Em 2014, a vacina contra o papilomavírus humano (HPV) chegou ao Sistema Único de Saúde (SUS) como uma importante arma contra infecções e os seis tipos de câncer causados pelo vírus. Hoje, após 12 anos de altos e baixos na cobertura vacinal, o país luta para alcançar a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde, que é imunizar 90% dos meninos e meninas de 9 a 14 anos.
Até esta semana, dados do ministério indicavam cobertura vacinal de 83,6% entre as meninas e de 75,6% entre os meninos, com variações expressivas nas diferentes regiões do Brasil. Roraima, Espírito Santo e Santa Catarina figuravam no topo do ranking, com 97,1%, 88,4% e 85,5% de vacinados, respectivamente, até agosto.
Já Bahia (64%), Rio de Janeiro (61,9%) e Acre (53,9%) apresentavam os piores índices do país no mesmo período. Embora o câncer de colo de útero concentre a maior parte dos casos relacionados ao HPV, o vírus também está associado ao câncer de ânus, boca, pênis e vulva, o que torna a imunização importante para todos, não apenas para mulheres.
Apesar de o benefício alcançar ambos os sexos, dados do ministério mostram que a cobertura vacinal entre os meninos é 8 pontos percentuais inferior à registrada entre as meninas. Para o pediatra e infectologista, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, a explicação central para a dificuldade de alcançar a meta não é falta de interesse das famílias pela prevenção, mas o modelo de oferta da vacina.
Nos primeiros anos da campanha, quando a imunização era aplicada amplamente dentro das escolas, algumas localidades registraram coberturas superiores a 100%. — Não conheço nenhum país que vacine adolescentes com ótimas coberturas que não seja em base escolar.
Levar a vacina onde o adolescente está é fundamental — afirma Kfouri. À medida que a criança cresce, menos frequentes são as consultas de rotina, logo a vacinação deixa de estar automaticamente associada a uma ida programada ao posto de saúde.
Até agora, os números de 2026 mostram essa diferença. Aos 9 anos, apenas 59,8% das meninas e 51,2% dos meninos foram vacinados, enquanto aos 12 anos a cobertura sobe para 90% delas e 87,2% deles.
Kfouri reforça que quanto mais cedo a dose é aplicada, maior a eficácia, o que justifica a recomendação a partir dos 9 anos, antes de uma eventual exposição ao vírus. Segundo o médico Osvaldo Leal, do Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), em 2014 surgiram relatos de meninas que teriam apresentado desmaios e convulsões em decorrência da vacina.
Embora a relação entre os episódios e a imunização tenha sido posteriormente descartada pelas autoridades, a desinformação foi o suficiente para abalar a confiança da população e alimentar uma desconfiança que persiste até hoje. No Acre, municípios do entorno de Rio Branco, como Porto Acre e Bujari, registram cobertura inferior a 30% até agosto, refletindo a desinformação, falhas de comunicação entre secretarias municipais e a gestão estadual, e dificuldades logísticas típicas de cidades menores.
Na capital, a cobertura era de 43,61%, resultado que Leal atribui à baixa mobilização e à falta de prioridade dada ao tema. O Dia D da vacinação, realizado em agosto, ilustrou bem o tamanho do desafio.
Das 5 mil doses destinadas, apenas 3.170 foram aplicadas, e os municípios de Sena Madureira e Bujari precisaram remarcar suas ações para o final de semana seguinte. Para reverter o quadro, o estado aposta em ações de comunicação, vacinação dentro das escolas e mobilização fora das unidades de saúde.
Como exemplo positivo, Roraima é um dos estados com maior cobertura vacinal contra o HPV no país, ultrapassando os 100%, o que é explicado pela população flutuante na região, especialmente em áreas fronteiriças. Em Pacaraima, município que faz fronteira com a Venezuela, a cobertura ultrapassa os 700%, fenômeno explicado pela aplicação de doses em pessoas que migram do país vizinho.
A gerente do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Débora Dias, aponta a logística de transporte como um dos principais obstáculos para a vacinação. A chamada hesitação vacinal também existe, mas divide espaço com questões territoriais e demográficas que tornam a operação mais complexa.
O estado utiliza o Programa Saúde na Escola, que leva a vacinação aos estudantes diretamente nas escolas, e trabalha com os municípios para organizar as ações. Além disso, alguns têm uma população majoritariamente indígena, o que pede o envolvimento e atuação dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs).
Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, a combinação de fatores é ainda mais complexa. O município tem uma das piores coberturas do estado, com só 37,2% das meninas vacinadas.
O coordenador de Vigilância Epidemiológica do município, Robson Tardivo, diz que parte dos moradores é vacinada fora de Belford Roxo, enquanto o município também recebe moradores de outras cidades, distorcendo a cobertura local. Ele alega ainda que a irregularidade no fornecimento de doses é um desafio, dado que o município recebeu 7.500 doses do imunizante em 2025.
Neste ano, segundo ele, até agosto, apenas 3.100 foram enviadas pela secretaria estadual de saúde. A barreira mais difícil, porém, é a violência.
Áreas sob influência de grupos armados podem obrigar unidades de saúde a fechar durante o expediente, interrompendo tanto a vacinação de rotina quanto o trabalho das equipes de busca ativa. Diante desse cenário, o município passou a levar a vacinação para fora dos postos.
No Dia D, realizou ações em escolas, unidades móveis, igrejas, indústrias e batalhões da Polícia Militar. No Rio de Janeiro, dados mostram uma recuperação da cobertura nos últimos anos, mas a distância para a meta de 90% ainda é relevante.
Em 2024, os índices eram de 69,1% e 52,6%, subindo em 2025 para 73,9% e 60,6%, respectivamente. A Secretaria de Saúde do Estado diz que reforçou o apoio técnico e operacional à vacinação dentro das escolas e incluiu o HPV entre as prioridades do fortalecimento da imunização, além de promover ações e campanhas de comunicação.
Até 31 de dezembro de 2026, crianças e adolescentes de até 19 anos que não completaram o esquema vacinal podem ser alcançados por uma estratégia de resgate definida pelo Ministério da Saúde. Para Kfouri, é uma oportunidade valiosa, sobretudo entre os que têm de 15 a 19 anos e ainda não receberam a dose única.
Alcançar a meta de cobertura passa por enfrentar obstáculos distintos em cada território. Reconstruir a confiança abalada pela desinformação que afeta todo o país, superar distâncias e fronteiras, combater a violência armada e a falta de doses são desafios que precisam ser superados em prol do controle do câncer e da melhora da saúde pública nacional.
* alunos do curso Jornalismo do Futuro sob supervisão de Constança Tatsch
O Globo