Dois homens gays de gerações distintas varam a madrugada numa ligação telefônica. Do lado de cá, está um jovem voluntário de um serviço de apoio à comunidade LGBTQIAP+ em Londres — sim, antes da popularização da internet, linhas de atendimento anônimo funcionavam como importantes fontes de informação, orientação e acolhimento para a população.
Do lado de lá, ouve-se um homem que sobreviveu aos anos mais cinzentos da epidemia de Aids, na década de 1980, quando o desconhecimento geral sobre a doença alimentava uma baita discriminação. No teatro: Nuno Leal Maia fala sobre afastamento da TV e envelhecimento: 'Não imaginava estar vivo aos 79 anos'
Há meio século: 'Escrava Isaura', 'Anjo mau', 'Saramandaia' e mais — por que 1976 mudou as telenovelas no Brasil? É desse encontro, inspirado em histórias reais, que parte “Cruise: minha última noite na Terra”.
Idealizado, produzido e estrelado pelo ator Igor Cosso, o monólogo revisita uma época em que o medo da morte por um mal cercado de mistérios dava os braços, por que não?, com a efervescência colorida das boates, festas, pistas de dança. A montagem — em cartaz até segunda-feira no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro — compõe o retrato de uma gente que, apesar de tantos pesares, mantinha disposição redobrada, e quase teimosa, de viver e não ter a vergonha de ser feliz.
— Acho emocionante como as pessoas conseguiam buscar a diversão no meio do caos. As boates eram espaços de resistência.
Eram lugares para encontrar os amigos e não ficar falando da doença o tempo inteiro. Dar de cara com a morte era se perguntar: “Como vou viver? O que é viver? A gente está aqui por quê?” — reflete Igor, de 35 anos, que, para compreender melhor aquele período, conversou com quem acompanhou de perto o avanço da epidemia.
— Minha maior curiosidade era entender como aquelas pessoas viviam a descoberta da sexualidade num momento de tanto terror. Algumas me diziam: “Era assustador, mas, ao mesmo tempo, a gente não parava de transar, porque a gente também estava querendo viver.” Outras se agarravam à religião, porque havia um discurso de que a doença era uma espécie de castigo divino.
Galerias Relacionadas Escrito pelo dramaturgo britânico Jack Holden, que trabalhou como voluntário num dos serviços de apoio à comunidade LGBTQIAP+, o texto foi apresentado a Igor por um amigo, no ano passado, quando o ator buscava um projeto que reacendesse seu entusiasmo pelo teatro.
A leitura deu ao artista a certeza de que a obra merecia ser adaptada e levada aos tablados no Brasil, sob direção de Orlando Caldeira. Informação importante: após a temporada carioca, a montagem desembarca em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, onde cumpre temporada entre 7 de novembro e 20 de dezembro.
Afirmação pessoal A rigor, “Cruise...” é também a coroação do amadurecimento de um ator mais à vontade para abordar questões que dizem respeito à própria identidade.
Nem sempre foi assim. Aos 18 anos, recém-chegado à capital fluminense para dar os primeiros passos na carreira, o mineiro de Belo Horizonte se assustou ao ler uma entrevista de um autor de novelas.
O profissional dizia, a uma revista, que um galã não deveria expor demais a vida pessoal, sobretudo se fosse gay — caso contrário, a “espectadora dona de casa” poderia deixar de acreditar nos romances que ele protagonizasse na ficção. Por muito tempo, a declaração deu voltas na cabeça do artista, projetado na TV em produções como “Malhação” (2011), “Amor eterno amor” (2012), “Os dez mandamentos” (2015) e “Salve-se quem puder” (2020), entre outras.
— Aquilo mexeu muito comigo. Cresci ouvindo essas coisas.
Acho que já evoluímos bastante, inclusive com as nossas histórias sendo representadas nas novelas, mas ainda temos um longo caminho pela frente — avalia Igor, que não ignora os riscos de uma exposição excessiva, mas tampouco deixa que o receio de simplesmente ser quem é determine suas escolhas profissionais.
O ator Igor Cosso Moa Almeida/Divulgação
A bem da verdade, as preocupações existem — e o temor de ficar “marcado” por determinados papéis está longe de ser coisa do passado. Igor conta que ainda ouve de colegas advertências sobre os riscos de se dedicar a projetos ligados ao universo LGBTQIAP+.
Não chega a desdenhar dos conselhos, mas também não demonstra ânimo para segui-los à risca. Afinal, se a sexualidade não deve (ou não deveria) limitar os personagens que um ator pode interpretar, por que haveria de restringir as histórias que ele escolhe propagar?
— Já escutei de outros atores gays que, se eu ficar fazendo projetos assim, posso acabar rotulado. Até entendo, mas sinto necessidade de usar a arte para contar nossas histórias.
Quando me entendi como homem gay, fui buscar conhecer nossa cultura, nossa história de luta. Nosso amor é político.
Quem a gente é também é político. E acho que ninguém melhor do que nós mesmos para falar de nossas vivências — diz.
— Entendo que o mais interessante é que o público veja os atores através dos personagens. Mas existe também a função social do artista...
É a possibilidade de transformar alguma coisa através de nossa própria voz. Tento encontrar esse equilíbrio.
Passo a passo Fora do palco, Igor parece pouco disposto a tratar a vida pessoal com pinças.
Este ano, casou-se com Heron Leal, bailarino do “Dança dos famosos”, quadro de sucesso do “Domingão com Huck”. Os dois mantêm um relacionamento há sete anos.
A celebração, com fotos compartilhadas nas redes sociais, virou notícia, como acontece com casamentos de tantos outros artistas. Natural que seja assim — e a vida segue.
— Fiquei muito feliz porque foi tudo muito respeitoso. Pensei: “Olha, que bom, estamos evoluindo.” Às vezes, parece só uma matéria qualquer num site de entretenimento...
Mas isso, no fundo, tem um papel social importante. As pessoas veem que é possível a gente se casar, que temos esse direito.
Igor Cosso e Heron Leal curtem lua de mel na Grécia Reprodução/Instagram
A afinidade do casal, aliás, não se limita à vida conjugal. Quando conheceu Heron, Igor encontrou um bailarino temporariamente afastado dos tablados e dedicado à rotina de escritório — o dançarino é também contador e advogado.
Foi o ator quem deu aquele empurrãozinho para que o companheiro voltasse a bailar profissionalmente. Desde então, os dois fazem da arte um assunto doméstico permanente.
Heron dá palpites sobre as criações do marido, enquanto Igor ajuda a inventar histórias para as coreografias que o parceiro apresenta na televisão. As conversas, não raro, atravessam a madrugada.
Em “Cruise...”, aliás, Heron também deu sua contribuição, como consultor coreográfico. Mas nem o convívio diário com um profissional da dança tem sido suficiente para transformar Igor num sujeito habilidoso nos passos, como ele mesmo brinca:
— Sou ruim demais de dança! Na peça eu consigo fazer, porque é uma dança muito livre, de boate. Agora, me bota para fazer uma coreografia...
Sou meio quadradão — admite. — De vez em quando, Heron faz uma aula aqui em casa e eu tento pegar uns passos.
Mas sou duro. Melhor deixar a dança para ele.
O Globo