS de mesmo prazo dos títulos soberanos do Brasil. Só na semana passada, a Nvidia perdeu US$ 300 bilhões em valor de mercado.
Começou a temporada de divulgação de balanços trimestrais nos EUA e os investidores estarão atentos à relação resultados versus expectativas. A OpenAI, que adiou sua oferta inicial de ações para 2027, teve receitas anualizadas US$ 20 bilhões menores que as previstas, calculou o Financial Times.
O realinhamento de mercado poderá ter sequência, forçando a uma revisão de planos das gigantes da IA e obrigando-as a uma perspectiva mais realista de gastos, ou então abandonando posições em massa, o que seria altamente destrutivo. Em primeiro lugar, as ações das empresas de TI se valorizaram 68,9% na S&P 500 no ano até setembro, o que não seria um problema se não fossem apenas elas que estão sustentando a alta das bolsas.
Sem elas, porém, o S&P caiu 7% desde agosto. No mês passado, três quartos das ações negociadas perderam valor.
O efeito de uma reprecificação de ativos pode ser drástico e de ampla repercussão sobre o consumo, em parte estimulado pelo efeito riqueza propiciado pelos ganhos dos papéis das empresas do setor (FT, 1-10). Depois, as empresas de IA compõem um cluster, emTombos nas ações e vendas com deságios de bônus que bancam a construção de data centers indicam que o mercado pode estar diante de uma correção de rumos que os investimentos são circulares.
Por exemplo, a Amazon fornece chips à Anthropic, que propiciarão o desenvolvimento do Claude, que robustecerão a capacidade da Amazon. Um estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) revelou que nada menos de metade dos investimentos das empresas de IA está indo para companhias de IA.
Por fim, boa parte desses investimentos está em veículos especiais, fora dos balanços das Big Techs, nada menos de US$ 3,1 trilhões, segundo o Morgan Stanley (Edvaldo Santana, Valor, 13-10). Um curto-circuito nesse centro financeiro da IA pode espalhar ondas de choque pelos mercados financeiros, enfraquecer o comércio e o crescimento globais.
A bolha ponto.com terminou assim, mas mudanças de direção quando o setor caminha para um impasse são possíveis. Os investidores, ao que tudo indica, começaram a fazê-las.
Valor