Adaptações da obra de Jane Austen publicadas no Brasil desde 2016 expõem escolhas distintas sobre a narração nos quadrinhos O final de 2026 promete ser especial para os fãs de Jane Austen.
Razão e Sensibilidade está em cartaz nos cinemas, Orgulho e Preconceito chega em minissérie à Netflix em 3 de dezembro. E novembro marca o lançamento de duas novas versões do romance em quadrinhos, que se somam a outras três publicadas no Brasil de 2016 para cá.
É surpreendente não apenas a quantidade de lançamentos, mas a divergência: cinco adaptações, de cinco países diferentes, cada uma delas com uma leitura muito particular do mesmo romance. Não são cinco versões da mesma história: são cinco decisões distintas sobre o que fazer com a narradora de Austen quando ela precisa virar imagem.
O caso mais eloquente talvez seja também o mais tardio na cronologia brasileira e o mais antigo em sua origem: a adaptação da Marvel Comics, que chega ao país apenas este ano. A obra foi publicada pelo Marvel Illustrated, selo criado em 2007 com o objetivo de atrair o público literário e educacional.
Até então, a linha havia adaptado clássicos como A Ilha do Tesouro, Moby Dick e obras de Homero. A inclusão de Austen partiu da roteirista Nancy Butler, que questionou por que não faziam algo que também agradasse às leitoras.
O resultado foi imediato. Com arte de Hugo Petrus, a adaptação entrou na lista dos mais vendidos do New York Times e levou a Marvel a encomendar outras três obras de Austen.
O desfecho, porém, foi oposto ao que o êxito sugeria: o selo Marvel Illustrated acabou encerrado. Assim, a mesma experiência que demonstrou haver mercado para Austen nos quadrinhos chegou ao fim com a estrutura editorial que a abrigava.
Em 2016, a Nemo trouxe sua versão da SelfMadeHero, editora inglesa que nasceu com a proposta de adaptar clássicos com ambição gráfica, e não como material didático. A obra foi produzida por Ian Edginton e Robert Deas.
A dupla optou por fazer o que a Marvel não havia feito: preservar a estrutura narrativa e boa parte dos diálogos de Austen, apostando que o leitor adulto de quadrinhos aceitaria uma história cuja tensão se resolve pela conversa, não pelo confronto físico. É a versão que mais se aproxima do que se convencionou chamar de “romance ilustrado”.
Não se trata de uma escolha neutra: ela pressupõe um leitor disposto a acompanhar Austen em sua forma original, sem as condensações que facilitam a entrada de novos leitores. Se a SelfMadeHero confiou no texto, a Manga Classics aposta na linguagem.
O selo canadense da UDON Entertainment lançou em 2014 uma adaptação publicada no Brasil nove anos depois pela L&PM. A coleção é declaradamente voltada ao público jovem.
É, também, a mais extensa das cinco. Com 376 páginas, tem o triplo da adaptação da Marvel, e essa extensão muda o que a versão pode fazer: onde a americana condensou, a canadense reescreveu.
Stacy King mantém passagens inteiras do original e moderniza o resto, encurtando falas e convertendo o inglês do século 19 em linhas diretas. E o desenho no estilo shoujo do mangá de Po Tse opera outra tradução: o close substitui a descrição, e a hesitação que Austen escreve vira expressão desenhada.
Se a Manga Classics reescreveu, a Disney reimagina. A versão que a Panini trouxe ao Brasil em 2021 nasceu nas páginas semanais da Topolino, revista italiana do Mickey, a partir de 2018.
E chega ao leitor com Margarida e Donald no lugar de Elizabeth e Darcy, ou Elizabeth Pennet e Donald Duckcy, como são chamados na história. A estrutura do romance se mantém, e o final segue o livro.
O que ela faz é resolver um problema que as outras contornaram: Orgulho e Preconceito depende de uma narradora irônica, que corrige as interpretações dos personagens em tempo real. A solução de Teresa Radice e Stefano Turconi foi eliminar a legenda e transformar a narração em conversa.
A HQ abre em Chawton Cottage, em 1812, com duas patas à mesa do chá: uma Jane que discute o manuscrito que acaba de escrever e Martha Lloyd, sua amiga na vida real. As duas comentam o andamento da história, e o leitor vê encenado o que uma relata à outra.
É a mais engenhosa das cinco: em vez de narrar Austen, fez alguém contá-la. A mais recente chega pela Universo Geek, junto com a Marvel da Panini.
Na França, a versão de Aurore saiu em três álbuns e levou quatro anos para se completar. Aqui, vira um volume único.
É a única que trata o romance como série e os tomos não são divisão comercial, e sim a divisão original: Orgulho e Preconceito saiu em 1813 em três volumes, cada um terminando num ponto de suspensão calculado. O segundo álbum francês termina na primeira visão de Pemberley, com Elizabeth chegando de carruagem, exatamente onde o volume II de 1813 se encerra.
A opção mais radical de Aurore é formal. Ela aboliu a legenda: não há uma caixa de narração nos três álbuns.
A história corre no diálogo, e as passagens de tempo se resolvem em elipse visual, em quadros sem nenhuma palavra, como o plano do balanço que Joe Wright usou no filme de 2005. Mas a decisão cobra um preço.
Austen não é irônica apenas nas falas: é irônica na voz que as enquadra. A primeira frase do romance não é dita por ninguém — é a narradora assumindo, com falsa solenidade, o discurso que vai desmontar.
Sem ela, cada personagem passa a valer pelo que diz, e o romance perde o que os relativizava. Aurore resolveu o ritmo, o comentário ficou sem lugar.
A Marvel condensou. A SelfMadeHero preservou.
A Manga Classics reescreveu. A Disney resolveu.
A Soleil dissolveu. Três mantiveram a voz em caixa de texto, as duas que a dispensaram divergem no essencial.
A Disney entendeu que, sem narradora, era preciso inventar outra. E fez de Jane Austen personagem do próprio romance.
A Soleil entendeu que o diálogo bastava, e, ao fazê-lo, perdeu justamente o que a voz de Austen acrescentava ao que as personagens dizem. No fim, a questão nunca foi sobre fidelidade.
Orgulho e Preconceito sobrevive a todas as cinco, inclusive à que o transforma em conversa entre patas. O que cada versão revela é o quanto do romance depende não do que acontece, mas de quem conta.
Tiago Souza Jornalista e pesquisador com mais de 20 anos cobrindo o mercado de HQs, livros, séries e cinema. Dedica-se a analisar os cruzamentos entre cultura pop, comportamento e a indústria do entretenimento
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