Incêndio, desgaste e missão estendida: crise a bordo do principal porta-aviões dos EUA
Marinheiros e oficiais militares disseram que foram necessárias mais de 30 horas para apagar um incêndio a bordo do porta-aviões Gerald R. Ford, na última quinta-feira (14), enquanto o navio, já bastante avariado, continuava sua árdua jornada de meses em meio às operações militares do presidente Trump.
Lavanderia do porta-aviões americano USS Gerald R. Ford sofre incêndio e fere dois marinheiros no Oriente Médio
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O incêndio começou na lavanderia principal do navio na última quinta-feira. Quando foi controlado, mais de 600 marinheiros e tripulantes perderam suas camas e desde então estão dormindo no chão e em mesas, disseram as autoridades.
O Comando Central das Forças Armadas dos EUA informou que dois marinheiros receberam tratamento para "ferimentos que não representam risco de vida". Pessoas a bordo do navio relataram que dezenas de militares sofreram inalação de fumaça.
E na categoria de situações que não representam risco de vida, mas ainda assim não são ideais, muitos marinheiros não conseguiram lavar roupa desde o incêndio.
O navio, juntamente com seus 4.500 marinheiros e pilotos de caça, estava no Mediterrâneo em 24 de outubro, quando o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ordenou que ele navegasse para o Caribe para reforçar a campanha de pressão do presidente Trump sobre Nicolás Maduro, líder da Venezuela antes de sua deposição.
Do Caribe, o porta-aviões seguiu rapidamente para o Oriente Médio para acompanhar a guerra entre EUA e Israel contra o Irã, que já dura três semanas.
Conversar com marinheiros a bordo de porta-aviões é difícil mesmo nas melhores circunstâncias. Durante uma guerra, os navios e as bases militares envolvidas nas operações ficam "às escuras", limitando a capacidade dos militares de se comunicarem com o mundo exterior. Os oficiais e marinheiros entrevistados para este artigo falaram sob condição de anonimato, pois não estavam autorizados a falar publicamente.
O porta-aviões Ford está agora entrando em seu décimo mês de missão. Ele quebrará o recorde de missão mais longa de um porta-aviões desde a Guerra do Vietnã se ainda estiver no mar em meados de abril. Esse recorde, de 294 dias, foi estabelecido pelo USS Abraham Lincoln em 2020.
Os tripulantes do Ford foram informados de que sua missão provavelmente será estendida até maio, o que os deixaria um ano inteiro no mar, o dobro da duração normal de uma missão em um porta-aviões.
Durante as guerras no Iraque e no Afeganistão, a Marinha manteve porta-aviões em missão por nove meses consecutivos, às vezes um pouco mais. Mas, normalmente, as missões não se estendem por mais de seis meses. Segundo especialistas da Marinha, períodos mais longos são muito prejudiciais tanto para o navio quanto para a tripulação.
— Os navios também se cansam e sofrem danos ao longo de longos períodos de serviço — disse o contra-almirante John F. Kirby, oficial naval aposentado que foi secretário de imprensa do Pentágono e porta-voz de segurança nacional no governo Biden.
— Não se pode operar um navio por tanto tempo e com tanta intensidade e esperar que ele e sua tripulação tenham o melhor desempenho possível.
O porta-aviões Ford está realizando operações de voo ininterruptamente, disseram oficiais da Marinha.
Segundo dois oficiais, o incêndio começou na saída de ar de uma secadora nas instalações de lavanderia do navio e se alastrou rapidamente. Marinheiros combateram as chamas por mais de 30 horas, disseram oficiais e marinheiros.
A Marinha não respondeu ao pedido de comentários. O Comando Central afirmou em comunicado que o incêndio “não causou danos ao sistema de propulsão do navio, e o porta-aviões permanece totalmente operacional”.
O incêndio foi apenas o mais recente de uma série de problemas de manutenção no Ford, o porta-aviões mais novo da Marinha. Ele tem apresentado problemas de encanamento nos 650 banheiros a bordo. A NPR relatou que o sistema de banheiros, subdimensionado e mal projetado, quebra com frequência .
Um importante período de manutenção e reequipamento que o porta-aviões Ford deveria passar no início deste ano no estaleiro naval de Newport News, na Virgínia, foi adiado, disseram autoridades militares.
Um oficial militar afirmou que o Pentágono estava ciente de que o porta-aviões estava atingindo o limite de sua capacidade operacional. Ele disse que o USS George H.W. Bush está se preparando para ser enviado ao Oriente Médio e provavelmente substituirá o Ford.
