Comandatuba (BA) — A inteligência artificial (IA) começa a assumir um papel estratégico no mercado brasileiro de franquias, que vai além da inovação e da modernização dos negócios. Em um cenário de pressão sobre custos operacionais, mudanças na legislação tributária e nova jornada de trabalho, a ferramenta surge como um aliado para proteger o capital investido pelos franqueados, melhorar a gestão das unidades e preservar a rentabilidade sem comprometer a qualidade dos serviços.A tecnologia pode ajudar o empresário a tomar decisões com base em dados, em vez de depender, exclusivamente, da experiência ou da percepção sobre o funcionamento do negócio.
Levantamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF) mostra que 37% das franqueadoras estão testando soluções de inteligência artificial ou desenvolvendo projetos-piloto. Outros 26% utilizam a tecnologia de maneira estruturada, enquanto 22% registram aplicações não estruturadas, por iniciativa das próprias equipes.
Apenas 14% ainda não adotam ferramentas de IA.Entre as principais aplicações citadas, destacam-se marketing, citado por 83% das franqueadoras; produção de materiais internos (62%); e atendimento ao cliente (55%). Os ganhos percebidos pelos entrevistados incluem: aumento da produtividade, citado por 73%, automação de tarefas repetitivas (63%), melhoria no atendimento (51%), apoio à tomada de decisões (41%) e personalização da comunicação (40%).Leia também: IA ameaça modelo que sustenta a internet e derruba ações de big techsO especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja destaca que a produtividade é o principal benefício da IA e um dos que podem apresentar resultados mais rapidamente.
Segundo ele, a ferramenta permite identificar gargalos e analisar dados com mais eficiência, contribuindo para que o empresário tenha maior controle sobre a operação. A análise de dados ganha importância especialmente em momentos de incerteza econômica, quando as margens de lucro ficam mais apertadas, de acordo com Igreja.
Com informações organizadas, o franqueado consegue acompanhar indicadores, identificar despesas que podem ser reduzidas e compreender melhor o desempenho da unidade.A tecnologia também pode ser utilizada para desenvolver pequenas ferramentas e aplicações voltadas a necessidades específicas de cada negócio.
Soluções como Cloud Code e Lovable, citadas pelo especialista, permitem criar recursos para resolver problemas operacionais que ainda não contam com ferramentas adequadas.Uma das possibilidades mais relevantes para o pequeno e médio empresário é utilizar a inteligência artificial para identificar sinais de deterioração financeira antes que eles se transformem em prejuízos.
A análise preditiva permite acompanhar mudanças nas margens, pressões dos fornecedores e alterações no fluxo comercial, como a redução de oportunidades de venda.O monitoramento não precisa ficar restrito aos dados internos da empresa. De acordo com Igreja, ferramentas de IA podem cruzar informações do sistema de relacionamento com clientes (CRM) com indicadores macroeconômicos, movimentos de mercado, características regionais e até o comportamento dos consumidores nas redes sociais.Leia também: Funcionários usando IA sem regras? Veja 5 cuidados para proteger a empresa Uma queda no engajamento, por exemplo, pode sinalizar uma mudança de comportamento que futuramente se reflita no desempenho comercial.
Da mesma forma, o acompanhamento de padrões de consumo, endividamento e períodos sazonais pode ajudar o empresário a prever momentos de baixa nas vendas. "Se a inteligência artificial dispõe de dados, ela pode, sem sombra de dúvida, desempenhar um papel importante na análise preditiva", afirma.Na prática, a integração de informações internas e externas permite construir painéis de controle (dashboards) e ferramentas de business intelligence (BI), que facilitam o acompanhamento dos resultados e ajudam a orientar decisões sobre estoque, compras e dimensionamento da operação.
O objetivo é evitar que o franqueado compre mais do que precisa, mantenha produtos parados ou seja surpreendido por uma queda na demanda. A tecnologia também pode auxiliar na identificação de desperdícios e na organização de processos internos, liberando os funcionários para atividades que exigem interação humana.Mudança de culturaApesar das possibilidades, a implementação da inteligência artificial não depende apenas da contratação de uma ferramenta.
Para a cientista de dados Vivian Garcia, especialista em expansão de franquias da VG Consultoria, as empresas precisam preparar as equipes e transformar a cultura organizacional para que a tecnologia seja incorporada de maneira eficiente. Na avaliação dela, investir em IA sem contar com profissionais capacitados para operar os sistemas pode comprometer os resultados esperados.
"Adianta entregar uma Ferrari na mão de uma pessoa que não sabe dirigir? Não. Porque ela não vai saber utilizar todas as ferramentas e tecnologias que a Ferrari oferece.
A mesma coisa acontece com a empresa", compara.Garcia defende que as franqueadoras invistam não apenas nas soluções tecnológicas, mas também em pessoas capazes de identificar oportunidades de aplicação e orientar a utilização das ferramentas nas unidades. Sem essa preparação, a adoção tende a não se sustentar ao longo do tempo.
ECO-0211-Franquias_IA(foto: maurenilson freire)A capacitação também é importante para que os franqueados consigam aproveitar os recursos disponíveis e adaptar os processos às particularidades de cada operação. Para a especialista, uma implementação mais ampla pode ajudar as empresas a enfrentar os desafios tributários e trabalhistas.A velocidade das transformações tecnológicas também exige uma mudança na maneira como as redes de franquias desenvolvem e implementam soluções.
Para Artur Grynbaum, vice-presidente do Conselho do Grupo Boticário, as empresas que não acompanharem as mudanças no comportamento dos consumidores e a atualização tecnológica correm o risco de ficar para trás em um mercado que está com o ritmo cada vez mais acelerado.Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular?Ele avalia que a adoção da inteligência artificial precisa estar apoiada em uma estrutura de dados e em uma arquitetura tecnológica capaz de integrar informações.
Sem essa base, as empresas podem até desenvolver aplicações pontuais, mas terão dificuldade para aproveitar o potencial da tecnologia na tomada de decisões.Segundo Grynbaum, a inteligência artificial no grupo já está presente em diferentes processos, como previsão de vendas, gestão de crédito, pesquisa de pontos comerciais, desenvolvimento de produtos e monitoramento de estoque.
A companhia também utiliza recursos de IA no atendimento realizado pelas consultoras nas lojas, com ferramentas que facilitam as relações com as consumidoras e a oferta de produtos.No comércio eletrônico, a tecnologia ajuda a compreender o perfil dos consumidores e ajustar as experiências de compra.
O executivo ressalta, porém, que a implementação precisa considerar o retorno econômico. A redução de custos com pessoal, por exemplo, não pode ser analisada isoladamente, sem levar em conta despesas com ferramentas, assinaturas e consumo de tokens, unidades utilizadas para processar informações em sistemas de inteligência artificial.Outro ponto é que as redes possuem franqueados em diferentes estágios de maturidade tecnológica.
Por isso, a adoção não pode ocorrer de maneira uniforme. Enquanto alguns empresários buscam ferramentas para controlar a produtividade no ponto de venda, outros ainda precisam avançar em etapas anteriores de digitalização.Grynbaum defende que os franqueados participem da identificação de necessidades e do desenvolvimento de soluções, permitindo que as franqueadoras avaliem quais ferramentas devem ser desenvolvidas internamente e quais podem ser contratadas no mercado.*A jornalista viajou a convite da ABF Saiba Mais Economia Desafios com o fim da 6x1 para o setor de franquias Economia Anúncios digitais viram brecha para invasão "no-click" de dispositivos Economia Petrobras anuncia aumento de 7,2% em querosene de aviação Economia Dinheiro que era gasto com bets eleva vendas de alimentos em supermercados Economia "Brasil vai superar os Estados Unidos", diz diretor da Conab Economia Chilli Beans pede recuperação extrajudicial; dívida chega a R$ 340 milhões
Correio Brazilliense